6.3.11

A sedução do Cisne


Este é um aprofundamento ou continuação do texto já publicado há algumas semanas sobre o filme Cisne Negro.



Eu li algumas críticas internet afora e nem todas são favoráveis ao filme, como a maioria. Então, como fui ao cinema e assisti Cisne Negro novamente, busquei analisar se eu concordava com alguma dessas argumentações negativas. Mas o fato é que a minha opinião em nada mudou e eu apenas consegui ficar mais e mais adimirada com a beleza da película, na mesma proporção em que fiquei inconformada com as tais críticas.

Aprimeira vez que li algo de ruim sobre Cisne Negro, o texto embasava grande parte de sua argumentação no fato de que Natalie Portman não é bailarina, que sua dança não é absoulatemnte perfeita e que o filme não satisfaz enquanto "filme de balé"¹. Eu, sinceramente, acho que reduzir Cisne Negro a um 'filme de balé' é de uma falta de sensibilidade tão grande que me choca. O filme é sobre alguém que se doa tanto para seu trabalho que acaba perdendo a própria identidade, é sobre uma garota que cresceu reprimida e se vê com a necessidade de libertar seus desejos mais íntimos, sobre alguém que é tão insegura que só consegue buscar a perfeição ao tentar se espelhar em pessoas que adimira. 


O fato de o pano de fundo ser o balé O Lago dos Cisnes foi uma excelente idéia, já que a própria história contada no balé pode servir de metáfora para a história do filme. Foi um toque de mestre, mas não foi o ponto de partida. Tanto é que, inicialmente, o roteiro ambientava a história no mundo do teatro, mas Aronofsky sugeriu, brilhanemente, transmutá-la para o mundo do balé.²

Outro ponto levantado foi sobre o suspense do filme e as ferramentas utilizadas. É engraçado como em um lugar eu li que o filme é confuso e por isso cansativo, em outro eu li que ele é óbvio demais. O que significa que a gente (eu me incluo nisso, óbvio) costuma julgar o bom e o ruim não de forma objetiva, e sim totalmente subjetiva. Ele é bom ou ruim para mim. Enquanto alguém se cansou ao acompanhar a luta de Nina para manter sua sanidade, se perdendo entre o real e o irreal, eu me deleitei com cada momento. Não me incomodou em nada o fato de ficar cada vez mais claro durante o filme que a garota tinha problemas psicológicos, pois cada cena em que Aronofsky desnuda sua mente perturbada foi envolvente o bastante para eu sentir como ela. Durante as quase duas horas de projeção eu era a Nina.


A idéia dos espelhos foi amplamente utilizada, sim, mas isso gerou cenas belíssimas, com um timing preciso. E eu até concordaria que houve um excesso, se esse fosse o único recurso de Aronofsky. Em vez disso, o homem nos joga em meio a uma intensa autoflagelação, com aquele destaque sonoro perfeito, unida a uma tensão sexual constante. Os espelhos ou os 'truques de terror japonês'³,  também criticados, não são ferramentas originais, mas são extremamente adequadas para a situação. Pois eu, particularmente, adimiro um diretor que conhece os artifícios de sua profissão e sabe escolher o ideal para cada situação, a despeito de seu uso em outros filmes. Porque o resultado é inegável. Cada cena foi responsável por uma parte da minha incersão no drama, cada vez mais intenso (e tenso). Quantas vezes eu não me vi me contorcendo na cadeira do cinema, numa tensão avassaladora? E o que resultou disso foi uma sensação latente, como se eu estivesse sentindo a dor de Nina, como se eu estivesse delirando junto com ela. Ora, mas não posso dizer que essa sensação foi absolutamente particular, visto o sucesso que o filme vem fazendo, de uma forma geral. 

Outros recursos foram apontados como óbvios e reiterantes demais do que se passava na mente de Nina⁴. E eu continuo me perguntando qual o problema nisso, se cada recurso serviu como uma luva para atingir o objetivo de transmitir as sensações desejadas. Vale dizer que, eu entendo esse filme da seguinte forma: as sensações da platéia são um espelho das sensações da personagem. Se eu sinto aflição, é pela Nina. Não há aflição pela aflição.


Enfim, cada palavra escrita aqui é um apontamento subjetivo, mas uma tentativa de objetivar as minhas idéias. Espero que o texto seja visto também como o início de uma discussão saudável, e não como um debate pessoal. Eu  quero deixar claro que respeito os críticos referenciados, e adimiro em especial a dupla que escreve para o Cinefilia, Bruno e Pedro Henrique. A intenção real minha era mais escrever sobre as qualidades que eu vejo no filme, aproveitando para rebater o que havia sido apontado negativamente. Ou seja, o ideal é que o texto seja visto mais como uma ode ao Darren Aronofsky, do que como uma represália aos seus críticos, rs. Afinal, não se pode concordar sempre, ainda bem!





1. Arthur Xexéo, A morte do 'Cisne'.
3. Bruno Cava, Cisne Negro (2).
4. Pedro Henrique Gomes, Cisne Negro (3).

Um comentário:

Mirna disse...

O Cisne Negro é um dos melhores filmes que vi na minha vida. Eu também acho que é uma das melhores performances de Natalie Portman, mas quando ela era pequena agiu no melhor filme de todos os tempos. Aqui ela tem uma personalidade dividida, sedutora. Sedutora como um perfume sedutor, o tipo que é irresistível, tão irresistível para os outros como ela.