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21.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 3

Chegamos, então, ao final desse especial dedicado a Daria Nicolodi. Caso tenha perdido, comece pela primeira parte, na qual eu escrevo sobre sua vida e carreira, depois siga para a parte 2, em que meu foco está em seu trabalho longe de Dario Argento. 

A intenção dessa série de textos sobre Daria Nicolodi, para além de fazer uma homenagem à artista, foi também trazer à luz um problema que as mulheres vinham (e continuam) enfrentando dentro da indústria cinematográfica: o apagamento, o descrédito. Nicolodi, além de atriz, contribuiu de diversas formas para os filmes dos quais participou, mas o pouco crédito que recebeu não veio sem muita insistência e luta. Não à toa sua filha Asia teria dito que ela a ensinou a "chutar as bolas"¹. Daria parecia não ter um gosto especial por brigar e lutar, mas ela foi levada a isso para não ter seu nome apagado em questões que para ela eram importantes. Ela sabia que dentro de uma indústria comandada por homens e para homens, uma mulher não seria facilmente ouvida ou levada à sério.

Daria Nicolodi é exemplo de resiliência, mas também de força de vontade e firmeza. Definitivamente, uma mulher incrível.

Assim, como não poderia ser diferente, hoje finalizo me dedicando a dois dos meus filmes preferidos estrelado por Nicolodi, ambos em parceria com seu então companheiro, Dario Argento.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi), com os cabelos longos molhados, está gritando com as mãos apertando as laterais da cabeça. Está enquadrada do peito para cima, vestindo uma camisa bege de manga longa, parada dentro de um cômodo e em frente a uma porta ou janela branca aberta. Do lado de fora há um jardim e chove abundantemente.
Tenebre



1982
Giallo, Terror, Mistério, Suspense
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento





Os anos passam e nossa percepção muda.

Assisti Tenebre pela primeira vez em 2012 e, de acordo com minha lembrança, era um filme do qual eu havia gostado muito. Não me lembrava, no entanto, que havia tanta coisa para não se gostar nele. É interessante porque hoje eu acho esse filme ainda melhor do que antes, e, mesmo assim, passei a gostar menos dele.

Vou começar com os problemas. Talvez o que mais me incomoda no filme é a consciência de ser sexista e ainda debochar disso. Em seu primeiro terço, a impressão que tenho é que Argento se dedicou a criar situações misóginas que chegam a destoar do que ele próprio vinha fazendo em sua carreira, em uma reação exagerada e infantil às criticas que o cinema italiano de horror, e por consequência ele mesmo, vinha recebendo. É só notar o contraste do que estou escrevendo aqui com o que você lerá abaixo sobre o próximo filme. 

E ele não se limita ao visível ataque às mulheres. A coisa fica ainda mais pesada quando a sexualidade dessas mulheres entra em jogo. Se a inspetora assistente é ridicularizada, isso piora com relação à namorada do protagonista, ainda mais com a jornalista lésbica, até culminar em uma representação que chega a ser perversa da personagem secundária bissexual.

Só a personagem de Daria Nicolodi se salva, e nem muito. Trata-se da secretária do protagonista que, apesar de extremamente eficiente e de fazer um ou dois comentários ácidos e certeiros, tem pouca relevância em termos de pensamento investigativo, com raros momentos de iniciativa e ação com relação ao desenrolar da trama. Nicolodi, por sinal, tampouco estava animada com a personagem. Inclusive, a maravilhosa cena do grito (da imagem ilustrativa) foi o resultado da Daria descontando ali as suas frustrações reais com relação às filmagens².

O roteiro tenta justificar em algumas falas do protagonista que o problema está no vilão, mas é o retrato que Argento faz das personagens pré-morte, o modo como ele entende que elas são e se comportam, o que mais me ofende. O problema não é o "vilão", o problema é como possivelmente o filme reflete o próprio cineasta. Ademais, Argento parece ter se inspirado em uma situação real em que um fã começou a persegui-lo². SPOILER: tal qual o protagonista que no fim das contas era apenas mais um misógino fruto da mágoa pela rejeição tentando fingir-se de progressista, sinto que parece ser o caso do Argento, guardadas as devidas proporções. Assim, da mesma forma que o assassino do livro espelha o subconsciente do autor, o roteiro do filme de certa forma espelha o subconsciente do diretor - ou o consciente, pois isso tudo foi, em algum nível, proposital. 

Contudo, a atriz que faz a moça de sapato vermelho da praia é uma mulher transgênero, Eva Robins. Em 1982, quão raro isso era? Vai entender o Dario Argento. Acho que faz parte da complexidade do ser humano... 

Além disso, como eu afirmei acima, as situações mais problemáticas se concentram em sua maioria no primeiro terço do filme. Depois disso, a direção primorosa de Argento quase me faz perdoá-lo. Chega a dar raiva ser "obrigada" a gostar tanto de um filme do qual eu estava gostando tão pouco. Chamo a atenção para talvez um dos momentos que mais me colocaram embasbacada: um travelling em que a câmera vai seguindo bem em close pela fachada de uma casa moderna magnífica ao som da música tema do filme - como sempre, as escolhas de locação e a trilha-sonora continuam a ser grandes diferenciais nos filmes do diretor. Essa cena de dois minutos e meio levou três dias para ser filmada; as distribuidoras norte-americanas queriam cortá-la do filme para o lançamento nos EUA, mas felizmente Argento se recusou³.

Assim, é, talvez, com esse filme que Dario Argento fecha o combo giallo com mais precisão: tem assassino que odeia mulheres (e misoginia em geral), câmera em primeira pessoa pelo olhar do assassino, arma cortante, assassino de luva preta, protagonista homem, trama cheia de reviravoltas, a estética apurada e trilha-sonora marcante. E, de fato, o filme é uma grande homenagem ao giallo literário e aos livros de detetive em geral, visto que, por exemplo, seu protagonista é um escritor de sucesso desse gênero e chega a citar Arthur Conan Doyle. O roteiro, por sinal, é muito elaborado e bem trabalhado - só prefiro não me alongar falando sobre ele pois seria praticamente impossível não entregar spoilers de algum tipo ao fazê-lo.

Em todo caso, apesar de minhas críticas ao filme ocuparem a maior parte da resenha, Tenebre continua sim sendo um dos melhores filmes do diretor. O caso é que se eu for me alongar muito descrevendo as qualidades de Argento, soarei repetitiva, visto que são características marcantes na sua filmografia toda. Talvez o que eu ainda não mencionei é o fato de que ele filma as mortes com um senso estético tão apurado quanto o que ele usa para suas ambientações. Os enquadramentos e a montagem de duas mortes em específico são arrebatadores: na primeira destaco a visão do rosto da vítima através do rasgo da camiseta, e a antepenúltima,  pela quantidade e "comportamento" de sangue na cena.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo ondulado castanho claro cortado um pouco acima dos ombros e franja reta cortada um dedo acima das sobrancelha. Tinha a mão direita abaixada junto ao tronco e a levanta até o lado do rosto enquanto gira uma piteira rapidamente entre os dedos. A câmera acompanha o movimento da mão. Ela usa camisa branca e blazer preto, lápis preto contornando os olhos e está em um como de paredes claras e bem iluminado.
Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso)

1975
Giallo, Terror, Mistério, Suspense
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Bernardino Zapponi



Possivelmente o meu filme preferido do Dario Argento - só não digo com mais certeza, pois Suspiria é uma obra-prima, mas gostar, gostar mesmo, acho que gosto mais de Prelúdio Para Matar. E é, definitivamente, o meu giallo preferido. Sendo que boa parte da minha afeição por esse filme se deve à presença de Daria Nicolodi. Sua personagem Gianna traz a leveza e irreverência perfeitas para balancear o tema pesado que há na história e, segundo a própria Daria, alguns de seus diálogos foram reescritos por ela junto com Zapponi⁴.

A versão originalmente lançada nos EUA possuía 22 minutos a menos. Foram retiradas todas as cenas de humor e as cenas de romance, além de parte da própria trama⁶. Quando penso que isso retirou boa parte das aparições de Nicolodi do filme, fica fácil entender o motivo de ele ter sido um fracasso nos EUA à época do lançamento. A propósito, a versão que se encontra com maior facilidade atualmente é a que tem simultaneamente o áudio em inglês e em italiano, porque não havia a dublagem em inglês das cenas cortadas.

Gosto de Gianna não só porque ela é divertida, mas também por ser uma personagem inteligente e ousada para a época, ainda mais em se tratando do cinema de horror italiano, o qual, como já disse, era extremamente misógino. Gianna tem voz ativa, é determinada, arrojada e ambígua. SPOILER: Ela faz os avanços para cima do personagem de David Hemmings, ela investiga e o instiga a investigar, ela até mesmo o salva. Aliás, o filme quebra com outras características inerentes ao giallo: em Prelúdio Para Matar as vítima não são sempre mulheres e o próprio assassino é um mulher. Sem contar que temos um personagem coadjuvante gay e uma personagem secundária trans, ambos tratados de forma respeitosa pelo protagonista - novamente, algo muito raro para a época e para os giallo (mas, infelizmente, o personagem gay acaba morrendo ao final). 

Mas a influência de Nicolodi vai mais longe do que sua atuação impecável e carismática. Daria foi a pessoa que sugeriu a banda Goblin para a trilha-sonora do filme⁵ e, inclusive, participou da composição das músicas⁴. E posso dizer sem titubear que a música tema de Prelúdio Para Matar é uma das melhores criações feitas para o cinema e faz parte do meu dia a dia - não à toa a retrospectiva do Spotify apontou "vintage italian soundtrack" como o 5º gênero que eu mais ouvi em 2020.

Prelúdio Para Matar, como eu disse na primeira parte desse especial, foi quando conheci e me apaixonei por Daria Nicolodi. E o mesmo pode dizer Dario Argento. Foi na audição desse filme que eles se conheceram e se apaixonaram⁵, ficando os próximos 10 anos juntos. Espero que Argento reconheça a influência positiva que Nicolodi teve em sua carreira. Para dizer o mínimo, ele deve a ela sua longa parceria de sucesso com a banda Goblin e, sem ela, não existiria Suspiria, seu maior sucesso.

Claro, Argento é (ou ao menos era) um diretor excepcional, como já afirmei outras vezes, até mesmo ali em cima. Seu senso estético e sua direção firme estão presentes desde seus primeiros trabalhos. Prelúdio Para Matar tem enquadramentos muito precisos e Dario tem uma habilidade impressionante para criar momentos de tensão a partir de poucos elementos. Além disso, o filme possui ambientações que literalmente foram inspiradas em quadros⁷ e uma mansão abandonada que até hoje é um dos meus cenários preferidos. Também destaco, pensando no sucesso de Prelúdio Para Matar, a sagacidade de Zapponi e Argento ao pensarem em mortes com as quais os espectadores pudessem estabelecer uma relação⁶ - o tipo de dor gerado por um tiro ou uma facada não é algo que muita gente já experimentou, mas queimaduras e abrasões são dores relacionáveis e que praticamente todo mundo já sentiu.

Enfim, com um ótimo elenco, personagens que quebram estereótipos de gênero e sexualidade, um roteiro bem construído, mortes antológicas, cenários inspiradíssimos (repito, aquela mansão abandonada, que coisa ma-ra-vi-lho-sa!), uma trilha-sonora absolutamente perfeita, não posso deixar de amar Prelúdio Para Matar.

Assim, finalizo minha homenagem a uma mulher incrível com esse filme igualmente incrível.



...

¹ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
² Tenebrae (film). In: Wikipedia : the free encyclopedia.
³ Tenebre (1982): Trivia. In: IMDb.
⁴ Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.
⁵ FOTI, Titti Giuliani. Daria Nicolodi: "La mia svolta? Fare la nonna". LA NAZIONE, Firenze, 21 set. 2014.
⁶ Deep Red. In: Wikipedia : the free encyclopedia.

25.11.20

O Que Ficou Para Trás (His House)

Um homem (Sope Dirisu) e uma mulher (Wunmi Mosaku), ambos negros, sentados no chão sobre um tapete vermelho, frente à frente, em um ambiente cujas paredes estão descascadas e remendadas. Ele tem cabelo preto muito curto e ela usa seu cabelo preto em um penteado que o deixa preso em ondas rente à cabeça. Entre eles, uma toalha clara de mesa estendida ao chão e um jantar e velas espalhados sobre ela. Os dois estendem o braço ao centro da toalha para se servirem de comida. Por causa da iluminação e do cenário, a cena tem uma tonalidade predominantemente alaranjada.

 

2020
Terror, Drama, Suspense
Direção: Remi Weekes
Roteiro: Remi Weekes, Felicity Evans e Toby Venables
 




Bol Majur (Sope Dirisu) e Rial Majur (Wunmi Mosaku) acabam de chegar à Inglaterra após fugir de uma guerra no Sudão do Sul e perder a pequena Nyagak (Malaika Wakoli-Abigaba) durante a travessia. O casal irá enfrentar, além das dificuldades para se adaptar no novo país e relativas ao luto, a perseguição de uma entidade que os acompanhou: O Bruxo (Javier Botet).

Assisti a O Que Ficou Para Trás já ansiosa e cheia de expectativas, após ter ouvido uma série de elogios espalhados sobre ele. Trata-se do longa de estreia de Remi Weekes, de modo que impressiona a habilidade do diretor em construir momentos de absoluta tensão recheados de ápices assustadores. 

O filme mantém-se na tendência da última década, de retomada do terror psicológico que pontuou o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, de calcar-se em situações reais entremeadas por algo sobrenatural - de modo que o sobrenatural costuma vir com uma carga metafórica que reforça e/ou amplia o sentido do horror já criado pela situação real posta. Vemos isso claramente em O Bebê de Rosemary (1968) e Inverno de Sangue em Veneza (1973), bem como em O Babadook (2014), Corra (2017) e Relic (2020), por exemplo.

No entanto, Remi dá um passo adiante, simultaneamente recuperando o susto como instrumento dentro do terror, o qual estava bastante desgastado após sua utilização ter sido esvaziada de sentido ao longo da história do gênero. Não é exagero quando digo que já há muito tempo não me deparo com um lançamento cinematográfico que tenha me atormentado com uma quantidade tão grande de sustos. E o grande pulo do gato é, digamos, a ausência de um pulo do gato. Trocadilhos à parte, o trunfo de Weekes é conseguir ancorar todos os sustos com absoluto sentido dentro de cada cena. Não há sequer um susto vazio, nenhum uso do clichê "era apenas um gato". 

Assim, o filme traz um casal atormentado por uma entidade sobrenatural, pelo luto e pela culpa, de modo que esses três elementos se fundem para criar uma atmosfera de deslocamento e desespero, permeada por momentos indiscutivelmente aterradores. Para além disso, os dois se encontram agora inseridos em uma nova cultura, enfrentando preconceito, humilhações e tendo que lidar com sentimentos conflitantes de gratidão e raiva. Rial e Bol estão sozinhos em um lugar hostil, que os recebe a contragosto e exige uma subserviência à qual é muito difícil de se submeter. Estão sozinhos e têm apenas o apoio mútuo ao qual recorrer. No entanto, quanto mais problemas surgem, mais eles se distanciam um do outro, ampliando cada vez mais a sensação de desolamento e desesperança. 

A ambientação é muito bem construída, de modo a reforçar as sensações desejadas. Quando Bol resolve explorar a cidade pela primeira vez, seu estado de espírito se traduz tanto nas locações quanto nas relações com os figurantes. Já Rial encontra uma cidade completamente diversa: labiríntica, ameaçadora. A própria casa onde moram vai se modificando com as ações dos protagonistas, ajudando a estabelecer um cenário que espelha a saúde mental dos mesmos. Por fim, ainda no quesito ambientação, a edição de som e trilha-sonora, em específico nas sequências mais calcadas no terror explícito, fazem um trabalho excelente no sentido de aumentar exponencialmente a nossa inquietação e medo puro. 

Além disso, mesmo se passando na Inglaterra, o longa nos coloca em contato com uma cultura menos eurocentrada, por meio do figurino, linguagem e das cenas que se passam no Sudão do Sul (sejam reais, lembradas ou imaginadas). E até mesmo a figura do bruxo, com sua história e caracterização, nos coloca em contato com novas crenças.

O filme conta com atuações primorosas da dupla de protagonistas e com a certeira participação de Matt Smith. Sope Dirisu entrega uma atuação inicialmente carismática - carisma esse que passa a ser de extrema importância conforme a trama se desenrola - e obsessiva, enquanto Wunmi Mosaku (que faz parte do elenco da muito comentada série Lovecraft Country, lançada neste ano) traz sensibilidade entremeada com dureza, também imprescindíveis para compor sua personagem.

E é por tudo isso que Remi Weekes entra para a minha lista de grandes promessas do cinema contemporâneo. Vamos ficar atentos! Afinal, diante de tantas qualidades, não há dúvidas de que recomento O Que Ficou Para Trás com louvor!


26.6.20

A Moça do Pijama Amarelo (La Ragazza dal Pigiama Giallo)

Em primeiro plano, um rapaz banhado em luz vermelha segura uma espingarda de brinquedo e mira em um totem de arcade. Em segundo plano, no centro da imagem, o investigador idoso com sobretudo e chapéu caminha vindo da porta de entrada em direção ao rapaz. A fachada e a porta de entrada são de vidro, mostrando a rua e o dia claro; do lado de dentro, diversos filiperamas e pessoas jovens.





1978
Mistério, Suspense, Giallo
Direção: Flavio Mogherini
Roteiro: Flavio Mogherini e Rafael Sánchez Campoy




Thompson (Ray Milland), um inspetor aposentado na Austrália, fica sabendo sobre o assassinato de uma jovem e consegue autorização para participar paralelamente das investigações.

Cerca de dez anos atrás, eu descobri o giallo italiano¹. Trata-se de um subgênero do terror, ou praticamente um gênero à parte, em uma mistura de terror com mistério (principalmente policial). Nasceu enquanto cinema na Itália na década de 1960, atingindo talvez seu auge na década seguinte. 

Existem elementos que são comuns aos gialli, ainda que não seja uma regra possuir todos: a trama gira em torno de um assassino serial (que mata preferencialmente mulheres); as armas do assassino são facas ou objetos cortantes e/ou pontiagudos; o assassino usa luvas de couro pretas; as mulheres são hipersexualizadas e objetificadas, suas mortes são estilizadas e fetichizadas; a estética se sobrepõe ao conteúdo (locações, iluminação, enquadramento costumam ser mais valorizados do que o roteiro e o desenvolvimento dos personagens); um homem, que não necessariamente é um detetive profissional, irá investigar o crime; são filmes que não são muito longos, mas são lentos, cheios de elementos e confusos.

Esse gênero me conquistou muito rápido por causa dessa ligação forte com as histórias policiais, pois me remetem a uma memória afetiva que envolve meus avós paternos, em especial a minha avó Nena. Ela não apenas plantou em mim a sementinha do amor pelo terror já na minha infância, como também a sementinha do amor pelo suspense policial. Eu tenho aqui no meu íntimo que ela teria se apaixonado pelo giallo junto comigo, se estivesse viva. Então, quando assisto a esses filmes, sinto como se ela estivesse por perto. 

Opa, quase dei uma choradinha agora. Isso está virando um diário e eu ainda não comecei a falar sobre o filme que dá nome ao texto. Então vamos seguir adiante.

Pelos motivos já mencionados, alguns gialli acabaram se tornando meus "confort movies" e nas últimas semanas cresceu a vontade de conhecer novos títulos. Foi assim que, em meio a algumas bombas cinematográficas, encontrei A Moça do Pijama Amarelo.

Não se trata de um filme perfeito, longe disso. Propõe situações completamente absurdas, como: o Inspetor Thompson não respeita nenhum tipo de procedimento e autoridade, apesar de já estar aposentado e sequer oficialmente estar ligado à investigação, ele apreende provas sem o menor cuidado e esconde dos investigadores; o inspetor oficialmente responsável conduz depoimentos e usa de violência para obter confissões; o corpo nu da vítima é colocado em uma espécie de vitrine para ficar exposto na esperança de alguém o identificar (se não bastasse, a posição em que o corpo é colocado faz parecer que está posando para uma revista!). Contudo, é muito comum encontrar esse tipo de situação em filmes da época. 

Além do mistério policial, A Moça do Pijama Amarelo possui outros elementos que o identificam como um giallo. Um deles, que pode ser percebido por um dos itens comentados no parágrafo acima, é a exploração do corpo feminino. Outro é o excesso de elementos, personagens e histórias. Entretanto, paralelamente à investigação, o roteiro dá grande enfoque a uma personagem chamada Glenda (Dalila Di Lazzaro), e o modo como a história da personagem se interligará à investigação é algo que foge do padrão e traz um diferencial importante. Além disso, apesar de Glenda participar da cena mais grotesca do filme² (e é até bom que seja grotesca, pois geralmente esse tipo de cena em outros filmes é tratada com certa fetichização), me agrada muito que seja uma personagem interessante e que o roteiro a desenvolva em toda sua complexidade, mostrando suas contradições e seu sofrimento.

Outra característica marcante do gênero que encontramos no filme é o fato de ser extremamente arrastado. Porém, mantendo o padrão giallo de qualidade, a paleta de cores e a iluminação são absolutamente perfeitos! Os enquadramentos, a fotografia e a trilha sonora belíssimos! Fiquei tão encantada com cada cena, que pouco me importava a sua lentidão.

No entanto, o longa se afasta do giallo ao não apostar no horror e não transformar o roteiro em um pretexto para o assassinato serial e estilizado de mulheres. Não vemos muito sangue e há, inclusive, raros momentos de suspense. E não falo isso como demérito nem elogio, mas apenas como uma característica que me surpreendeu.

Por fim, fica aqui a minha recomendação. Se você gosta de investigação policial e valoriza filmes com uma estética marcante e bem acabada, releve os absurdos e procure assistir A Moça do Pijama Amarelo.

...

¹ Se você quiser saber mais sobre o giallo, sugiro o vídeo "Você conhece o Giallo Italiano?" da Carissa Vieira.

² Quero enfatizar que seria melhor até que algumas pessoas mais sensíveis pulassem essa parte, que ocorre próxima ao final do filme - e não se preocupe, quando a cena está para começar, já é possível identificá-la e acelerá-la, pois além de extremamente desconfortável, é MUITO longa.

13.5.19

Especial Vincent Price - parte 2

Continuando essa série dedicada ao querido Vincent Price, para esse momento selecionei alguns filmes que por algum motivo desapareceram por completo da minha memória, mas que eu sentia que mereciam minha atenção (sim, a seleção dessa semana foi puramente instintiva!).

Caso queria ler desde o início, a parte 1 do especial está aqui.

Assim, abaixo mais quatro filmes revisitados:


Foto em preto e branco. Vincent Price acuado de costas para uma janela aberta, com as mãos agarradas no peitoril, olha para algo fora da cena, seus olhos estão arregalados e a boca aberta, em sinal de absoluto pavor. Usa jaleco branco sobre camisa.
Força Diabólica (The Tingler)

1959
Terror
Direção: William Castle
Roteiro: Robb White



Tem tanta coisa errada e tanta coisa certa ao mesmo tempo que eu nem consigo mensurar.

A relação do personagem do Vincent Price com a esposa segue por um caminho muito delicado e normaliza uma situação em particular que é bastante problemática. Ainda com relação à esposa dele, a trilha sonora chega a atingir momentos não intencionais de comicidade ao tocar melodias sensuais executadas por saxofone praticamente toda vez que a personagem entra em cena.

Contudo, existe muita habilidade em se criar tensão ao longo do filme. Além disso, em vários momentos há a quebra da quarta parede efetuada de maneira bastante interessante e que funciona muito bem com a história.

Ponto positivo: há uma personagem deficiente auditiva.
Ponto negativo: essa personagem sofre violência psicológica extrema tendo sua deficiência como condicionante (ela é mulher, claro).


Em primeiro plano e embaçadas, duas fileiras de garrafas de vinho sobre uma mesa. Centralizado, no fim do corredor de garrafas, Vincent Price segura delicadamente um suporte metálico pela alça (isso substitui uma taça de vidro, mas é bem mais raso). Seus olhos estão comicamente arregalados e sua boca faz um biquinho de quem se prepara para sorver o vinho.Muralhas do Pavor (Tales of Terror)

1962
Terror, Comédia
Direção: Roger Corman
Roteiro: Richard Matheson e Edgar Allan Poe (poema)


Temos aqui três contos novamente baseados em poemas de Edgar Allan Poe - é um nome comum de se ler ao lado do de Vincent Price.

A qualidade dos contos vai crescendo ao longo do filme. O primeiro é uma história absurda em todos os sentidos, que se salva apenas pela atuação de Vincent Price (o modo como ele consegue interpretar alguém que fez algo absolutamente horrível no passado e mesmo assim ser muito carismático).

O segundo é uma comédia maravilhosa em que Peter Lorre nos premia mais uma vez com um alcoólatra muito bem executado e engraçado. As caras e bocas de Vincent Price ao degustar vinho são, também, um presente.

E o terceiro é, de longe, o mais impactante! Cria um clima de terror absoluto durante toda a história, apelando para os efeitos visuais grotescos apenas nos últimos minutos. Seria esse um exemplo de "pós-horror"? (risos)


O Caçador de Bruxas (Witchfinder General)

1968
Terror, Drama
Direção: Michael Reeves
Roteiro: Tom Baker, Michael Reeves, Louis M. Heyward (cenas adicionais) e Ronald Bassett (romance)

É muito difícil ser mulher e fã de filmes de terror. É com frequência que nos deparamos com nossos corpos sofrendo todo tipo de violência em função de uma narrativa. Ainda assim, é com alegria que eu vejo que não era o costume levar essas situações ao extremo nos filmes em que Vincent Price participou, ainda que pontualmente isso ocorresse invariavelmente em muitos de seus filmes.

Mas é com profundo pesar que me deparo com O Caçador de Bruxas. Assisti à versão do diretor, que possui as cenas que não foram exibidas à época do lançamento por serem fortes demais. Temo que essas cenas são de fato muito pesadas até mesmo para os padrões do cinema atual.

O filme é desagradável e parece extremamente longo, apesar de possuir apenas uma hora e 26 minutos. Eu me lembrava de não ter gostado dele quando o vi pela primeira vez e, se me lembrasse o motivo, não o teria visto novamente. Foi realmente difícil aguentar até o final.

Apesar disso, achei interessante pensar em como Vincent Price tem uma atuação muito contida nesse filme, o que coloca o caçador de bruxas bem distante daqueles personagens dramáticos que ele costumava fazer.




O Solar de Dragonwyck (Dragonwyck)

1946
Suspense, Drama, Terror
Direção: Joseph L. Mankiewicz
Roteiro: Joseph L. Mankiewicz e Anya Seton (romance)



Uau!

Esse filme tem um discurso muito poderoso e inusitadamente atual. Baseado no livro de Anya Seton, há uma atmosfera de suspense crescente e o terror é pontual e bastante sutil. No entanto, há algumas ressalvas; por exemplo, quanto a ligar o ateísmo ao caráter do arrendador Nicholas Van Ryn ou quanto ao modo como Johanna parece ser ridicularizada por seu apetite voraz e, consequentemente, pelo seu corpo.

Gene Tierney tem uma atuação primorosa como a protagonista Miranda Wells e Vincent Price está insuportavelmente lindo (ou seria insuportável e lindo?). É uma pena que o roteiro tenha se esquecido da pequena Connie Marshall, visto que sua participação é de tamanha importância na primeira metade da história. Mas me agrada muito a presença de Jessica Tandy como a criada Peggy.

Eu poderia escrever um texto muito maior para discutir as questões levantadas por esse filme, e quem sabe, um dia o farei. Por enquanto, contudo, fica apenas a minha recomendação veemente para que seja assistido!


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A parte 3 estará disponível aqui a partir do dia 20/05/2019.

24.7.16

Dead Ringers (Gêmeos - Mórbida Semelhança)



 

1988
Drama, Suspense
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg e Norman Snider



 


Estava eu deitada na cama, rolando de um lado para o outro. Até que finalmente percebi: não consigo tirar esse filme da cabeça. Assim, fui obrigada a me levantar, a sair do calor e conforto, e me dirigir a uma sala fria e escura. Só porque esse filme é bom assim.

Beverly (Jeremy Irons) e Elliot (Jeremy Irons) são gêmeos, idênticos. Desde crianças, compartilham suas experiências. Todas. Compartilham tudo. Até que a atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold) surge entre eles e evidencia algo com o qual eles não podem lidar: suas identidades.

Essa noite meu texto será passional, pessoal e íntimo. Não procure aqui tecnicalidades, pois hoje, debaixo do edredom, eu apenas senti. Há quanto tempo não vejo os créditos finais subindo, enquanto noto o meu coração disparado e a excitação de ter sido tomada por aflição e desespero, mesmo sabendo que está tudo bem, que estou segura e que “aquilo é só um filme”?

Jeremy Irons é um espetáculo na tela. Brilhante, como não podia deixar de ser. Ele mergulha de cabeça em duas personalidades que se distinguem e se confundem na mesma proporção. Que são tão iguais, que a todo momento estamos incertos sobre quem estamos vendo e, ao mesmo tempo, tão diferentes que não podemos imaginar seres mais opostos.

David Cronenberg, juntamente com sua equipe costumeira, é um mágico por trás das câmeras, faz com que cada cena nos provoque mais e mais angústia. Mas lentamente, com cuidado, tudo muito bem dosado. O roteiro é brilhante e um de seus poucos roteiros não originais, é baseado no livro Gêmeos, de Barri Wood e Jack Geasland.

Não espere aqui o Cronenberg completamente bizarro, o Cronenberg absolutamente grotesco. Não se preocupe, você vai encontrar o bizarro e o grotesco, com a diferença de que não estará pulsando na tela, se derramando para fora até você se encolher, temendo ser devorado. O que você vai encontrar é um Cronenberg maduro e meticuloso, mas que não perde sua identidade. Sua habilidade nesse quesito me remeteu a um filme muito posterior, do Darren Aronofsky, sobre o qual já falei aqui: Cisne Negro. E, tal qual neste último, você vai sim se encolher, mas temendo pela sua sanidade.


A licença poética é muito bem dosada, tornando-se a cereja do bolo. Não se apegue ao factível, não se agarre ao que é real. Todos sabemos quais as cores usadas em uma sala de cirurgia, por exemplo, se ele mudou, entenda, ele o fez de propósito. Faça como Bev, abra os braços, vista-se de vermelho e mergulhe na insanidade, ou faça como Eli, entregue-se e deixe-se levar por esta experiência fantástica e perturbadora. Qualquer que você escolha, o resultado será o mesmo. Apenas não lute contra, pois irá doer.

6.3.11

A sedução do Cisne


Este é um aprofundamento ou continuação do texto já publicado há algumas semanas sobre o filme Cisne Negro.



Eu li algumas críticas internet afora e nem todas são favoráveis ao filme, como a maioria. Então, como fui ao cinema e assisti Cisne Negro novamente, busquei analisar se eu concordava com alguma dessas argumentações negativas. Mas o fato é que a minha opinião em nada mudou e eu apenas consegui ficar mais e mais adimirada com a beleza da película, na mesma proporção em que fiquei inconformada com as tais críticas.

Aprimeira vez que li algo de ruim sobre Cisne Negro, o texto embasava grande parte de sua argumentação no fato de que Natalie Portman não é bailarina, que sua dança não é absoulatemnte perfeita e que o filme não satisfaz enquanto "filme de balé"¹. Eu, sinceramente, acho que reduzir Cisne Negro a um 'filme de balé' é de uma falta de sensibilidade tão grande que me choca. O filme é sobre alguém que se doa tanto para seu trabalho que acaba perdendo a própria identidade, é sobre uma garota que cresceu reprimida e se vê com a necessidade de libertar seus desejos mais íntimos, sobre alguém que é tão insegura que só consegue buscar a perfeição ao tentar se espelhar em pessoas que adimira. 


O fato de o pano de fundo ser o balé O Lago dos Cisnes foi uma excelente idéia, já que a própria história contada no balé pode servir de metáfora para a história do filme. Foi um toque de mestre, mas não foi o ponto de partida. Tanto é que, inicialmente, o roteiro ambientava a história no mundo do teatro, mas Aronofsky sugeriu, brilhanemente, transmutá-la para o mundo do balé.²

Outro ponto levantado foi sobre o suspense do filme e as ferramentas utilizadas. É engraçado como em um lugar eu li que o filme é confuso e por isso cansativo, em outro eu li que ele é óbvio demais. O que significa que a gente (eu me incluo nisso, óbvio) costuma julgar o bom e o ruim não de forma objetiva, e sim totalmente subjetiva. Ele é bom ou ruim para mim. Enquanto alguém se cansou ao acompanhar a luta de Nina para manter sua sanidade, se perdendo entre o real e o irreal, eu me deleitei com cada momento. Não me incomodou em nada o fato de ficar cada vez mais claro durante o filme que a garota tinha problemas psicológicos, pois cada cena em que Aronofsky desnuda sua mente perturbada foi envolvente o bastante para eu sentir como ela. Durante as quase duas horas de projeção eu era a Nina.


A idéia dos espelhos foi amplamente utilizada, sim, mas isso gerou cenas belíssimas, com um timing preciso. E eu até concordaria que houve um excesso, se esse fosse o único recurso de Aronofsky. Em vez disso, o homem nos joga em meio a uma intensa autoflagelação, com aquele destaque sonoro perfeito, unida a uma tensão sexual constante. Os espelhos ou os 'truques de terror japonês'³,  também criticados, não são ferramentas originais, mas são extremamente adequadas para a situação. Pois eu, particularmente, adimiro um diretor que conhece os artifícios de sua profissão e sabe escolher o ideal para cada situação, a despeito de seu uso em outros filmes. Porque o resultado é inegável. Cada cena foi responsável por uma parte da minha incersão no drama, cada vez mais intenso (e tenso). Quantas vezes eu não me vi me contorcendo na cadeira do cinema, numa tensão avassaladora? E o que resultou disso foi uma sensação latente, como se eu estivesse sentindo a dor de Nina, como se eu estivesse delirando junto com ela. Ora, mas não posso dizer que essa sensação foi absolutamente particular, visto o sucesso que o filme vem fazendo, de uma forma geral. 

Outros recursos foram apontados como óbvios e reiterantes demais do que se passava na mente de Nina⁴. E eu continuo me perguntando qual o problema nisso, se cada recurso serviu como uma luva para atingir o objetivo de transmitir as sensações desejadas. Vale dizer que, eu entendo esse filme da seguinte forma: as sensações da platéia são um espelho das sensações da personagem. Se eu sinto aflição, é pela Nina. Não há aflição pela aflição.


Enfim, cada palavra escrita aqui é um apontamento subjetivo, mas uma tentativa de objetivar as minhas idéias. Espero que o texto seja visto também como o início de uma discussão saudável, e não como um debate pessoal. Eu  quero deixar claro que respeito os críticos referenciados, e adimiro em especial a dupla que escreve para o Cinefilia, Bruno e Pedro Henrique. A intenção real minha era mais escrever sobre as qualidades que eu vejo no filme, aproveitando para rebater o que havia sido apontado negativamente. Ou seja, o ideal é que o texto seja visto mais como uma ode ao Darren Aronofsky, do que como uma represália aos seus críticos, rs. Afinal, não se pode concordar sempre, ainda bem!





1. Arthur Xexéo, A morte do 'Cisne'.
3. Bruno Cava, Cisne Negro (2).
4. Pedro Henrique Gomes, Cisne Negro (3).

27.2.11

The Happening (Fim dos Tempos)

2008
Ficção Científica
, Suspense
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro:
M. Night Shyamalan


Olá, meu nome é Thalita. "Olá, Thalita". Eu tenho um problema. Eu sou fã do diretor M. Night Shyamalan. Eu sempre o defendi quando a crítica especializada acabava com seus filmes. Até agora.

Estranhos acontecimentos assolam os centros urbanos, onde cada vez mais pessoas começam a tirar as próprias vidas sem motivo aparente. O professor Elliot Moore (Mark Wahlberg), sua esposa Alma (Zooey Deschanel) e a pequena Jess (Ashlyn Sanchez), filha de seu amigo Julian (John Leguizamo) precisam fugir e fazer o possível para sobreviver a essa calamidade.


É tão difícil fazer isso - mas deve ser feito. Lá vai: com Fim dos Tempos, seu penúltimo filme, M. Night Shyamalan decepciona até mesmo seus maiores fãs. Muito aquém de qualquer expectativa, o argumento não convence e as atuações só fazem piorar a situação da obra.

O grande problema de Fim dos Tempos é, definitivamente, a atuação precária de Mark Wahlberg, Zooey Deschanel e, até mesmo, Ashlyn Sanchez. Se Shyamalan havia conseguido retirar um grande ator de dentro de Bruce Willys, dessa vez ele não conseguiu tirar nem mesmo o suficiente para chamarmos de atuação regular. Wahlberg não demonstra firmeza em seu papel, Zooey não consegue provocar nenhum sentimento no espectador por sua tristeza e culpa, e Ashlyn é bonitinha, mas não consegue conquistar a gente a ponto de querermos pegá-la no colo e privá-la de qualquer sofrimento. E olha que Shyamalan sempre teve o dom de fazer qualquer um se apaixonar pelas criancinhas de seus filmes. Assim, com um trio desses, a empatia - que geralmente amarra a platéia à película - é praticamente inexistente.

Se o grande problema dentro do filme foram as atuaçãoes, fora dele foi a própria presença de Shyamalan. Em uma entrevista dada pouco antes do lançamento do filme, o diretor fez a afirmação que se segue: "A primeira coisa que quero dizer às pessoas é o seguinte: 'Este é de fato um filme B divertido."' Acontece que Fim dos Tempos não nos remete a um filme B, pois ele é muito bem acabado para isso. Se fosse um filme B realmente, seria até mesmo injusto exigir muito apuro da trama ou das atuações. Porém, com a qualidade visual que vemos em Fim dos Tempos, ele acaba se tornando apenas um filme com falhas. E nem é tão divertido.


Quanto ao argumento: as plantas emitem um veneno, trazido pelo vento, que faz com que as pessoas percam completamente seu sentido de auto-preservação e se suicidem. Bem, é estranho, pois tinha tudo pra dar certo, mas não convence. Ao final do filme, minha família inteira estava tirando um sarrinho a esse respeito e eu, que instintivamente tendo a defender os filmes do Shyamalan, dessa vez fiquei de mãos atadas. Eu não estava convencida também. Sem contar que, estranhamente, neste filme Shyamalan faz questão de ser didático ao extremo, deixando tudo tão explicadinho que quase chega a ofender a nossa inteligência.

Mas entenda, não é que o filme seja completamente ruim. Entretanto, é de longe o pior trabalho de Shyamalan. E não dá para simplesmente apreciar um filme deste diretor isoladamente, como se fosse a obra de um Zé Ninguém. A partir do momento em que você ouve o nome dele, todo um repertório controverso lhe vem à mente e mesmo os mais incrédulos dos mortais não consegueria ficar indiferente. Afinal, tudo pode acontecer, você pode estar prestes a assistir um filme que entrará para a história do cinema, como foi O Sexto Sentido, como pode estar diante de um fracasso retumbante (por mais que você acabe gostando do filme), como A Dama na Água. E, como eu já tinha gostado de todos os 5 filmes que havia assistido, é natural que a minha expectativa estivesse nas alturas.

No entanto, por mais decepcionado que esteja o espectador, é inegável que as situações geradas pelo roteiro são incrívelmente tensas e assustadoras. Mesmo você achando que é uma balela, mesmo você nem ligando muito para o tal Elliot, você se segura na poltrona sempre que a câmera dá o sinal da menor brisa que seja. Shyamalan sabe usar sua câmera e sabe criar esses momentos de suspense, de aflição. E, veja só, eu assisti Fim dos Tempos num sítio e, as mesmas pessoas que estavam fazendo pouco caso do filme, adimitiram que atravessar o caminho em meio às árvores até chegar nos quartos não seria tarefa fácil.

No frigir dos ovos, o saldo se empata. Fim dos Tempos é um filme até mesmo interessante, mas que decepciona pelo que carrega em seu background.

20.2.11

Black Swan (Cisne Negro)




2010
Drama, Suspense
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Andrés Heinz, 
Mark Heyman e John McLaughlin






Para conseguir interpretar A Rainha Cisne no balé O Lago dos Cisnes, a bailarina Nina (Natalie Portman) precisa provar que é capaz de dançar como o Cisne Negro tão bem quanto o faz sendo o Cisne Branco. É isso o que exige Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da peça. No entanto, com a chegada da nova bailarina Lily (Mila Kunis), Nina teme perder a preferência do diretor.

Bom? Ótimo? Excelente? 

Não. 

Perfeito. 

O primeiro contato que tive com Cisne Negro foi através dos trailers. Fiquei empolgadíssima com o elenco, com a estética, com tudo. A cada cartaz, a cada imagem aleatória, a cada comentário que me caía ao conhecimento, mais interessada eu ficava. E aí sempre bate aquele medão de se decepcionar depois, né. Mas não foi o caso.

Cisne Negro cumpre com absolutamente tudo o que promete: atuações perfeitas, roteiro bem desenvolvido, história forte, edição de cenas e sonora impecáveis, estética lindíssima, efeitos especiais muito bem dosados e que agregam valor ao filme. Não há do que reclamar.

Natalie Portman já entrega o inevitável logo nas primeiras cenas. Não há dúvidas de que ela seja aquela mocinha frágil e travada, não há dúvidas de que ela seja o próprio Cisne Branco. E, como bailarina, mesmo que os especialistas no assunto possam notar algum movimento impreciso de suas mãos ou pernas, ela consegue fazer-nos entender porque ela é um Cisne Negro tão medíocre e, ao mesmo tempo, porque ela tem potencial para ser excepcional. Vincent Cassel faz seu papel com tamanha precisão que nos convence sem o menor esforço de que pode ser galã e sedutor, por mais feio que seja. Barbara Hershey, no papel da mãe de Nina, nos brinda com uma personagem complexa e executa seu papel lindamente. Mesmo Mila Kunis faz muito bem o papel de Lily, com bastante consistência.

O roteiro é tão bem construído que a gente vai entrando naquele relacionamento defeituoso entre mãe e filha, se envolvendo com os defeitos de cada uma. A isto se soma o relacionamento entre Nina e Thomas, cheio de cobranças, intimidade e tensão. E, para coroar, temos a própria personalidade auto-destrutiva de Nina. Pronto, temos um filme para nos deixar tensos  e incomodados do início ao fim.

É claro que para salientar e evidenciar cada aspecto, há a belíssima edição de som, os efeitos especiais perfeitamente  pontuais e a execução da trilha-sonora maravilhosamente adaptada do original O Lago dos Cisnes. Tudo isso é obra de uma direção que sabe muito bem a que resultado quer chegar. Obra de um diretor que tem uma visão quase onírica e precisa da história, e que sabe como traduzi-la em imagens.

E eu preciso salientar quão competente é esse diretor. Arofonsky sabe o que precisa para atingir seu objetivo e sabe usar essas ferramentas de maneira bem feita. O uso dos espelhos como figura de linguagem é inteligente sem ser óbvio demais ou cansativo. A posição da câmera que em certos momentos quase engole o rosto de Natalie Portman, em outros a segue pelas costas,  e, em outros ainda, a segue de frente, como se a personagem caminhasse olhando para si mesma. Ele sabe escolher o enquadramento ideal para cada momento, sem perder a unidade, e de modo a nos levar a fundo na mente da protagonista cada vez mais perturbada.

Para finalizar, nada tenho a dizer, a não ser: Darren Aronofsky acaba de ganhar uma fã inveterada. 

30.1.11

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet)






2007

Musical, Suspense

Direção: Tim Burton
Roteiro:
John Logan








Sweeney Todd
foi baseado na peça da Broadway de mesmo nome, escrita por Stephen Sondhein e com libreto de Hugh Wheeler.
O tema sobrio somado ao fato de ser musical já seriam o suficiente para fazer nascer algum interesse em mim, mas a presença de Tim Burton na cadeira da direção e de Johnny Depp como protagonista foi o meu grande motivador.

Após passar longos anos preso e ter sua filha e esposa tiradas de si, o barbeiro Benjamin Barker, agora conhecido como Sweeney Todd (Johnny Depp), quer sua vingança. Enquanto prepara o terreno para o encontro derradeiro com seu inimigo, o Juiz Turpin (Alan Rickman), o barbeiro faz uma mórbida sociedade com a estranha Sra. Lovett (Helena Bonhan Carter).


Acho que todos os que acompanham esse blog já estão mais do que cientes que eu sempre tento ser imparcial nos meus textos, não é? Também creio que nunca consegui enganar ninguém por muito tempo e, por isso, a parcialidade vira e mexe toma conta das resenhas. Basta ser de um diretor que eu goste, e eu já fico cega e surda (e louca?) para qualquer defeitinho. Assim, não sei se é essa minha predisposição por gostar de Tim Burton, ou se realmente o filme é perfeito mesmo, mas amei Sweeney Todd!

Bem, eu prefiro continuar me iludindo e acreditar que Sweeney Todd é de fato um filme excelente que pode conquistar mesmo aqueles avessos ao gênero musical. Isso porque, apesar de ser praticamente 100% cantado, o enredo é tão sedutor e repleto de humor-negro que pode-se facilmente desistir de se incomodar com a cantoria. Ainda assim, tenho ciência que acreditar que todos vão cair nas graças do barbeiro assassino é algo bastante utópico. Talvez seja melhor recomendar que a pessoa esteja no espírito ou, ao menos, preparada para o que vai assitir - dessa forma, a inserção na história poderá se dar sem tanta luta.

Entretanto eu me nego a acreditar que tenha existido alguma alma que assistiu a esse filme sem ter gostado de uma cena sequer. Não é possível que alguém tenha passado indiferente pelo momento magistral em que Sweeney Todd e a Sra. Lovett orquestram o grande plano que aplacará tanto a sede de sangue do barbeiro, quanto a necessidade de materia-prima para os pastéis da cozinheira. A música e a coreografia são impecáveis e tem a dosagem exata de humor-negro suficiente para imprimir um sorrisinho no rosto do espectador, apesar de qualquer nojo ou choque que este possa estar sentindo.

Pois o que ninguém pode negar, e dessa vez digo ninguém mesmo, é que a fotografia e a direção de arte de Sweeney Todd é simplesmente perfeita.
Não chega a ser um visual clássico dos filmes de Tim Burton, mas vê-se logo que sua melancolia companheira está presente aqui também. Desde a coloração sombria, quase em preto e branco, combinada com o vermelho evidenciado do sangue, passando pela maquiagem e figurino soturnos, assim como o são os cenários, e culminando no belíssimo colorido presente no momento em que a Sra. Lovett evidencia sua verdadeira intenção com relação a Sweeney Todd - foi tudo criado com muito esmero.

Já o elenco do filme é 'balanceado'. Johnny Depp novamente está brilhante. Aí está um ator que consegue encarar qualquer desafio: ele pode fazer tanto atuações absurdamente afetadas
quando o filme pede que o faça, por exemplo Jack Sparrow (Piratas do Caribe) ou Willy Wonka (A Fantástica Fábrica de Chocolate), como pode apresentar personagens delicados e contidos, como Sir James Matthew Barrie (Em Busca da Terra do Nunca) e Edward (Edward, Mãos de Tesoura). Alan Rickman, sempre preciso em qualquer filme, também esbanja seu talento. Em contrapartida, o casal jovemzinho interpretado por Jamie Campbell Bower e Jayne Wisener não convence em seu amor. Seja porque é tudo muito vazio e súbito, seja porque Jamie mais parece uma mocinha, ou mesmo porque Jayne mantém a mesma expressão o filme todo.

Fica difícil encerrar o texto sem louvar esse belo filme. Eu tento e tento, mas não consigo me convencer de que Sweeney Todd não seja um filme maravilhoso de um Tim Burton mais contido, mas não menos talentoso.


28.11.10

The Last Exorcism (O Último Exorcismo)




2010
Terror, Suspense

Direção: Daniel Stamm
Roteiro: Huck Botko e Andrew Gurland

 


Lá vamos nós outra vez. Outro filme em que o câmera-man é um dos personagens, dessa vez num falso documentário, O Último Exorcismo desafia a possibilidade do desgaste.

Reverendo charlatão, Cotton Marcus (Patrick Fabian) é um exorcista que não acredita em Deus nem no diabo - mas se julga um prestador de serviços eficiente, funcionando como um placebo. Depois de ler uma notícia em que um garoto morre durante um exorcismo, o homem começa a acreditar que sua profissão pode fazer mais mal do que bem às pessoas. Por isso, ele decide fazer um documentário em que expõe toda a falcatrua que existe por trás dos exorcismos, numa tentativa de acabar com essa prática. Assim, ele e uma pequena equipe vão em viagem para registrar seu último exorcismo, mas nem tudo sai como esperado.


Primeiro tivemos um desgaste do tema 'exorcismo' com Exorcista - O Início, Dominion e O Exorcismo de Emily Rose. Agora, quase 10 anos após o sucesso de A Bruxa de Blair, estamos vivendo uma overdose de filmes que se lançam como falsos documentários ou falsos filmes caseiros, como [REC] (1 e 2), Cloverfield e Atividade Paranormal (1 e 2). Dessa forma, não satisfeitos em abordar um tema fragilisado pela sua repetição, O Último Exorcismo decidiu abordar dois.

Com isso, quando o filme consegue fugir do lugar comum de um lado, entra no lugar comum do outro. É assim em diversas passagens, como o início com veia introdutória e com as perguntinhas aos moradores supersticiosos da pequenina cidade, aos moldes de A Bruxa de Blair; o exorcismo no celeiro de O Exorcismo de Emily Rose; os contorcionismos de qualquer filme de possessão. Até mesmo o final (e não leia o que vem a seguir se não quiser conhecê-lo ainda), ao mostrar um fim bastante trágico e muito diferente do usual dentre os filmes exorcisantes, repetiu a cena mais escolhida dentre os falsos documentários / caseiros: o corre-corre, a imagem super tremida e o grand finale da câmera caindo ao chão.

Além disso, quando O Último Exorcismo atinge a cena que, à priori, seria seu maior objetivo, o que é apresentado é de pouco interesse. Fora os impressionantes contorcionismos de Ashley Bell, que vive a possuída Nell, nada de chocante acontece. Há um diálogo quase banal entre Cotton e o demônio dentro de Nell, além dos citados contorcionismos. E tudo pelo qual esperávamos acabou antes mesmo de começar.

E, assim como a passagem do exorcismo é broxante, da mesma forma acontece no restante dos momentos chaves. Novos spoilers a seguir: enquanto é fácil aceitar que a câmera não mostra as mortes em A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal, o fato de estarmos com a sede de sangue insaciada pelo exorcismo sem sal torna quase irritante o momento final que esconde as três mortes do filme.
O que ajuda também na nossa revolta contra esse desfecho é a cena em que Cotton e sua equipe voltam para casa após descobrir que Nell está grávida de um namoradinho. Desnecessário tentar fingir que o filme terminava naquele ponto, com aquela música leve de happy ending. Era tudo tão previsível que eu cheguei a rir. E o que dizer sobre a morte do gatinho? O problema é que eu estava tão entretida imaginando a cena cômica (garota possuída por um demônio correndo pelo gramado enquanto se preocupa em filmar seu trajeto), que nem consegui me concentrar no bixano, coitado. Até porque o sangue do pobre tapou a nossa visão borrando a lente da câmera.

Entretanto, não só de defeitos é feito O Último Exorcismo. Contando com um bom elenco de atores desconhecidos, todos convencem em seus papéis, além de apresentarem personagens plausíveis - Cotton e Nell possuem a pitada certa de carisma necessário para envolver o espectador com a trama. Como sempre, digo que esse é um fator importantíssimo, senão um dos mais importantes ao se produzir um filme. Um personagem ou ator errado pode acabar com qualquer chance de o filme causar impacto no público.

O Último Exorcismo também conta com uma introdução bastante interessante das motivações de Cotton e é fator importante na construção do personagem. Outro bom momento é quando da reviravolta na história, em que o pai da menina quase se torna o grande vilão, injetando adrenalina em algo que parecia morno demais. E funciona, pois as correrias pela casa, o desconforto dos personagens por estarem longe de seus domínios e a confusão causada pela súbita mudança da fonte de terror fazem a tensão atingir bons picos no espectador.

Porém, é o fato de ficar em aberto a existência da possessão que se torna o grande trunfo que não pode ser ignorado. Junto a isso, agrega-se que o filme realmente funciona como maneira de escancarar a sempre existente exploração das pessoas utilizando-se de suas crenças.

Assim, apesar dos deslizes, o filme de Daniel Stamm consegue trazer algo de inovador em seu enredo. E, mesmo estando longe de se firmar como um dos grandes exemplares do terror, O Último Exorcismo é interessante ao seu modo.

21.11.10

Paranormal Activity 2 (Atividade Paranormal 2)




2010
Terror, Suspense
Direção: Tod Williams
Roteiro:
Michael R. Perry, Christopher B. Landon e Tom Pabst





Com algumas diferenças, o que vemos em Atividade Paranormal 2 é o já visto no primeiro. Entre melhorias e 'piorias', vale como explicação para a história e como uma revisitação às sensações que se tem ao assistir Atividade Paranormal.

Kristi (Sprague Grayden), seu marido Daniel (Brian Boland) e sua enteada Ali (Molly Ephraim) estão muito felizes com a chegada do novo mebro da família, o pequeno Hunter (William Pietro / Jackson Prieto). Quando o garoto já completou seu primeiro ano, um arrombamento na residência da família faz com que Daniel decida intalar um sistema de câmeras de vigilância interno. Porém, com o passar dos dias, Kristi e Ali começam a acreditar que a casa na verdade está sendo assombrada por um demônio.

Apesar da enorme semelhança com seu antecessor, Atividade Paranormal 2 poderia ser muito bom, se não falhasse justamente nos momentos em que tenta corrigir as falhas do outro. Uma das mudanças mais significativas fica a cargo do número de câmeras usadas no filme e a drástica diminuição da câmera em primeira pessoa. Porém, temos com isso uma faca de dois gumes. O recurso serve como uma maneira de diminuir a necessidade daquelas tomadas que não se justificariam num caso real - como ligar a câmera para discutir a relação, ou continuar filmando enquanto sua vida está por um fio.

Entretanto, com isso, nas cenas noturnas temos uma quebra de tensão, pois as imagens mudam rapidamente, mostrando a cada momento um cômodo da casa. Assim, perde-se a melhor coisa do primeiro filme,
que era o crescente medo e apreensão gerados pela imagem estática noturna do quarto do casal, em que a qualquer momento algo sobrenatural poderia acontecer.

Além disso, a filmagem em primeira pessoa era um ótimo recurso para aproximar o espectador da história, colocando-o quase como um personagem e fazendo-o sentir com mais intensidade os dramas e medos dos protagonistas. Porém, em Atividade Paranormal 2 esse tipo de cena não tinha como se sustentar sem a motivação do obcecado Micah para tal, o que fez com que o uso da filmagem em primeira pessoa fosse radicalmente diminuído. Mata-se assim, de uma tacada, os dois grandes pontos fortes de Atividade Paranormal.

Outra diferença visível fica a cargo do aumento do elenco. Além dos três protagonistas, do garotinho e de uma pequena participação da empregada da família, o filme ainda conta com Katie e Micah, os únicos principais personagens do primeiro filme. Temos também personagens um pouco mais carismáticos, principalmente pela presença do lindo menininho e de uma cachorra bastante simpática, o que ajuda muito a não deixar o filme cansativo enquanto apresenta o dia-a-dia da família.

Ainda assim, como no filme anterior, a ação demora muito a começar. E, com o problema da quebra-de-clima das excessivas mudanças de cômodos nos períodos noturnos, Atividade Paranormal 2 se torna tão maçante quanto o primeiro durante os 40 minutos iniciais.

De qualquer forma, mesmo com as modificações (para o bem ou para o mal), Atividade Paranormal 2 mantém o mesmo clima do anterior, utilizando-se até mesmo de sustos exatamente iguais. E sua maior qualidade é, de longe, a explicação que dá para os acontecimentos do primeiro filme. É um filme interessante para quem gostou do primeiro, mas não se sustenta sozinho.

7.11.10

Paranormal Activity (Atividade Paranormal)



2007 / 2009
Terror, Suspense

Direção: Oren Peli
Roteiro: Oren Peli





Com uma proposta simples a até bem executada, Atividade Paranormal peca onde não poderia, mas entrega um filme satisfatoriamente 'corrigido' aos cinemas.

Katie (Katie Featherston) desde sua infância enfrenta o medo de ocasionalmente presenciar estranhas manifestações paranormais à sua volta. Quando as manifestações voltam a perturbá-la e ao seu namorado Micah (Micah Sloat), este decide comprar uma câmera para tentar registrar os fenômenos.


Atividade Paranormal é um filme independente, feito com um orçamento de cerca de irrisórios U$15.000,00
, que foi lançado em alguns festivais em 2007, quando despertou o interesse da Paramount e de Steven Spielberg. Inicialmente, Spielberg tinha a intenção de refilmá-lo, colocando o próprio Peli na direção, mas após alguns percalços a idéia foi abandonada. A Paramount acabou optando por apenas fazer alguns cortes e pequenas inserções de cenas, mudando inclusive o final, por sugestão de Spielberg, e lançando o filme nos cinemas apenas em 2009. Não sem antes utilizar de uma bela estratégia de marketing que colocou Atividade Paranormal no mapa rapidamente.

A história do filme é muito simples e comum, a execução é bastante adequada, utilizando de idéias boas. As cenas noturnas (mesmo as em que nada acontece) são praticamente todas interessantes. A contagem do tempo é quase um personagem e o olho não sabe se se preocupa em averiguar a velocidade do marcador, ou se checa se tem algum fenômeno noturno acontecendo. Da mesma forma, o modo como os fenômenos vão se tornando cada vez mais presentes e impactantes, faz com que o filme cresça muito ao longo de sua projeção e crie uma ótima atmosfera de grande tensão.

Assim, a proposta é louvável, porém é um chute na trave. Eu quase gostei. Mas algumas cenas que a gente vê são injustificáveis demais, os atores são ruins demais, os personagens são inverossímeis demais. Aliás, está aí o maior problema: o personagem Micah é babaca demais. E eu não estava mais aguentando esse cara. Se o casal fosse mais simpático, talvez não tivesse sido uma tortura ficar 40 minutos sem que NADA acontecesse.

Eu assisti as duas versões do filme que pouco diferem, mas cujas pequenas mudanças são bastante importantes. Por sorte, alguém também achou o Micah um pé e cortou o que pôde de suas babaquices - questão de uma ou outra fala, realmente quase nada, mas já ajudou muito a deixar o filme mais interessante. Além disso, algumas cenas foram inseridas para a versão dos cinemas, que, entre cortes, inserções e mudanças, acabou ficando cerca de 10 minutos mais curto que o original. O final oficial é bem mais assustador, mas tão bom quanto o original. A diferença é que o segundo final dá margem à sequencia que, inclusive, já saiu nos cinemas.

A verdade é que me decepcionei demais com esse filme. Eu, que amei Bruxa de Blair e, diferente de Cloverfield, nesse caso não dá pra não pensar no filme da bruxa, já não aguentava mais ficar sentada esperando acontecer alguma coisa em Atividade Paranormal. Entretanto, devo adimitir que as qualidades existem e que é um filme de terror que pode facilmente cair no agrado das pessoas que gostam do gênero.

31.10.10

Shutter Island (Ilha do Medo)




2010
Suspense

Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Laeta Kalogridis





Você não imagina a minha emoção neste momento por estar iniciando uma crítica de um filme lançado neste ano. Não me lembro quando foi a última vez que assisti a um tão recente! Então, vamos ao que interessa:

Ashecliffe é um hospital psiquiátrico para loucos criminalmente condenados e perigosos, localizado em uma ilha chamada Shutter Island. Após o desaparecimento de uma de suas pacientes, os dois agentes federais Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) vão até a misteriosa ilha para iniciar uma investigação. Entretanto, os psiquiatras Dr. John Cawley (Ben Kingsley) e Dr. Jeremiah Naehring (Max von Sydow), os funcionários e até mesmo os pacientes de Ashecliffe parecem estar todos escondendo algo.

Ilha do Medo é um filme baseado no livro Paciente 67, de Dennis Lehane. A história, ambientada em 1954, ganhou todo um clima noir nas mãos do inspiradíssimo Scorsese. Eu não sou especialista em film noir, mas algumas referências ao gênero são claras, como a trilha-sonora exagerada, o tema obscuro envolvendo conspirações, o figurino, algumas tomadas de câmera e até mesmo uns pequenos erros pontuais de continuidade que só podem ter sido propositais (em dado momento uma personagem bebe água de um 'copo invisível').

Após filmes como Os Infiltrados e O Aviador (que, a propósito, também contam com DiCaprio no papel do protagonista), que foram sem dúvida ótimos filmes, eu ainda aguardava que Scorsese voltasse a me encantar da maneira como o fez em Cabo do Medo ou Taxi Driver. E foi com Ilha do Medo que Scorsese conseguiu. Me conseguiu.
Sério, eu estou embasbacada. Estupefata. Boquiaberta. Desbaratinada. Apaixonada.

Não posso dizer que o filme é absolutamente perfeito. Ao menos, não o é para muita gente. Seu alvo mais criticado é o roteiro, julgado previsível em demasia e com explicações além da conta nas cenas finais. Não nego que tais características existam, mas não consigo vê-las como um grande problema (ou mesmo como um problema at all), tendo em vista o modo como a direção as conduziu. Veja bem, após uma segunda sessão do filme, fiquei convencida de que a previsibilidade não só não é apenas uma característica, como é proposital. Assim, da mesma maneira como todos escondem a verdade do agente Daniels, ao mesmo tempo eles querem que ele a descubra o quanto antes. Consequentemente, essa mesma relação acaba se dando entre Scorsese e o espectador.

Quanto às explicações, não as achei excessivas. Decerto que qualquer um já havia entendido o recado ao final de Ilha do Medo, mas cada 'repetição' e reafirmação dos fatos tem seu propósito na própria história. Além disso, ainda que eu encarasse essas questões como defeitos ou pequenos 'pecados', a última cena já serviria para neutralizá-los.

A despeito disso, não há como negar que Scorsese estava tão inspirado que atingiu aqui um nível de excelência magistral. A trilha-sonora é absurdamente sufocante e angustiante. A cena que retrata o trajeto feito pelos agentes desde o cais até o hospital é de se tirar o fôlego - e nesse momento o filme praticamente ainda nem havia começado! Auxiliada por essa trilha e por uma fotografia impecável, a história se desenvolve de maneira quase claustrofóbica, criando um suspense psicológico como poucos vistos. De alguma forma, o diretor conseguiu transformar a insanidade em algo quase palpável, uma entidade que nos ameaça e da qual devemos fugir - mas ela está sempre no nosso encalço. Inclusive, já nos primeiros minutos do filme, comentei com meu marido que o Scorsese estava era querendo nos deixar loucos.

Os efeitos especiais merecem um comentário à parte. A tecnologia é tão bem empregada, que se torna uma aula para os diretores mais novos e afoitos. Os efeitos são utilizados somente quando a cena pede e apenas o suficiente para enriquecê-la. Não é o uso da tecnologia pela tecnologia - é a tecnologia pela arte.

E sobre os atores, não irei falar? Oh, sim, impossível passar em branco. Não só DiCaprio, como todo o elenco. Mark Ruffalo e Ben Kingsley seguram seus papéis em uma dosagem milimétricamente calculada, estão perfeitos - principalmente se avaliados em uma segunda visita ao filme. Max von Sydow mantém uma postura ameaçadora, mas sem exageros, igualmente excelente. A pequena aparição de Jackie Earle Haley é digna de nota. E, claro, DiCaprio, demonstrando mais uma vez sua imensa capacidade. Se é que alguém ainda duvidava de seus dotes, não há como negá-los após assistir Ilha do Medo. Eu sempre o tive como um grande ator, mesmo quando todos o julgavam apenas um rostinho bonito. Aliás, se alguém me apontar um trabalho em que o rapaz esteja mesmo que mediano, ganha um prêmio. Novamente, Scorsese entrega a DiCaprio um personagem complexo e com uma enorme carga dramática - em certos momento Daniels me lembrou a Srta. Giddens de Os Inocentes -, e ele recebe o papel com muita segurança e habilidade.

É como eu disse, Scorsese me ganhou. Vejo Ilha do Medo se inserindo com facilidade entre os meus filmes preferidos, independente de gênero. E falo, sem medo, que é um dos melhores suspenses já feitos até hoje.