17.7.18

As Boas Maneiras

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2017
Fantasia, Terror, Musical
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra
Roteiro: 
Juliana Rojas e Marco Dutra




Clara (Isabél Zuaa) é uma estudante de enfermagem contratada por Ana (Marjorie Estiano) como futura babá de seu filho. Sozinhas, acabam construindo uma relação de afeto, enquanto a gestação evolui de maneira estranha e perturbadora.

Com um enredo bastante criativo, cujo embrião foi um sonho de Marco Dutra, As Boas Maneiras é uma bela fábula que foca em questões da maternidade, mas não se abstém de tocar em temas como racismo, relações empregatícias e sexualidade. O filme começa com Clara chegando a um prédio de apartamentos para uma entrevista de emprego e o porteiro já a encaminha para o elevador de serviços. Não demora muito, percebemos que Ana foi excluída da família e da sociedade em razão de uma gravidez fora do relacionamento e por ter se recusado a fazer um aborto, evidenciando o moralismo e, simultaneamente, a hipocrisia da família tradicional. 

Clara é contratada para ser a futura babá, mas deve "ajudar com a casa" enquanto o bebê não chega, extrapolando suas funções - algo bastante comum ainda hoje, principalmente nesses casos em que a funcionária passa a morar no local de trabalho. E, ainda que Clara tente questionar esse padrão contratual, ela se mantém submissa, fazendo um claro contraste com a babá que estava sendo entrevistada antes dela: cheia de referências e experiência, branca, literalmente travestida de Super Nanny/Mary Poppins, a moça se valoriza e exige um salário alto. Em contrapartida, após contratada, Clara chega a fazer até mesmo a pintura das paredes do quarto do bebê, além de manter a casa em ordem, fazer almoço e janta, fazer as compras e praticamente também servir de dama de companhia da patroa. 

A quebra na trajetória a qual estamos acostumados se dá quando a solidão das protagonistas acaba por aproximá-las e elas se envolvem emocionalmente. Entretanto, ainda que o relacionamento afetuoso das duas subverta os estereótipos de patroa/empregada, a hierarquia imposta por essa relação ainda se mantém. Já no fim do primeiro ato do longa, com a noite avançando, Ana diz que está com desejo de pinhão e insiste para que Clara vá ao mercado para comprá-los. Quando Clara se prepara para sair e Ana agradece, a resposta é: "é o meu trabalho".

Ademais, plasticamente o longa é maravilhoso. A dupla de diretores faz escolhas muito acertadas no modo como apresentam os créditos iniciais e finais, como retratam as paisagens, quando trazem as ilustrações no momento em que Ana fala sobre seu passado, no modo como evoca essa memória rural que combina muito com o tema folclórico do lobisomem. Além disso, a trilha sonora, e o fato de ser um musical, contribui para criar essa aura de fábula ao mesmo tempo delicada e sombria. As músicas cantadas são realmente muito bonitas e surpreendentemente emocionantes, muito bem encaixadas em momentos chave do filme.

Mas é no tocante à maternidade que o filme tem seu foco e há algo que eu gostaria de destacar na sua abordagem - e, a partir daqui, temo que não conseguirei segurar mais os spoilers. 

Na segunda metade do filme, o roteiro se concentra na relação estabelecida entre Clara e Joel (Miguel Lobo - olha a ironia), o menino lobo. E, para além das questões de maternidade trabalhadas como um todo, o que mais me chamou a atenção foi o fato de que Clara comete um dos erros mais comuns relativos à adoção de crianças muito pequenas: a falta de honestidade. Em geral, os pais adotivos, na tentativa de proteger a criança de suas origens, muitas vezes achando que elas são "pequenas demais para entender", escondem informações importantes e, até mesmo, o fato de serem adotadas. Esse erro costuma resultar, na vida real, no mesmo que acontece em As Boas Maneiras: quando Joel descobre que Clara conheceu sua mãe biológica e escondeu isso dele, as relações de confiança desmoronaram, desencadeando uma sucessão de revoltas que resulta em uma série de tragédias. Assim, gosto de pensar que a questão da alimentação vegetariana de Joel foi usada como uma alegoria. Clara impede o filho de comer carne da mesma maneira que o impede de saber a verdade. Não à toa, é quando ele come um bife pela primeira vez que essa vontade de buscar pelas suas raízes nasce dentro dele.  

Ainda nesse sentido, um dos maiores argumentos que eu ouço contra a adoção é a carga genética desconhecida. E se a criança herdar dos pais alguma agressividade ou má índole? Bom, acredito que não há herança genética mais preocupante do que a criança ser um lobisomem. Mas acaso isso realmente torna Joel mau? Ainda que as coisas tenham saído do controle, teria sido possível evitar os acontecimentos mais graves, sem para isso aumentar a repressão sobre o garoto? Eu, como aspirante a mãe adotiva, gosto do fato de que, de certa forma, o filme levante essas importantes questões.

No aspecto técnico, queria salientar o uso do animatrônico para representar o bebê Joel, uma escolha extremamente acertada. Além de ser um boneco muito bem feito, mesmo que conscientemente saibamos que se trata apenas de um boneco, a materialidade da criaturinha ajuda muito a criar um vínculo com espectador e, no meu caso, ainda resgata uma memória afetiva ligada aos bonecos animados usados em clássicos filmes de terror. Além disso, gosto muito do modo objetivo como o bebê é mostrado, em todos os seus detalhes, e o fato de acontecer rapidamente já logo após o seu nascimento. Uma demora nesse sentido, poderia provocar demais a imaginação do espectador, arriscando ocasionar a sua decepção quando a criatura fosse finalmente apresentada.

Aliás, por falar em memória afetiva, não bastasse o filme todo ser essa fábula que remete ao lobisomem do nosso folclore, podemos tecer paralelos com Frankenstein (ao ver a criaturinha se tornar acuada pela comunidade, estabelecendo-se no final como um mostro clássico, preparado para enfrentar os humanos) e com outras lendas, como o boto cor-de-rosa* e até a mula-sem-cabeça*. Sem mencionar que a Festa Junina* tem destaque na história, sendo uma das festas mais tradicionais da cultura brasileira. Mas o momento que mais me emocionou foi a pequena rima com Chapeuzinho Vermelho, quando, durante um ultrassom o médico diz, pausadamente, "Ele tá enorme! Olho grande, boca grande, mão grande", enquanto Ana observa com olhar apavorado.

Por fim, gostaria de mencionar as brilhantes atuações de Marjorie Estiano e Isabél Zuaa, absolutamente perfeitas em suas performances. Marjorie traz a jovialidade e todas as inseguranças que o papel exigia, produzindo cenas memoráveis que vão desde a dança do Chora Me Liga, passando pelo sonambulismo perturbador, até as expressões de completo pavor quando faz os ultrassons (evidenciando estar completamente despreparada para ser uma futura mãe, o que na verdade é muito comum na primeira gestação, ainda mais na situação de abandono afetivo no qual ela se encontra). Já Isabél consegue trazer a complexidade de seu personagem, que além de tudo passa por uma grande transformação durante o longa, mas sem perder sua personalidade. E só não digo que o filme é perfeito, porque o elenco mirim me parece dar certas escorregadas, entregando algumas falas muito decoradinhas, ainda que Miguel consiga segurar as pontas durante a maior parte do tempo - além disso, ele é muito cativante. Mas mesmo essas pequenas imperfeições pontuais nas atuações acabam dando certo charme e fazendo uma homenagem involuntária às grandes obras de José Mojica Marins.

E é por todas essas características que eu acredito que As Boas Maneiras seja um filme único e especial. Desde misturar o horror ao musical, remetendo ao mesmo tempo a clássicos do cinema internacional e da nossa cultura brasileira, trazendo escolhas estéticas ousadas e gerando uma história criativa e muito abrangente em temas sociais. Essa dupla de cineastas está mais do que de parabéns!



*Recomendo muito o podcast Cinematório Café Extpresso sobre As Boas Maneiras, onde a Raquel e o Renato falam sobre essa questão do folclore, entre muitas outras. E, já que estamos aqui, recomendo também outro podcast excelente: Feito Por Elas #53 As Boas Maneiras.



22.6.18

The Love Witch

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2016
Comédia, Terror
Direção: Anna Biller
Roteiro: Anna Biller








Elaine (Samantha Robinson) decide recomeçar a vida após a morte de seu marido. Utilizando seus novos conhecimentos de bruxaria, ela procura um novo amor a qualquer custo.

Eu andava com saudades desse blogzinho e fico feliz em retornar para falar de um filme maravilhoso dirigido, produzido, escrito, editado, cenografado, entre outros, por uma mulher!

Começo dizendo que eu totalmente não estava preparada para esse hino. Eu me sentei completamente despretensiosa para ver um filme escolhido quase no aleatório. Primeira coisa que aparece na tela é o rosto da Samantha Robinson, com aquela maquiagem e cabelos maravilhosos. Eu até pausei e me acomodei melhor no sofá! E, para minha alegria, essa cena já assinala o tom do filme todo.

Não é como se o filme fosse um pastiche das produções das décadas de 60 e 70 (e mesmo bem anteriores), tentando se passar por um produto de outra época. Anna Biller se apropria do visual, se apropria da linguagem, os atores reproduzem os trejeitos afetados, mas o texto é completamente outro. Aqui a história é contada do ponto de vista feminino para o público feminino.

Aliás, vamos aproveitar a deixa e sair da conversa técnica, que eu nem domino muito, e partir para o que realmente me interessa.

A cineasta traz estereótipos exagerados (como tudo no filme é) para evidenciar e criticar comportamentos que já deveriam estar extintos no mundo. Elisa é tudo aquilo que a (nossa) sociedade quer que a mulher seja e passa a vida aprendendo que deve ser. Claro, em nome do argumento e da comédia, Anna Biller estica esse conceito até seu máximo. Elisa é a versão hardcore da mulher bela, recatada e do lar. E ela não tem a menor noção de quão nociva é por causa disso, tanto para si, quanto para as outras mulheres (homens, o que tenho a ver). A amiga Trish (Laura Waddell) faz o contraponto óbvio e exagerado, mas o tratamento que Biller dá a ela ressalta que essa pessoa (ainda) não tem seu lugar na sociedade. Ela é coadjuvante na narrativa, enquanto Elisas são o produto que (ainda) se quer ver. Com isso, não se quer dizer que mulheres empoderadas não são importantes, mas que o mundo continua a todo momento tentando nos empurrar para escanteio.

Igualmente, os homens retratados também são o resultado dessa mesma sociedade: precisam ser racionais e desprovidos de sentimentos. Mas quando são enfeitiçados para que sintam amor, se transformam em “menininhas choronas” e, literalmente, morrem por não saberem lidar com isso (achei pesadíssimo quando Elisa reclama do amante usando essa expressão e, confesso, nem consegui achar engraçado na hora). Deste modo, a nossa bruxa do amor procura por esse homem culturalmente tido como ideal e rejeita todos aqueles que consegue “conquistar”, pois, assim que se tornam seres sensíveis, perdem sua característica essencial de macho alfa.

E até mesmo o dito "esquerdomacho" está retratado no filme, através do Gahan (Jared Sanford), o bruxo que usa de discursos de empoderamento feminino para tirar uma lasquinhas de suas discípulas (e até abusar sexualmente mesmo).

Mas, não se preocupe, nada disso vem mastigadinho pelo roteiro. Anna Biller tomou o cuidado de construir uma narrativa que não fosse condescendente com seu público. A edição é precisa e vai nos dando as informações suficientes para o entendimento da trama, sem cair na explanação óbvia.

Entretanto, existe uma questão importante que precisa ser ressaltada. O filme tem um objetivo claro e não há desvio de foco. Não vemos ser levantada qualquer outra questão envolvendo outras minorias e a mulher negra tampouco entra em pauta. Ainda assim, acredito que é um filme extremamente relevante dentro do que se propõe a tratar. É uma desconstrução, através do exagero dos estereótipos, de uma ideia que permanece arraigada no nosso imaginário e que precisa ser debatida.

Assim, esse filme me conquistou imediatamente. Como amante do horror, não tem como não ficar atraída pelo visual extasiante. Não tem como não se afeiçoar a quem faz aqueles closes lindos nos olhos da bruxa, me lembrando tanto do meu queridíssimo Bela Lugosi com seu olhar arrebatador. Não tem como não ser conquistada pela afetação e estranhamento que perpassa todo o longa. Não tem como não se apaixonar pelo texto feminista que acompanha tudo isso. Não tem como não idolatrar essa cineasta que imaginou e executou essa obra toda.

Mulheres que amam o terror, e aquelas que nem tanto, uni-vos para abençoar essa nova cineasta que surge, quase autossuficiente, com uma narrativa própria, para criar produtos de uma qualidade incrível e que possuem foco em NÓS! Gente, esse é só o segundo filme dela e eu estou louca para assistir Viva, seu primeiro longa. Bora exaltar Anna Biller!

...

Aqui trago outros textos de mulheres lindas sobre esse filme lindo:

The Love Witch e a Falta de Amor (da Jéssica Reinaldo no Fright Like a Girl)





24.7.16

Dead Ringers (Gêmeos - Mórbida Semelhança)



 

1988
Drama, Suspense
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg e Norman Snider



 


Estava eu deitada na cama, rolando de um lado para o outro. Até que finalmente percebi: não consigo tirar esse filme da cabeça. Assim, fui obrigada a me levantar, a sair do calor e conforto, e me dirigir a uma sala fria e escura. Só porque esse filme é bom assim.

Beverly (Jeremy Irons) e Elliot (Jeremy Irons) são gêmeos, idênticos. Desde crianças, compartilham suas experiências. Todas. Compartilham tudo. Até que a atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold) surge entre eles e evidencia algo com o qual eles não podem lidar: suas identidades.

Essa noite meu texto será passional, pessoal e íntimo. Não procure aqui tecnicalidades, pois hoje, debaixo do edredom, eu apenas senti. Há quanto tempo não vejo os créditos finais subindo, enquanto noto o meu coração disparado e a excitação de ter sido tomada por aflição e desespero, mesmo sabendo que está tudo bem, que estou segura e que “aquilo é só um filme”?

Jeremy Irons é um espetáculo na tela. Brilhante, como não podia deixar de ser. Ele mergulha de cabeça em duas personalidades que se distinguem e se confundem na mesma proporção. Que são tão iguais, que a todo momento estamos incertos sobre quem estamos vendo e, ao mesmo tempo, tão diferentes que não podemos imaginar seres mais opostos.

David Cronenberg, juntamente com sua equipe costumeira, é um mágico por trás das câmeras, faz com que cada cena nos provoque mais e mais angústia. Mas lentamente, com cuidado, tudo muito bem dosado. O roteiro é brilhante e um de seus poucos roteiros não originais, é baseado no livro Gêmeos, de Barri Wood e Jack Geasland.

Não espere aqui o Cronenberg completamente bizarro, o Cronenberg absolutamente grotesco. Não se preocupe, você vai encontrar o bizarro e o grotesco, com a diferença de que não estará pulsando na tela, se derramando para fora até você se encolher, temendo ser devorado. O que você vai encontrar é um Cronenberg maduro e meticuloso, mas que não perde sua identidade. Sua habilidade nesse quesito me remeteu a um filme muito posterior, do Darren Aronofsky, sobre o qual já falei aqui: Cisne Negro. E, tal qual neste último, você vai sim se encolher, mas temendo pela sua sanidade.


A licença poética é muito bem dosada, tornando-se a cereja do bolo. Não se apegue ao factível, não se agarre ao que é real. Todos sabemos quais as cores usadas em uma sala de cirurgia, por exemplo, se ele mudou, entenda, ele o fez de propósito. Faça como Bev, abra os braços, vista-se de vermelho e mergulhe na insanidade, ou faça como Eli, entregue-se e deixe-se levar por esta experiência fantástica e perturbadora. Qualquer que você escolha, o resultado será o mesmo. Apenas não lute contra, pois irá doer.

19.7.16

Naked Lunch (Mistérios e Paixões)


1991
Drama (segundo o IMDb, segundo eu: Bizarro)
Direção: David Cronenberg
Roteiro: William S. Burroughs (livro) e David Cronenberg





Pense em um diretor obcecado por sangue, pus, sexo, gore. Pense que esse diretor tem nas mãos um dos livros que inspirou toda a sua carreira. Pense que ele tem a oportunidade de fazer sua apoteose. Pense na minha decepção.

Bill Lee (Peter Weller, para sempre o nosso Robocop) é um dedetizador que, influenciado pela esposa, acaba se viciando no produto usado como inseticida. Em seus delírios, comete um ato que o leva a fugir para o Norte da África e mergulha em uma trama permeada de seres grotescos, enquanto se entrega ao desejo de ser um escritor.

Comecemos pelo fato que David Cronenberg escreveu e dirigiu filmes como Calafrios (1975), Enraivecida na Fúria do Sexo (1977) e, posteriormente, Crash – Estranhos Prazeres (1996), todos uma ode à depravação. Além disso, ele também é responsável por filmes como Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983), A Mosca (1986) e, posteriormente, eXistenZ (1999), todos uma ode ao grotesco e ao bizarro.

Agora, vamos falar sobre Almoço Nu, o livro no qual Mistérios e Paixões (que droga de nome horrível!) foi baseado. Burroughs o escreveu em meio às suas crises de alucinações e delírios, durante os anos em que foi viciado em toda e qualquer substância imaginável, principalmente a morfina, publicado em 1959, quando já havia se curado do vício. Um livro considerado infilmável, e com razão. Praticamente não uma há linha cronológica, muito menos o que se pode considerar uma história. Temos um apanhado de cenas e situações onde o caralho, o cu e a merda são os protagonistas*. Em meio a essas cenas, lá para mais da metade do livro é possível perceber que alguns personagens aparecem com mais frequência. E é somente através de uma tentativa de colocar suas pequenas histórias em um contexto e de interligá-las, que ao final podemos considerar que realmente o que lemos era um livro. 

Em Almoço Nu, as pessoas são acinzentadas, esverdeadas, azuladas ou amareladas, a depender do momento ou da droga que usam. Há uma galeria de deformidades, como protuberâncias, feridas abertas, gente que derrete, gente que desintegra, pessoas parecidas com répteis e viciadas em sêmen de mugwumps, gente que bebe outras pessoas até consumi-las por inteiro, médicos fazendo cirurgias em mictórios ou com abridores de lata. Sem contar os seres estranhos e/ou indescritíveis, como babuínos de bunda pelada, latahs e os já citados mugwumps. Praticamente todos os personagens fazem sexo, praticamente o tempo todo, 99% dos personagens são lgbt, mas se não são, se vendem a qualquer um por um pouco de droga, qualquer que seja ela.

Agora, nós voltamos ao Cronenberg, que declaradamente tem o Burroughs como uma de suas maiores inspirações – o que faz TODO sentido – e que resolve adaptar o livro infilmável. Ele poderia fazer absolutamente qualquer coisa que sua mente insana pudesse imaginar. Pois uma adaptação desse livro comportaria. Ele poderia dar adeus à cronologia, fazer um roteiro sem pé nem cabeça, ele poderia satisfazer toda a sua vontade de praticamente fazer um pornô misturado com horror gore. Mas não. Em Mistérios e Paixões, não vemos um peladinho, há um roteiro praticamente redondinho, com pessoas fisicamente normaizinhas e, ah, para não dizer que não tem bizarro, tem mugwumps e insetos gigantes. 

Ok. Estou exagerando ao simplificar o roteiro e os personagens. Porém, o que eu vi na tela não está nem perto da demência do livro. Lógico que eu não acho que tinha que ser uma adaptação fiel. É realmente infilmável. Mas era a grande chance do Cronenberg de tocar o terror, de pirar, e ele desperdiçou! É frustrante terminar de ler aquela insanidade toda e cair num filme no qual o máximo de bizarrice são cenas pontuais de delírio, visivelmente separadas das cenas “reais”. Por quê? Fora o início do filme e, talvez, um ou dois outros momentos, as cenas em que o Lee não está drogado seriam totalmente desnecessárias. O filme tinha que ser 90% de alucinação! 

Aliás, quero falar sobre o Lee um pouquinho. Uma das melhores coisas desse filme foi a ideia de trazer a vida real do Burroughs para o roteiro. O caso em que ele mata a esposa ao brincar de Guilherme Tell é verídico. E Burroughs realmente fugiu para o Norte da África após cometer o crime acidental. Colocar isso no filme, mesmo não estando no livro, é genial. Mas que porcaria é essa de o Lee não ser gay?! O Burroughs era! É uma droga ter que ver ele se reafirmando o-tempo-todo, como se fosse algum demérito do filme representar a sexualidade do protagonista tal como era a da pessoa na qual foi baseada.

Mas, apesar de decepcionante, o filme não é um fracasso completo – nem perto disso. Como disse, trazer a vida do Burroughs para a tela foi genial, inclusive porque é o ponto que possibilita a linearidade ao roteiro. Veja bem, não acho ruim a linearidade, só acho que ficou tudo muito redondinho. Além disso, trazer uma máquina de escrever-inseto para a história ficou perfeito. E todos os momentos de alucinação são pequenas obras-primas. Também é uma sacada inteligentíssima colocar trechos do livro declamados por Lee e, eventualmente, por outro personagem lendo seus textos. Aliás, o Cronenberg é um puta diretor. Por mais que o roteiro não seja o meu preferido, em termos de direção não consigo criticar nada. Ele cria um clima noir que tem tudo a ver e faz cenas memoráveis. 

Eu sei que a minha decepção vai acabar abrandando (já está, na verdade). Acho que ainda estou muito intoxicada com o livro e perdi a noção do que é aceitável e normal e do que é depravação e bizarrice. E imagino que futuramente irei gostar mais do filme. É o tipo de filme que vai crescendo na gente, que quanto mais a gente lembra dele, mais descobre pequenas pérolas. O Cronenberg sabe fazer filmes assim. Geralmente a gente sai enojado, depois pensa bem e vai descobrindo que gostou.

Na verdade, me sito uma farsa, hipócrita. Que cara de pau a minha, criticar o mestre Cronenberg enquanto escrevo um texto tão... normal. Essa também era a minha chance de pirar o cabeção, falar palavrões, não fazer sentido. E desperdicei.




* Desculpe-me o palavreado, mas é impossível falar de Burroughs em termos mais amenos.

20.3.11

Changeling (A Troca)






2008
Drama
Direção: Clint Eastwood
Roteiro:
J. Michael Straczynski







Assisti A Troca sem saber que era de Clint Eastwood. Aí, nos créditos finais seu nome apareceu na tela e eu pensei: "Bem, é a cara dele mesmo...".



Ao voltar de um longo dia de trabalho, Christine Collins (Angelina Jolie), mãe solteira, não encontra seu filho Walter (Gattlin Griffith) em casa. Após meses de busca, a polícia de Los Angeles entra em contato dizendo que Walter foi encontrado. Porém, o garoto que o capitão J. J. Jones (Jeffrey Donovan) trouxe até Christine não é seu filho. Após várias tentativas frustradas de explicar o caso ao policial, a mulher se vê obrigada a enfrentar a polícia para conseguir provar que seu filho ainda não foi encontrado e que um pequeno impostor foi-lhe entregue em seu lugar. Para isso ela conta com a importante ajuda do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), o qual vê em Christine a chance de desmascarar o poder corrupto que toma conta da cidade.

Nunca sei o que escrever sobre um filme desses. Acho que é a minha falta de repertório, porque drama nunca foi muito a minha praia... Ainda assim, existem coisas que ficam evidentes e existe também a minha opinião geral sobre o resultado do filme.

A qualidade mais marcante de A Troca é a sua belíssima ambientação. A cenografia e o figurino estão absolutamente divinos e de encher os olhos. A coloração do filme, puxada para os tons pastéis e terrosos  só ressaltou ainda mais essa beleza e nos fez entrar de cabeça na época em que se passa a história.

Outro fato que salta aos olhos é que o filme é praticamente dividido em duas partes. A partir do momento em que se começam investigações de um certo crime, a história adquire um novo rítmo. Mas apesar de essa quebra existir, não a acho suficiente para compremeter por completo a unidade do roteiro.

Mas a característica que mais falada sobre A Troca foi a atuação de Angelina Jolie. Particularmente, eu acredito que houve um furor sem fundamento a respeito da interpretação da atriz. Jolie fez um trabalho bom, porém que beira o insuficiente. Ela se perdeu na complexidade da personagem, sem conseguir achar o tom da mãe desesperada combinada à mulher forte. No início do filme ela parece temer demonstrar qualquer fraquesa da personagem, de modo a não comprometer a imagem de força que ela precisaria passar no restante do filme - como se chorar e desesperar-se pela perda de um filho fosse alguma fraquesa. Não que eu esteja esperando que a personagem reagisse como eu o faria diante do desaparecimento do meu filho, mas as expressões me pareceram quase dúbios, como se a Angelina Jolie não soubesse exatamente qual era o sentimento que ela queria expressar.


Com isso, A Troca se mantém mais ou menos como a atuação de Jolie: quase chega lá, mas se perde um pouco. Talvez seja a duração, não exagerada, mas acima da média; talvez seja o rítmo algumas vezes lento, que por si só não seria um defeito; talvez seja a existência de algumas soluções que beiram o crível. Provavelmente é a somatória disso tudo. No entanto, o filme é bastante bom e vale a pena, se visto sem muitas espectativas.