31.10.10

Shutter Island (Ilha do Medo)




2010
Suspense

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Laeta Kalogridis






Você não imagina a minha emoção neste momento por estar iniciando uma crítica de um filme lançado neste ano. Não me lembro quando foi a última vez que assisti a um tão recente! Então, vamos ao que interessa:

Ashecliffe é um hospital psiquiátrico para loucos criminalmente condenados e perigosos, localizado em uma ilha chamada Shutter Island. Após o desaparecimento de uma de suas pacientes, os dois agentes federais Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) vão até a misteriosa ilha para iniciar uma investigação. Entretanto, os psiquiatras Dr. John Cawley (Ben Kingsley) e Dr. Jeremiah Naehring (Max von Sydow), os funcionários e até mesmo os pacientes de Ashecliffe parecem estar todos escondendo algo.

Ilha do Medo é um filme baseado no livro Paciente 67, de Dennis Lehane. A história, ambientada em 1954, ganhou todo um clima noir nas mãos do inspiradíssimo Scorsese. Eu não sou especialista em film noir, mas algumas referências ao gênero são claras, como a trilha-sonora exagerada, o tema obscuro envolvendo conspirações, o figurino, algumas tomadas de câmera e até mesmo uns pequenos erros pontuais de continuidade que só podem ter sido propositais (em dado momento uma personagem bebe água de um 'copo invisível').

Após filmes como Os Infiltrados e O Aviador (que, a propósito, também contam com DiCaprio no papel do protagonista), que foram sem dúvida ótimos filmes, eu ainda aguardava que Scorsese voltasse a me encantar da maneira como o fez em Cabo do Medo ou Taxi Driver. E foi com Ilha do Medo que Scorsese conseguiu. Me conseguiu.

Sério, eu estou embasbacada. Estupefata. Boquiaberta. Desbaratinada. Apaixonada.

Não posso dizer que o filme é absolutamente perfeito. Ao menos, não o é para muita gente. Seu alvo mais criticado é o roteiro, julgado previsível em demasia e com explicações além da conta nas cenas finais. Não nego que tais características existam, mas não consigo vê-las como um grande problema (ou mesmo como um problema at all), tendo em vista o modo como a direção as conduziu. Veja bem, após uma segunda sessão do filme, fiquei convencida de que a previsibilidade não só não é apenas uma característica, como é proposital. Assim, da mesma maneira como todos escondem a verdade do agente Daniels, ao mesmo tempo eles querem que ele a descubra o quanto antes. Consequentemente, essa mesma relação acaba se dando entre Scorsese e o espectador.

Quanto às explicações, não as achei excessivas. Decerto que qualquer um já havia entendido o recado ao final de Ilha do Medo, mas cada 'repetição' e reafirmação dos fatos tem seu propósito na própria história. Além disso, ainda que eu encarasse essas questões como defeitos ou pequenos 'pecados', a última cena já serviria para neutralizá-los.

A despeito disso, não há como negar que Scorsese estava tão inspirado que atingiu aqui um nível de excelência magistral. A trilha-sonora é absurdamente sufocante e angustiante. A cena que retrata o trajeto feito pelos agentes desde o cais até o hospital é de se tirar o fôlego - e nesse momento o filme praticamente ainda nem havia começado! Auxiliada por essa trilha e por uma fotografia impecável, a história se desenvolve de maneira quase claustrofóbica, criando um suspense psicológico como poucos vistos. De alguma forma, o diretor conseguiu transformar a insanidade em algo quase palpável, uma entidade que nos ameaça e da qual devemos fugir - mas ela está sempre no nosso encalço. Inclusive, já nos primeiros minutos do filme, comentei com meu marido que o Scorsese estava era querendo nos deixar loucos.

Os efeitos especiais merecem um comentário à parte. A tecnologia é tão bem empregada, que se torna uma aula para os diretores mais novos e afoitos. Os efeitos são utilizados somente quando a cena pede e apenas o suficiente para enriquecê-la. Não é o uso da tecnologia pela tecnologia - é a tecnologia pela arte.

E sobre os atores, não irei falar? Oh, sim, impossível passar em branco. Não só DiCaprio, como todo o elenco. Mark Ruffalo e Ben Kingsley seguram seus papéis em uma dosagem milimétricamente calculada, estão perfeitos - principalmente se avaliados em uma segunda visita ao filme. Max von Sydow mantém uma postura ameaçadora, mas sem exageros, igualmente excelente. A pequena aparição de Jackie Earle Haley é digna de nota. E, claro, DiCaprio, demonstrando mais uma vez sua imensa capacidade. Se é que alguém ainda duvidava de seus dotes, não há como negá-los após assistir Ilha do Medo. Eu sempre o tive como um grande ator, mesmo quando todos o julgavam apenas um rostinho bonito. Aliás, se alguém me apontar um trabalho em que o rapaz esteja mesmo que mediano, ganha um prêmio. Novamente, Scorsese entrega a DiCaprio um personagem complexo e com uma enorme carga dramática - em certos momento Daniels me lembrou a Srta. Giddens de Os Inocentes -, e ele recebe o papel com muita segurança e habilidade.

É como eu disse, Scorsese me ganhou. Vejo Ilha do Medo se inserindo com facilidade entre os meus filmes preferidos, independente de gênero. E falo, sem medo, que é um dos melhores suspenses já feitos até hoje.

24.10.10

The Fourth Kind (Contatos de 4º Grau)




2009
Ficção Científica, Suspense
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro:
Olatunde Osunsanmi
e Terry Robbins






Como cinema (no sentido físico e não conceitual) não faz parte do meu vocabulário há alguns anos, não tive o prazer de ser tapeada pelo Sr. Osunsanmi. Não sei se eu cairia na farsa (prefiro acreditar que não), mas dentro da sala de cinema, onde o filme parece engolir a gente, não duvido que eu ficaria inicialmente abalada com esta película. Mas não foi o caso, claro. Vi em casa, muito tempo depois de já saber do golpe publicitário, e fui percebendo as diversas falhas que comprovam, antes de qualquer notícia, que Contatos de 4° Grau não passa de mais uma ficção.

A psicóloga Dra. Abbey Tyler (Milla Jovovich / Charlotte Milchard) perdeu recentemente o marido em circunstâncias muito estranhas, e sua família ainda sofre com essa súbita falta. Moradora de Nome, uma pequena cidade do Alaska, a Dra. Tyler decide dar continuidade ao tratamento dos pacientes de seu marido, que apresentavam estranhas coincidências entre os casos. Aos poucos, Abigail percebe que essas coincidências podem ter alguma ligação com a morte de seu marido, e podem colocar sua vida e a de seus filhos em perigo.

Inicialmente apresentado como sendo baseado em fatos reais, Contatos de 4° Grau traz uma novidade que o faz se destacar dentre seus predecessores: paralelamente às cenas gravadas com os atores em estúdio, Osunsanmi nos apresenta também as supostas gravações reais cedidas pela 'verdadeira' Dra. Abigail Tyler. Essas imagens 'reais' muitas vezes dividem a tela com as cenas dramatizadas, para que possamos acompanhar simultâneamente as duas versões da história e atestar a fidelidade do filme aos acontecimentos.

Ao mesmo tempo que esse diferencial age a seu favor, por sua inovação e ousadia, é também o seu maior problema. Isso porque Milla Jovovich não é apenas fisicamente muito diferente de Charlotte Milchard, como a caracterização as distancia ainda mais. Enquanto Charlotte apresenta uma Dra. Abigail em frangalhos, estrambólica e que em alguns momentos beira o catatonismo de quem já não tem mais forças, Milla está ainda mais linda do que de costume, nos brindando com uma personagem forte e decidida. Claro que a diferença de comportamento se dá por a personagem estar sendo vista em diferentes momentos da sua vida. Porém, isso não minimiza os fatos, já que, com isso, a impressão que fica é a de que temos duas pessoas distintas - o que dificulta a aproximação entre o espectador e a protagonista.

Una a essa partição da personagem principal as diversas falhas e inverossimilhanças de roteiro e temos um filme que não consegue sustentar sua mentira nem mesmo enquanto está sendo assistido. Eu não fico ofendida pela tentativa de ser enganada, ao contrário. Porém, se é para enganar, faça-o bem feito. Como eu disse, talvez dentro de uma sala de cinema, com aquele som alto e a telona que nos envolve,
Contatos de 4° Grau poderia até conseguir me confundir durante a sessão, mas um breve contato com o mundo real já seria o suficiente para que meus neurônios acordassem de seu estado hibernatório.

Apesar disso tudo, devo confessar que gostei do filme. As gravações da Dra. Abigail podem não ser muito esclarecedoras pois pouco de fato mostram, mas as imagens retorcidas e os gritos fazem um bom trabalho no quesito "manter o espectador apreensivo". E o efeito deve ser ainda maior em quem tem predisposição a acreditar em extraterrestres. No fim, acho que o saldo é positivo, mas com tanto potencial para ser um filme excelente, fica um gostinho de insatisfação na boca.

14.10.10

Avatar

2009
Aventura, Ação,
Ficção Científica
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron



Eu queria muito assistir esse filme em 3D, porque era a única coisa que me incitava a assití-lo. A sinopse era muito comum e aquele povo azul não me conquistou à primeira vista. Mas eu tinha uma curiosidade por esse 3D tão falado. O problema é que não consegui ir ao cinema e nessa eu perdi a oportunidade.

Jake Sully (Sam Worthington) deverá substituir seu irmão gêmeo em uma missão especial em um novo mundo chamado Pandora. A missão é controlar os corpos Na'vi criados em laboratorio (avatares) pela Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver) e se passar por um desses nativos de Pandora. É assim que ele conhece Neytiri (voz de Zoe Saldana), uma Na'vi que o ajudará a compreender os valores e a cultura desse povo.

É estranho como alguém consegue ser tão hábil na direção de um filme a ponto de em apenas um minuto de cena já conseguir prender completamente a atenção de um telespectador que sequer tinha vontade de assistir ao filme pra começo de conversa. Pois foi assim que aconteceu. Eu estava de passagem na casa dos meus pais e meu pai quis me mostrar a qualidade do blu-ray que ele havia comprado. Assim, ele colocou a primeira cena de Avatar. Em menos de um minuto eu exigi que ele parasse o filme. Motivo? É que apenas com aquela cena curtíssima já me deu uma vontade enorme de saber o que viria a seguir, e eu sabia que não poderia assistir ao filme todo naquele momento. Então, era melhor parar tudo logo, antes que eu fosse tragada pelo filme. Por sorte, no mesmo final de semana, descobri que meu sogro estava com Avatar em sua casa. Não preciso dizer que na primeira oportunidade coloquei o filme pra rodar, não é?!

Fiquei impressionada com a maneira como James Cameron conseguiu fazer um roteiro que, ainda que rasíssimo, me manteve envolvida com aquela história desde o seu início até o último segundo. Mesmo esta sendo tão previsível e comum. E, sabe, por mais que eu adore filmes e goste de conversar e escrever sobre eles, ainda não consigo compreender como é que um cara consegue fazer esse tipo de coisa: deixar interessante e intrigante uma história que eu praticamente já conheço.

E não é só a história. Os personagens também são todos uma releitura de milhares que já os precederam inúmeras vezes. Jake, Dra. Grace, Neytiri, os vilões Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e Peter Selfridge (Giovanni Ribisi) e até mesmo o secundário Norm Spellman (Joel Moore). Todos personagens que eu já vi tantas vezes em tantos filmes. E, ainda assim, são personagens cativantes (ou odiosos) e envolventes, são personagens que são bem apresentados e provocam empatia no espectador. A gente sente o que eles sentem e compreende suas ações.

Dentro desse âmbito, é bom citar que os atores são todos excelentes. Sigourney Weaver dispensa comentários e mais uma vez dá um banho de atuação que deixa qualquer um embasbacado; Sam Worthington em seu segundo papel de grande destaque provou que é capaz de segurar um filme de peso com bastante eficiência e Giovani Ribisi simplesmente conseguiu me fazer esquecer que ele é o irmão doidinho da Phoebe na série Friends (o que não é fácil!).

Outro fator que ajudou sobremaneira a dar vida aos personagens e ao filme como um todo foi a excelência tecnológica dos efeitos especiais. Os Na'vi ficaram tão perfeitos que a gente esquece que eles não existem de verdade. Eles têm expressões tão bem feitas que parecem ser simplesmente excelentes atores grandes e azuis! E todo o cenário, a natureza, as plantas que brilham... Tudo perfeitamente produzido com um realismo incrível. Durante o tempo de duração do filme Pandora existiu, os Na'vi existiram; era turo real para mim.

E foi assim que, apesar dos pesares, Avatar me conquistou. Talvez não seja o melhor filme do ano, mas com certeza é um filme que irá entrar para a história das aventuras. É um filme que seduz a gente, que faz querer reassistir e dividir com quem a gente gosta. E, vamos combinar, tecnologicamente ele já vem se tornando referência para o cinema que o sucede.