22.10.06

The Birds (Os Pássaros)





1963
Suspense
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter





Gênio, Alfred Hitchcock é literalmente um gênio quando o assunto é suspense. Isso é o que chamo de clássico!

Melanie Daniels (Tippi Hedren) vai para uma pequena cidadezinha litorânea levando um casal de periquitos para Cathy Brenner (Veronica Cartwright), com o intuito de encontrar seu charmoso irmão Mitch Brenner (Rod Taylor). Porém algo estranho está acontecendo com os pássaros, que começam a atacar a cidade em bandos cada vez maiores.

Esse filme de Alfred Hitchcock é baseado no conto homônimo de Daphne Du Maurier, porém pouco mantém da história original. Intrigado pelo conto, Hicthcock descobre que de fato existiram algumas ocorrências reais de pássaros que atacaram pessoas sem o menor motivo aparente. Isso foi o que o seduziu: a possibilidade de a história acontecer (claro, não exageradamente como o filme conta); o fato de o conto de Daphne usar pássaros comuns, tidos por todos como criaturinhas inocentes; e a aparente falta de motivo dos ataques.

Tippi Hedren era o tipo de mulher que atraía Hitchcock para seus filmes: desconhecida, linda e blasé; visto que ele preferia muito mais que a Câmera desse o tom do filme do que os atores.

Isso acontece na cena em que Melanie vai buscar Cathy na escola. Ela senta-se em um banco ao lado do playground para fumar um cigarro enquanto dentro da escola as crianças cantam com a professora. A primeira cena mostra Melanie sentada no banco com o trepa-trepa logo atrás tendo um corvo ali pousado. Um corte na cena nos leva a ver agora apenas o rosto de Melanie e logo em seguida mostra-se apenas o playground, com mais dois corvos junto ao outro. A cena volta para Melanie novamente e então para o playgraund, onde outros corvos agora se juntam àqueles três. É nessa hora que a câmera se volta para Melanie e vai se fechando lentamente até chegar a um close de seu rosto em uma cena muito demorada. A maestria com que as coisas vão sendo mostradas, juntamente com o som da música cantada pelas crianças ao fundo, nos causa um desespero sufocante, pois sabemos que enquanto a câmera se demora no belo rosto de Tippi Hedren, mais e mais pássaros estão se juntando no playground. E de fato, quando Melanie se vira para o playground ele já está apinhado de corvos e nós, espectadores, finalmente podemos soltar o ar que inconscientemente estávamos prendendo em nossos pulmões.

Outra cena que eu gostaria de detalhar aqui é uma incansavelmente copiada pelos filmes de suspense e terror que vieram a seguir. A mãe de Mitch, Lydia (Jéssica Tandy), vai à uma fazenda para tratar sobre os modos estranhos dos pássaros. Lydia entra na casa à procura do dono da fazenda e vai caminhando pelos cômodos até culminar num quarto completamente destroçado. Vemos alguns pássaros mortos, as janelas espatifadas e então, num canto atrás da porta está o homem morto. Primeiro a câmera mostra apenas os pés, então Lydia abre mais a porta e a câmera incorpora o homem inteiro. É nesse momento que há uma seqüência rápida de três imagens seguidas do pobre morto: primeiro do corpo inteiro, depois da cintura para cima e finalmente um close de seu rosto sem olhos (foram comidos pelos pássaros). Uma das coisas que eu acho fantástica nessa sucessão de imagens que culmina no rosto desfigurado do fazendeiro é que ela copia o movimento involuntário dos nossos olhos ao ver algo inesperado. E as imagens não são acompanhadas de nenhum som, nenhuma trilha sonora, dando um desconforto ainda maior.

A quase total ausência de trilha sonora no filme foi uma decisão de Hicthcock que aparentemente teve dois motivos. O filme já era tenso o bastante e Hitchcock acreditava que se ainda fosse inserida uma trilha sonora aos moldes de Psicose, as pessoas não agüentariam ver o filme de tanto nervoso. A outra razão foi que ele descobriu com Bernard Herrmann um instrumento musical similar ao teclado que conseguia capturar e manipular sons naturais. Utilizando, assim, os sons dos próprios pássaros como principal trilha sonora do filme.

Outra coisa que Hitchcock usa no filme é o contraponto entre os periquitos (lovebirds em inglês) e os pássaros, digamos, assassinos, quando no final a pequena Cathy pergunta “Posso levar os periquitos?”, mostrando que algo de bom ainda sobrevive graças a esse casal de lovebirds. Hitchcock também usa os lovebirds em diálogos em que se fala de amor, enchendo-os de duplo-sentidos e, nas palavras do próprio diretor, “isso prova muito bem que a palavra ‘amor’ é uma palavra cheia de suspeição”.

E para finalizar, falemos do final. Spoiler:

O filme termina da forma mais inesperada possível, com o famoso “Acabou? E o que aconteceu?”. Pois, pouco depois da alucinante cena do ataque à Melanie, onde ela quase morre, a família entra no carro e vai embora. Os pássaros completamente amontoados na frente da casa começam a fazer cada vez mais barulho conforme o carro se afasta, nos dando a sensação de que eles levantarão vôo a qualquer momento para mais uma ataque. Porém, isso não acontece e o filme simplesmente acaba. Além disso, o final não nos dá nenhuma explicação para o modo como os pássaros vinham agindo.

E essa é a principal razão para o filme manter-se tão bom quanto realmente o é. Se Hitchcock inventasse um motivo, provavelmente ele não seria bom o bastante para agradar a todos seus espectadores. Dessa forma, ele apenas coloca uma cena onde os personagens debatem as possíveis razões dos ataques, mas sem chegar à nenhuma conclusão, para mostrar que nós não somos os únicos confusos. Estamos no mesmo barco que os personagens. E sem saber o motivo, qualquer pássaro inocente na sua janela pode se transformar da noite para o dia em um monstro assassino.

Um comentário:

kal disse...

Gosto muito deste filme