24.7.16

Dead Ringers (Gêmeos - Mórbida Semelhança)



1988
Drama, Suspense
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg e Norman Snider




Estava eu deitada na cama, rolando de um lado para o outro. Até que finalmente percebi: não consigo tirar esse filme da cabeça. Assim, fui obrigada a me levantar, a sair do calor e conforto, e me dirigir a uma sala fria e escura. Só porque esse filme é bom assim.

Beverly (Jeremy Irons) e Elliot (Jeremy Irons) são gêmeos, idênticos. Desde crianças, compartilham suas experiências. Todas. Compartilham tudo. Até que a atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold) surge entre eles e evidencia algo com o qual eles não podem lidar: suas identidades.

Essa noite meu texto será passional, pessoal e íntimo. Não procure aqui tecnicalidades, pois hoje, debaixo do edredom, eu apenas senti. Há quanto tempo não vejo os créditos finais subindo, enquanto noto o meu coração disparado e a excitação de ter sido tomada por aflição e desespero, mesmo sabendo que está tudo bem, que estou segura e que “aquilo é só um filme”?

Jeremy Irons é um espetáculo na tela. Brilhante, como não podia deixar de ser. Ele mergulha de cabeça em duas personalidades que se distinguem e se confundem na mesma proporção. Que são tão iguais, que a todo momento estamos incertos sobre quem estamos vendo e, ao mesmo tempo, tão diferentes que não podemos imaginar seres mais opostos.

David Cronenberg, juntamente com sua equipe costumeira, é um mágico por trás das câmeras, faz com que cada cena nos provoque mais e mais angústia. Mas lentamente, com cuidado, tudo muito bem dosado. O roteiro é brilhante e um de seus poucos roteiros não originais, é baseado no livro Gêmeos, de Barri Wood e Jack Geasland.

Não espere aqui o Cronenberg completamente bizarro, o Cronenberg absolutamente grotesco. Não se preocupe, você vai encontrar o bizarro e o grotesco, com a diferença de que não estará pulsando na tela, se derramando para fora até você se encolher, temendo ser devorado. O que você vai encontrar é um Cronenberg maduro e meticuloso, mas que não perde sua identidade. Sua habilidade nesse quesito me remeteu a um filme muito posterior, do Darren Aronofsky, sobre o qual já falei aqui: Cisne Negro. E, tal qual neste último, você vai sim se encolher, mas temendo pela sua sanidade.


A licença poética é muito bem dosada, tornando-se a cereja do bolo. Não se apegue ao factível, não se agarre ao que é real. Todos sabemos quais as cores usadas em uma sala de cirurgia, por exemplo, se ele mudou, entenda, ele o fez de propósito. Faça como Bev, abra os braços, vista-se de vermelho e mergulhe na insanidade, ou faça como Eli, entregue-se e deixe-se levar por esta experiência fantástica e perturbadora. Qualquer que você escolha, o resultado será o mesmo. Apenas não lute contra, pois irá doer.

19.7.16

Naked Lunch (Mistérios e Paixões)






1991
Drama (segundo o IMDb, mas eu não sei classificar)
Direção: David Cronenberg
Roteiro: William S. Burroughs (livro) e David Cronenberg




Pense em um diretor obcecado por sangue, pus, sexo, gore. Pense que esse diretor tem nas mãos um dos livros que inspirou toda a sua carreira. Pense que ele tem a oportunidade de fazer sua apoteose. Pense na minha decepção.

Bill Lee (Peter Weller, para sempre o nosso Robocop) é um dedetizador que, influenciado pela esposa, acaba se viciando no produto usado como inseticida. Em seus delírios, comete um ato que o leva a fugir para o Norte da África e mergulha em uma trama permeada de seres grotescos, enquanto se entrega ao desejo de ser um escritor.

Comecemos pelo fato que David Cronenberg escreveu e dirigiu filmes como Calafrios (1975), Enraivecida na Fúria do Sexo (1977) e, posteriormente, Crash – Estranhos Prazeres (1996), todos uma ode à depravação. Além disso, ele também é responsável por filmes como Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983), A Mosca (1986) e, posteriormente, eXistenZ (1999), todos uma ode ao grotesco e ao bizarro.

Agora, vamos falar sobre Almoço Nu, o livro no qual Mistérios e Paixões (que droga de nome horrível!) foi baseado. Burroughs o escreveu em meio às suas crises de alucinações e delírios, durante os anos em que foi viciado em toda e qualquer substância imaginável, principalmente a morfina, publicado em 1959, quando já havia se curado do vício. Um livro considerado infilmável, e com razão. Praticamente não uma há linha cronológica, muito menos o que se pode considerar uma história. Temos um apanhado de cenas e situações onde o caralho, o cu e a merda são os protagonistas*. Em meio a essas cenas, lá para mais da metade do livro é possível perceber que alguns personagens aparecem com mais frequência. E é somente através de uma tentativa de colocar suas pequenas histórias em um contexto e de interligá-las, que ao final podemos considerar que realmente o que lemos era um livro. 

Em Almoço Nu, as pessoas são acinzentadas, esverdeadas, azuladas ou amareladas, a depender do momento ou da droga que usam. Há uma galeria de deformidades, como protuberâncias, feridas abertas, gente que derrete, gente que desintegra, pessoas parecidas com répteis e viciadas em sêmen de mugwumps, gente que bebe outras pessoas até consumi-las por inteiro, médicos fazendo cirurgias em mictórios ou com abridores de lata. Sem contar os seres estranhos e/ou indescritíveis, como babuínos de bunda pelada, latahs e os já citados mugwumps. Praticamente todos os personagens fazem sexo, praticamente o tempo todo, 99% dos personagens são gays, mas se não são, se vendem a qualquer um por um pouco de droga, qualquer que seja ela.

Agora, nós voltamos ao Cronenberg, que declaradamente tem o Burroughs como uma de suas maiores inspirações – o que faz TODO sentido – e que resolve adaptar o livro infilmável. Ele poderia fazer absolutamente qualquer coisa que sua mente insana pudesse imaginar. Pois uma adaptação desse livro comportaria. Ele poderia dar adeus à cronologia, fazer um roteiro sem pé nem cabeça, ele poderia satisfazer toda a sua vontade de praticamente fazer um pornô misturado com horror gore. Mas não. Em Mistérios e Paixões, não vemos um peladinho, há um roteiro praticamente redondinho, com pessoas fisicamente normaizinhas e, ah, para não dizer que não tem bizarro, tem mugwumps e insetos gigantes. 

Ok. Estou exagerando ao simplificar o roteiro e os personagens. Porém, o que eu vi na tela não está nem perto da demência do livro. Lógico que eu não acho que tinha que ser uma adaptação fiel. É realmente infilmável. Mas era a grande chance do Cronenberg de tocar o terror, de pirar, e ele desperdiçou! É frustrante terminar de ler aquela insanidade toda e cair num filme no qual o máximo de bizarrice são cenas pontuais de delírio, visivelmente separadas das cenas “reais”. Por quê? Fora o início do filme e, talvez, um ou dois outros momentos, as cenas em que o Lee não está drogado seriam totalmente desnecessárias. O filme tinha que ser 90% de alucinação! 

Aliás, quero falar sobre o Lee um pouquinho. Uma das melhores coisas desse filme foi a ideia de trazer a vida real do Burroughs para o roteiro. O caso em que ele mata a esposa ao brincar de Guilherme Tell é verídico. E Burroughs realmente fugiu para o Norte da África após cometer o crime acidental. Colocar isso no filme, mesmo não estando no livro, é genial. Mas que porcaria é essa de o Lee não ser gay?! O Burroughs era! É uma droga ter que ver ele se reafirmando o-tempo-todo, como se fosse algum demérito do filme representar a sexualidade do protagonista tal como era a da pessoa na qual foi baseada.

Mas, apesar de decepcionante, o filme não é um fracasso completo – nem perto disso. Como disse, trazer a vida do Burroughs para a tela foi genial, inclusive porque é o ponto que possibilita a linearidade ao roteiro. Veja bem, não acho ruim a linearidade, só acho que ficou tudo muito redondinho. Além disso, trazer uma máquina de escrever-inseto para a história ficou perfeito. E todos os momentos de alucinação são pequenas obras-primas. Também é uma sacada inteligentíssima colocar trechos do livro declamados por Lee e, eventualmente, por outro personagem lendo seus textos. Aliás, o Cronenberg é um puta diretor. Por mais que o roteiro não seja o meu preferido, em termos de direção não consigo criticar nada. Ele cria um clima noir que tem tudo a ver e faz cenas memoráveis. 

Eu sei que a minha decepção vai acabar abrandando (já está, na verdade). Acho que ainda estou muito intoxicada com o livro e perdi a noção do que é aceitável e normal e do que é depravação e bizarrice. E imagino que futuramente irei gostar mais do filme. É o tipo de filme que vai crescendo na gente, que quanto mais a gente lembra dele, mais descobre pequenas pérolas. O Cronenberg sabe fazer filmes assim. Geralmente a gente sai enojado, depois pensa bem e vai descobrindo que gostou.

Na verdade, me sito uma farsa, hipócrita. Que cara de pau a minha, criticar o mestre Cronenberg enquanto escrevo um texto tão... normal. Essa também era a minha chance de pirar o cabeção, falar palavrões, não fazer sentido. E desperdicei.




* Desculpe-me o palavreado, mas é impossível falar de Burroughs em termos mais amenos.