Mostrando postagens com marcador giallo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador giallo. Mostrar todas as postagens

21.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 3

Chegamos, então, ao final desse especial dedicado a Daria Nicolodi. Caso tenha perdido, comece pela primeira parte, na qual eu escrevo sobre sua vida e carreira, depois siga para a parte 2, em que meu foco está em seu trabalho longe de Dario Argento. 

A intenção dessa série de textos sobre Daria Nicolodi, para além de fazer uma homenagem à artista, foi também trazer à luz um problema que as mulheres vinham (e continuam) enfrentando dentro da indústria cinematográfica: o apagamento, o descrédito. Nicolodi, além de atriz, contribuiu de diversas formas para os filmes dos quais participou, mas o pouco crédito que recebeu não veio sem muita insistência e luta. Não à toa sua filha Asia teria dito que ela a ensinou a "chutar as bolas"¹. Daria parecia não ter um gosto especial por brigar e lutar, mas ela foi levada a isso para não ter seu nome apagado em questões que para ela eram importantes. Ela sabia que dentro de uma indústria comandada por homens e para homens, uma mulher não seria facilmente ouvida ou levada à sério.

Daria Nicolodi é exemplo de resiliência, mas também de força de vontade e firmeza. Definitivamente, uma mulher incrível.

Assim, como não poderia ser diferente, hoje finalizo me dedicando a dois dos meus filmes preferidos estrelado por Nicolodi, ambos em parceria com seu então companheiro, Dario Argento.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi), com os cabelos longos molhados, está gritando com as mãos apertando as laterais da cabeça. Está enquadrada do peito para cima, vestindo uma camisa bege de manga longa, parada dentro de um cômodo e em frente a uma porta ou janela branca aberta. Do lado de fora há um jardim e chove abundantemente.
Tenebre



1982
Giallo, Terror, Mistério, Suspense
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento





Os anos passam e nossa percepção muda.

Assisti Tenebre pela primeira vez em 2012 e, de acordo com minha lembrança, era um filme do qual eu havia gostado muito. Não me lembrava, no entanto, que havia tanta coisa para não se gostar nele. É interessante porque hoje eu acho esse filme ainda melhor do que antes, e, mesmo assim, passei a gostar menos dele.

Vou começar com os problemas. Talvez o que mais me incomoda no filme é a consciência de ser sexista e ainda debochar disso. Em seu primeiro terço, a impressão que tenho é que Argento se dedicou a criar situações misóginas que chegam a destoar do que ele próprio vinha fazendo em sua carreira, em uma reação exagerada e infantil às criticas que o cinema italiano de horror, e por consequência ele mesmo, vinha recebendo. É só notar o contraste do que estou escrevendo aqui com o que você lerá abaixo sobre o próximo filme. 

E ele não se limita ao visível ataque às mulheres. A coisa fica ainda mais pesada quando a sexualidade dessas mulheres entra em jogo. Se a inspetora assistente é ridicularizada, isso piora com relação à namorada do protagonista, ainda mais com a jornalista lésbica, até culminar em uma representação que chega a ser perversa da personagem secundária bissexual.

Só a personagem de Daria Nicolodi se salva, e nem muito. Trata-se da secretária do protagonista que, apesar de extremamente eficiente e de fazer um ou dois comentários ácidos e certeiros, tem pouca relevância em termos de pensamento investigativo, com raros momentos de iniciativa e ação com relação ao desenrolar da trama. Nicolodi, por sinal, tampouco estava animada com a personagem. Inclusive, a maravilhosa cena do grito (da imagem ilustrativa) foi o resultado da Daria descontando ali as suas frustrações reais com relação às filmagens².

O roteiro tenta justificar em algumas falas do protagonista que o problema está no vilão, mas é o retrato que Argento faz das personagens pré-morte, o modo como ele entende que elas são e se comportam, o que mais me ofende. O problema não é o "vilão", o problema é como possivelmente o filme reflete o próprio cineasta. Ademais, Argento parece ter se inspirado em uma situação real em que um fã começou a persegui-lo². SPOILER: tal qual o protagonista que no fim das contas era apenas mais um misógino fruto da mágoa pela rejeição tentando fingir-se de progressista, sinto que parece ser o caso do Argento, guardadas as devidas proporções. Assim, da mesma forma que o assassino do livro espelha o subconsciente do autor, o roteiro do filme de certa forma espelha o subconsciente do diretor - ou o consciente, pois isso tudo foi, em algum nível, proposital. 

Contudo, a atriz que faz a moça de sapato vermelho da praia é uma mulher transgênero, Eva Robins. Em 1982, quão raro isso era? Vai entender o Dario Argento. Acho que faz parte da complexidade do ser humano... 

Além disso, como eu afirmei acima, as situações mais problemáticas se concentram em sua maioria no primeiro terço do filme. Depois disso, a direção primorosa de Argento quase me faz perdoá-lo. Chega a dar raiva ser "obrigada" a gostar tanto de um filme do qual eu estava gostando tão pouco. Chamo a atenção para talvez um dos momentos que mais me colocaram embasbacada: um travelling em que a câmera vai seguindo bem em close pela fachada de uma casa moderna magnífica ao som da música tema do filme - como sempre, as escolhas de locação e a trilha-sonora continuam a ser grandes diferenciais nos filmes do diretor. Essa cena de dois minutos e meio levou três dias para ser filmada; as distribuidoras norte-americanas queriam cortá-la do filme para o lançamento nos EUA, mas felizmente Argento se recusou³.

Assim, é, talvez, com esse filme que Dario Argento fecha o combo giallo com mais precisão: tem assassino que odeia mulheres (e misoginia em geral), câmera em primeira pessoa pelo olhar do assassino, arma cortante, assassino de luva preta, protagonista homem, trama cheia de reviravoltas, a estética apurada e trilha-sonora marcante. E, de fato, o filme é uma grande homenagem ao giallo literário e aos livros de detetive em geral, visto que, por exemplo, seu protagonista é um escritor de sucesso desse gênero e chega a citar Arthur Conan Doyle. O roteiro, por sinal, é muito elaborado e bem trabalhado - só prefiro não me alongar falando sobre ele pois seria praticamente impossível não entregar spoilers de algum tipo ao fazê-lo.

Em todo caso, apesar de minhas críticas ao filme ocuparem a maior parte da resenha, Tenebre continua sim sendo um dos melhores filmes do diretor. O caso é que se eu for me alongar muito descrevendo as qualidades de Argento, soarei repetitiva, visto que são características marcantes na sua filmografia toda. Talvez o que eu ainda não mencionei é o fato de que ele filma as mortes com um senso estético tão apurado quanto o que ele usa para suas ambientações. Os enquadramentos e a montagem de duas mortes em específico são arrebatadores: na primeira destaco a visão do rosto da vítima através do rasgo da camiseta, e a antepenúltima,  pela quantidade e "comportamento" de sangue na cena.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo ondulado castanho claro cortado um pouco acima dos ombros e franja reta cortada um dedo acima das sobrancelha. Tinha a mão direita abaixada junto ao tronco e a levanta até o lado do rosto enquanto gira uma piteira rapidamente entre os dedos. A câmera acompanha o movimento da mão. Ela usa camisa branca e blazer preto, lápis preto contornando os olhos e está em um como de paredes claras e bem iluminado.
Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso)

1975
Giallo, Terror, Mistério, Suspense
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Bernardino Zapponi



Possivelmente o meu filme preferido do Dario Argento - só não digo com mais certeza, pois Suspiria é uma obra-prima, mas gostar, gostar mesmo, acho que gosto mais de Prelúdio Para Matar. E é, definitivamente, o meu giallo preferido. Sendo que boa parte da minha afeição por esse filme se deve à presença de Daria Nicolodi. Sua personagem Gianna traz a leveza e irreverência perfeitas para balancear o tema pesado que há na história e, segundo a própria Daria, alguns de seus diálogos foram reescritos por ela junto com Zapponi⁴.

A versão originalmente lançada nos EUA possuía 22 minutos a menos. Foram retiradas todas as cenas de humor e as cenas de romance, além de parte da própria trama⁶. Quando penso que isso retirou boa parte das aparições de Nicolodi do filme, fica fácil entender o motivo de ele ter sido um fracasso nos EUA à época do lançamento. A propósito, a versão que se encontra com maior facilidade atualmente é a que tem simultaneamente o áudio em inglês e em italiano, porque não havia a dublagem em inglês das cenas cortadas.

Gosto de Gianna não só porque ela é divertida, mas também por ser uma personagem inteligente e ousada para a época, ainda mais em se tratando do cinema de horror italiano, o qual, como já disse, era extremamente misógino. Gianna tem voz ativa, é determinada, arrojada e ambígua. SPOILER: Ela faz os avanços para cima do personagem de David Hemmings, ela investiga e o instiga a investigar, ela até mesmo o salva. Aliás, o filme quebra com outras características inerentes ao giallo: em Prelúdio Para Matar as vítima não são sempre mulheres e o próprio assassino é um mulher. Sem contar que temos um personagem coadjuvante gay e uma personagem secundária trans, ambos tratados de forma respeitosa pelo protagonista - novamente, algo muito raro para a época e para os giallo (mas, infelizmente, o personagem gay acaba morrendo ao final). 

Mas a influência de Nicolodi vai mais longe do que sua atuação impecável e carismática. Daria foi a pessoa que sugeriu a banda Goblin para a trilha-sonora do filme⁵ e, inclusive, participou da composição das músicas⁴. E posso dizer sem titubear que a música tema de Prelúdio Para Matar é uma das melhores criações feitas para o cinema e faz parte do meu dia a dia - não à toa a retrospectiva do Spotify apontou "vintage italian soundtrack" como o 5º gênero que eu mais ouvi em 2020.

Prelúdio Para Matar, como eu disse na primeira parte desse especial, foi quando conheci e me apaixonei por Daria Nicolodi. E o mesmo pode dizer Dario Argento. Foi na audição desse filme que eles se conheceram e se apaixonaram⁵, ficando os próximos 10 anos juntos. Espero que Argento reconheça a influência positiva que Nicolodi teve em sua carreira. Para dizer o mínimo, ele deve a ela sua longa parceria de sucesso com a banda Goblin e, sem ela, não existiria Suspiria, seu maior sucesso.

Claro, Argento é (ou ao menos era) um diretor excepcional, como já afirmei outras vezes, até mesmo ali em cima. Seu senso estético e sua direção firme estão presentes desde seus primeiros trabalhos. Prelúdio Para Matar tem enquadramentos muito precisos e Dario tem uma habilidade impressionante para criar momentos de tensão a partir de poucos elementos. Além disso, o filme possui ambientações que literalmente foram inspiradas em quadros⁷ e uma mansão abandonada que até hoje é um dos meus cenários preferidos. Também destaco, pensando no sucesso de Prelúdio Para Matar, a sagacidade de Zapponi e Argento ao pensarem em mortes com as quais os espectadores pudessem estabelecer uma relação⁶ - o tipo de dor gerado por um tiro ou uma facada não é algo que muita gente já experimentou, mas queimaduras e abrasões são dores relacionáveis e que praticamente todo mundo já sentiu.

Enfim, com um ótimo elenco, personagens que quebram estereótipos de gênero e sexualidade, um roteiro bem construído, mortes antológicas, cenários inspiradíssimos (repito, aquela mansão abandonada, que coisa ma-ra-vi-lho-sa!), uma trilha-sonora absolutamente perfeita, não posso deixar de amar Prelúdio Para Matar.

Assim, finalizo minha homenagem a uma mulher incrível com esse filme igualmente incrível.



...

¹ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
² Tenebrae (film). In: Wikipedia : the free encyclopedia.
³ Tenebre (1982): Trivia. In: IMDb.
⁴ Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.
⁵ FOTI, Titti Giuliani. Daria Nicolodi: "La mia svolta? Fare la nonna". LA NAZIONE, Firenze, 21 set. 2014.
⁶ Deep Red. In: Wikipedia : the free encyclopedia.

3.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 1

Preto e branco. Uma mulher branca de cabelos lisos castanhos e usando franja que se espalha na testa deixando a pele um pouco descoberta. Seu rosto está em close e quase de perfil. Segura algo com a mão esquerda e cheia de anéis - possivelmente é um espelho, para o qual ela olha concentrada. Na mão direita, um lápis de maquiagem.
Daria Nicolodi por Paolo Monti em 1970.
Eu tenho uma lista de mulheres no cinema que me inspiram, mas por algumas tenho um carinho mais especial. Daria Nicolodi, atriz e roteirista, é uma dessas mulheres. Faleceu aos 70 anos, no dia 26 de novembro deste ano. A notícia me pegou no dia seguinte, quando eu estava chegando ao trabalho, e deixou aquele meu dia mais cinza.

Nasceu em Florença, Itália, filha de um advogado e de uma estudiosa de línguas antigas formada em filosofia. Seu avô materno era pianista e compositor. Talvez por essa veia materna, Daria desenvolveu certa afinidade com línguas e música - falava 8 idiomas e participou da composição de algumas trilhas-sonoras dos filmes em que atuou¹. Frequentou a Academia Nacional de Arte Dramática em Roma e iniciou sua carreira pelo teatro antes de estrear no cinema².

Nunca foi muito de dar entrevistas³ e passou a ficar mais reclusa após a morte de sua filha mais velha, Anna, fruto de um breve relacionamento com o escultor Mario Ceroli. Anna faleceu em 1994 em um acidente automobilístico⁴. Ainda assim, mesmo reservada, Nicolodi possuía uma conta no Twitter, onde postava fotos de flores, compartilhava imagens vinculadas às artes plásticas, e conversava com fãs sobre alguns de seus trabalhos.

Descobri Daria Nicolodi em meados de 2012 em um filme que veio a se tornar um dos meus preferidos da vida: Prelúdio Para Matar (1975), o qual já foi mencionado diversas vezes nesse blog. Desde o primeiro momento, essa mulher me cativou sobremaneira e passei a notar sua presença nos gialli que assisti depois, geralmente dirigidos por Dario Argento, com quem manteve um relacionamento amoroso por cerca de 10 anos. 

Mas não foi só sobre os filmes do Dario Argento que Daria construiu sua carreira. O primeiro filme no qual atuou foi um drama de guerra chamado A Vontade de um General (1970). Em seguida, faria parte do elenco do drama Salomé (1972), mas estava ocupada com uma peça de teatro e não pôde participar das filmagens, apesar de seu nome constar nos créditos por um gracejo do diretor Carmelo Bene⁵. 

Ademais, ela fez outros filmes de drama e cinco comédias - o que não me surpreende, haja visto seu timming cômico afiado. Destaco dentre elas Maccheroni (1985), no qual contracenou com Jack Lemmon e Marcello Mastroianni. No terror, também atuou no primeiro longa dirigido por sua filha, Asia Argento, Scarlet Diva (2000) e no último de Mario Bava, Shock (1977). 

Com Dario Argento, a lista é um pouco mais longa. Apesar de o relacionamento ter terminado em 1985, ela continuou atuando em alguns de seus filmes até 2007, quando ele concluiu a terceira parte da trilogia das mães. No total, foram 8 obras de Argento das quais ela participou. E, apesar de raramente receber os créditos, ela não só atuava em seus filmes¹. Nicolodi afirmava que escreveu com Argento os roteiros de Suspiria (1977) e de A Mansão do Inferno (1980), além de ter colaborado com alguns diálogos de Prelúdio Para Matar, participado da composição da trilha-sonora deste último e de Suspiria, e até mesmo da escolha de elenco de Phenomena (1985).

Assim, de modo a abranger um pouco da carreira dela tanto como roteirista quanto como atriz, decidi separar esse especial em três partes. Hoje ainda pincelarei brevemente sobre aqueles dos quais já falei em outras resenhas: Suspiria e A Mansão do Inferno; e sobre o outro por cujo roteiro ela não foi creditada: Il Gatto Nero (1989). Na próxima semana, falarei de alguns filmes que ela estrelou e não possuem vínculo com Dario Argento: Paganini Horror (1989), Shock e Maccheroni. E na última parte, me concentrarei em outros dois do Argento em que ela atuou: Tenebre (1982) e Prelúdio Para Matar.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo castanho liso e com granja cortada reta cobrindo perfeitamente a testa. Ela está de perfil, com seu rosto em close. A iluminação que incide sobre ela é azulada e ao fundo, uma parede vermelha com uma janelinha fina e comprida em estilo art decò e com os vidros deixando passar uma luz azul.Suspiria / A Mansão do Inferno


1977 / 1980
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi 


Daria costumava dizer que a verdadeira autora de Suspiria era a sua avó Yvonne¹. A primeira ideia do filme surgiu após Nicolodi mencionar a Argento sobre a história que sua avó costumava lhe contar quando era criança: Yvonne alegava que teria estudado em uma academia de piano em que as professoras estariam ensinando, além de artes, magia negra². Dario gostou da história e, juntos, trabalharam no roteiro, que também teve como inspiração o ensaio "Suspiria de Profundis" de Thomas De Quincey. Além disso, a sequência final do roteiro foi baseada em um sonho que Daria teria tido quando morava em Los Angeles⁴.

Apesar de ser a parte mais criticada do filme, por ser excessivamente simplório e com alguns "furos", o roteiro é, a bem da verdade, bastante interessante e eu sempre defendi que era o suficiente para obra de arte imortal que Suspiria viria a se tornar. Os diálogos infantilizados, por exemplo, se dão devido ao fato de que originalmente a ideia seria que as estudantes da Academia de Dança fossem crianças de 8 a 10 anos⁶. Mas a mística das Três Mães, a ideia da arte vinculada com a magia, o ar fabulesco, são qualidades que o filme tem e que devem não só à direção precisa de Argento, mas ao próprio roteiro.

E se você acha que a contribuição de Daria se encerra na criação do roteiro, pode se sentar. Ela alega que participou, ainda, da composição da excelente trilha-sonora junto com a banda Goblin!¹ Ademais, apesar de não ter atuado no filme, é dela a voz de Helena Markos, a Mater Suspiriorum (Mãe dos Suspiros)⁶.

Não obstante a participação inegável de Nicolodi no roteiro de Suspiria, foi uma luta para conseguir convencer Dario Argento a lhe dar seus devidos créditos. E foi por não querer passar pela mesma provação que, mesmo o próprio Argento confessando ter trabalhado no roteiro de A Mansão do Inferno a partir de uma história escrita por ela, Nicolodi acabou deixando passar a falta de seu nome nos créditos como roteirista do segundo filme⁷. 

Ainda assim, nos últimos anos, em diversas oportunidades ela fez questão de afirmar sua participação crucial na criação da história de A Mansão do Inferno, argumentando, inclusive, que os dois filmes que ela roteirizou com Dario Argento são incomparáveis em sua carreira e que, até então, os filmes dele eram sempre sobre histórias de detetive¹. Não posso negar que faz sentido. Mas, hei, eu já estava convencida antes mesmo desse argumento, tendo em vista que Dario Argento não tem um bom histórico em se tratando de dar os devidos créditos às pessoas - basta procurar no IMDb o nome de Mario Bava na lista da equipe técnica do próprio A Mansão do Inferno.



Uma sala ampla e escura, com mobiliário antigo coberto de teias de aranha e parca iluminação que mistura o vermelho e o azul. Uma mulher está parada à entrada da sala, em frente a uma enorme porta de metal e vidro. Como parte da luz (azulada) entra pela porta, a mulher se torna quase apenas uma silhueta.
Il gatto nero


1989
Terror, Fantasia, Drama
Direção: Luigi Cozzi
Roteiro: Daria Nicolodi e Luigi Cozzi




Daria Nicolodi escreveu esse roteiro para ser a terceira parte da Trilogia das Mães, mas o produtor não estava interessado e Dario Argento decidiu focar em seu próximo filme, Tenebre⁸. Bobo ele, pois absolutamente qualquer coisa teria sido uma ideia melhor do que o que veio de fato a se tornar o último filme da trilogia (sem a participação da Daria no roteiro, diga-se de passagem). 

Nicolodi, alguns anos depois, entregou o roteiro a Luigi Cozzi, na esperança de que este resolvesse dirigí-lo. Contudo, Cozzi fez alterações no roteiro para transformá-lo mais em uma homenagem aos dois primeiros filmes, ao invés de uma sequência. Quando Daria viu o resultado, decidiu abandonar o projeto⁸. Certa ela, pois a colcha de retalhos que Il gatto nero (também conhecido como Demon 6: De Profundis) virou, chega a dar vergonha.

Uma das únicas coisas interessantes no filme é o uso de metalinguagem, que chega a lembrar um pouco O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (1994). No entanto, para além das modificações de Cozzi no roteiro, como o CEO da distribuidora havia decidido por conta própria vender o filme como uma obra baseada em um conto de Edgar Alan Poe, uma das soluções "brilhantemente" escolhidas foi inserir cenas de gatos pretos em uma história que nada tinha a ver com o conto. 

Tudo no filme é tão mal realizado, que beira o ridículo. Os cenários não trazem nenhuma originalidade, a inserção da trilha-sonora nas cenas é abrupta e totalmente destoante, a maquiagem da bruxa Levana é muito muito muito ruim. Cozzi tenta, ainda, emular a iluminação chapada e colorida de Argento, mas o resultado é um fiasco, com luzes oscilantes e pulsantes que não compõem uma ambiência assustadora ou onírica, apenas incomodam (e não do jeito que um filme de terror gostaria de incomodar).

Provavelmente, com a direção de Argento e a ideia original de Nicolodi, este teria se tornado um ótimo encerramento para a trilogia das mães: melhor que O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas e muito melhor que Il gatto nero. Infelizmente, nunca saberemos.

...

A parte 2 estará disponível aqui a partir do dia 11/12/2020.



...

¹ Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.
³ FOTI, Titti Giuliani. Daria Nicolodi: "La mia svolta? Fare la nonna". LA NAZIONE, Firenze, 21 set. 2014
⁴ Daria Nicolodi. In: Wikipedia : L'enciclopedia libera.
⁵ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
⁶ Suspiria (1977): Trivia. In: IMDb.
⁸ The Black Cat (1989)Trivia. In: IMDb.

11.7.20

A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo (L'étrange couleur des larmes de ton corps)

Em close de rosto num fundo preto, uma mulher branca joga a cabeça para trás, fazendo voar o cabelo liso e preto. O que parecem ser diversas gotas vermelhas brilham espalhadas pela imagem.

2013
Terror, Mistério, Giallo
Direção: Hélène Cattet, Bruno Forzani
Roteiro: Hélène Cattet, Bruno Forzani



Dan Kristensen (Klaus Tange) chega em casa após uma viagem e percebe que sua esposa está desaparecida desde sua partida. Assim, inicia-se uma investigação onde histórias paralelas se entrelaçam e não se sabe o que é sonho e o que é realidade.

A sinopse que escrevi é uma tentativa de racionalizar algo que não se pauta em momento algum na racionalidade. O filme é psicodélico, onírico, uma explosão de cores e imagens. A abstração é tão constante, rompendo o frágil fio narrativo a todo instante, que chega a ser em alguns momentos cansativo.

Hélène Cattet e Bruno Forzani fazem uma evidente homenagem ao giallo¹ italiano, mas, sem se prenderem demais ao gênero, trazem frescor e diversas outras inspirações cinematográficas. Uma das características que aproxima o longa do giallo, para além do apuro estético e do tema, é a trilha-sonora que muitas vezes até mesmo mimetiza as músicas dos filmes de 1970. Outras características perpassam pelo uso das cores e pela belíssima locação em estilo art nouveau. 

Eu já havia assistido ao longa em 2017 e, agora na revisão, eu gostei ainda mais. Apesar de minhas limitações, consigo reconhecer para além do giallo, muito do surrealismo e até mesmo algo do expressionismo alemão. O crítico de cinema Pablo Villaça disse certa vez que "Se Buñuel e David Lynch tivessem um filho que tomasse LSD e fizesse um giallo, o resultado seria A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo" e tenho dificuldade de encontrar outra maneira de resumir tão bem o que é esse filme.

Imagem em preto e branco do rosto (apenas dos olhos para cima) de uma moça branca com os cabelos lisos, longos e pretos bem espalhados sobre o travesseiro onde sua cabeça está apoiada.

Contudo, está longe de ser apenas um amontoado de cenas que não querem dizer nada. Consigo ver nele comentários sobre o voyeurismo e a objetificação do corpo feminino, ao mesmo tempo em que trata da libertação feminina, de sua redescoberta enquanto alguém que tem seus próprios desejos e não se vê mais na posição de agradar ao homem mais do que a si mesma (inclusive colocando o homem como supérfluo). Trata a mulher como atora (a palavra não existe, mas atriz não cabe no sentido que quero expressar - “dona da ação”) e propulsora da história, enquanto o homem está perdido e se deixando levar. A mulher começa exterminando a sua imagem como é vista tradicionalmente (principalmente no giallo) e toma a narrativa para si, se reconstrói e anula o homem. A mulher, todas elas, é Laura (“vitoriosa”, “triunfadora”). 

E não se preocupe com possíveis spoilers no meu texto, pois, apesar de o giallo tradicionalmente ser calcado no mistério, pensar no mistério como motivação para assistir a esse filme é como acreditar que saber de antemão o final de 2001: Uma Odisseia no Espaço estragaria a experiência de assisti-lo - guardadas as devidas proporções. 

Ainda assim, muito pautado no grotesco e com algumas cenas que podem ser interpretadas como violência exagerada contra o corpo feminino, em diversos momentos eu diria não ser um filme palatável para muitas pessoas. Eu, no entanto, recomendo A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo a todo e qualquer amante do terror que esteja aberto a uma experiência diferente e intensa.

O perfil do rosto de um homem branco está duplicado. Ele recebe em suas mãos uma xícara entregue por uma mão feminina enluvada em renda preta. O entorno está escuro e desfocado, com apenas um objeto não identificável de decoração (talvez uma moldura) iluminado em desfoque com um tom amarelo claro.

...

* Recomendo sobre esse filme o texto As mudanças de gênero e o neo-giallo, por Andrey Lehnemann. 

¹ Falei um pouco mais sobre o giallo no texto de A Moça do Pijama Amarelo.

26.6.20

A Moça do Pijama Amarelo (La Ragazza dal Pigiama Giallo)

Em primeiro plano, um rapaz banhado em luz vermelha segura uma espingarda de brinquedo e mira em um totem de arcade. Em segundo plano, no centro da imagem, o investigador idoso com sobretudo e chapéu caminha vindo da porta de entrada em direção ao rapaz. A fachada e a porta de entrada são de vidro, mostrando a rua e o dia claro; do lado de dentro, diversos filiperamas e pessoas jovens.





1978
Mistério, Suspense, Giallo
Direção: Flavio Mogherini
Roteiro: Flavio Mogherini e Rafael Sánchez Campoy




Thompson (Ray Milland), um inspetor aposentado na Austrália, fica sabendo sobre o assassinato de uma jovem e consegue autorização para participar paralelamente das investigações.

Cerca de dez anos atrás, eu descobri o giallo italiano¹. Trata-se de um subgênero do terror, ou praticamente um gênero à parte, em uma mistura de terror com mistério (principalmente policial). Nasceu enquanto cinema na Itália na década de 1960, atingindo talvez seu auge na década seguinte. 

Existem elementos que são comuns aos gialli, ainda que não seja uma regra possuir todos: a trama gira em torno de um assassino serial (que mata preferencialmente mulheres); as armas do assassino são facas ou objetos cortantes e/ou pontiagudos; o assassino usa luvas de couro pretas; as mulheres são hipersexualizadas e objetificadas, suas mortes são estilizadas e fetichizadas; a estética se sobrepõe ao conteúdo (locações, iluminação, enquadramento costumam ser mais valorizados do que o roteiro e o desenvolvimento dos personagens); um homem, que não necessariamente é um detetive profissional, irá investigar o crime; são filmes que não são muito longos, mas são lentos, cheios de elementos e confusos.

Esse gênero me conquistou muito rápido por causa dessa ligação forte com as histórias policiais, pois me remetem a uma memória afetiva que envolve meus avós paternos, em especial a minha avó Nena. Ela não apenas plantou em mim a sementinha do amor pelo terror já na minha infância, como também a sementinha do amor pelo suspense policial. Eu tenho aqui no meu íntimo que ela teria se apaixonado pelo giallo junto comigo, se estivesse viva. Então, quando assisto a esses filmes, sinto como se ela estivesse por perto. 

Opa, quase dei uma choradinha agora. Isso está virando um diário e eu ainda não comecei a falar sobre o filme que dá nome ao texto. Então vamos seguir adiante.

Pelos motivos já mencionados, alguns gialli acabaram se tornando meus "confort movies" e nas últimas semanas cresceu a vontade de conhecer novos títulos. Foi assim que, em meio a algumas bombas cinematográficas, encontrei A Moça do Pijama Amarelo.

Não se trata de um filme perfeito, longe disso. Propõe situações completamente absurdas, como: o Inspetor Thompson não respeita nenhum tipo de procedimento e autoridade, apesar de já estar aposentado e sequer oficialmente estar ligado à investigação, ele apreende provas sem o menor cuidado e esconde dos investigadores; o inspetor oficialmente responsável conduz depoimentos e usa de violência para obter confissões; o corpo nu da vítima é colocado em uma espécie de vitrine para ficar exposto na esperança de alguém o identificar (se não bastasse, a posição em que o corpo é colocado faz parecer que está posando para uma revista!). Contudo, é muito comum encontrar esse tipo de situação em filmes da época. 

Além do mistério policial, A Moça do Pijama Amarelo possui outros elementos que o identificam como um giallo. Um deles, que pode ser percebido por um dos itens comentados no parágrafo acima, é a exploração do corpo feminino. Outro é o excesso de elementos, personagens e histórias. Entretanto, paralelamente à investigação, o roteiro dá grande enfoque a uma personagem chamada Glenda (Dalila Di Lazzaro), e o modo como a história da personagem se interligará à investigação é algo que foge do padrão e traz um diferencial importante. Além disso, apesar de Glenda participar da cena mais grotesca do filme² (e é até bom que seja grotesca, pois geralmente esse tipo de cena em outros filmes é tratada com certa fetichização), me agrada muito que seja uma personagem interessante e que o roteiro a desenvolva em toda sua complexidade, mostrando suas contradições e seu sofrimento.

Outra característica marcante do gênero que encontramos no filme é o fato de ser extremamente arrastado. Porém, mantendo o padrão giallo de qualidade, a paleta de cores e a iluminação são absolutamente perfeitos! Os enquadramentos, a fotografia e a trilha sonora belíssimos! Fiquei tão encantada com cada cena, que pouco me importava a sua lentidão.

No entanto, o longa se afasta do giallo ao não apostar no horror e não transformar o roteiro em um pretexto para o assassinato serial e estilizado de mulheres. Não vemos muito sangue e há, inclusive, raros momentos de suspense. E não falo isso como demérito nem elogio, mas apenas como uma característica que me surpreendeu.

Por fim, fica aqui a minha recomendação. Se você gosta de investigação policial e valoriza filmes com uma estética marcante e bem acabada, releve os absurdos e procure assistir A Moça do Pijama Amarelo.

...

¹ Se você quiser saber mais sobre o giallo, sugiro o vídeo "Você conhece o Giallo Italiano?" da Carissa Vieira.

² Quero enfatizar que seria melhor até que algumas pessoas mais sensíveis pulassem essa parte, que ocorre próxima ao final do filme - e não se preocupe, quando a cena está para começar, já é possível identificá-la e acelerá-la, pois além de extremamente desconfortável, é MUITO longa.

20.6.20

As Três Mães

Há cerca de dois anos escrevi sobre Suspiria.

Nos últimos dias, resolvi rever os outros dois filmes da trilogia das mães e ontem não pude dormir enquanto não anotasse tudo o que estava se passando pela minha cabeça. Me dedico nesse texto a falar um pouco sobre cada filme, inclusive a refilmagem de Suspiria, de 2018, relacionando-os todos entre si e com o original de 1977.


Enquanto o primeiro filme nasceu de um sonho de Daria Nicolodi, toda a ideia para a mitologia das Três Mães foi inspirada em um ensaio chamado "Suspiria de Profundis", de Thomas De Quincey.

Suspiria não é uma história, é um pretexto para cenas lindas e assustadoras. Nasceu de um sonho e se consagrou como um pesadelo belíssimo que dispensa a necessidade de fazer sentido. Sobre ele, a frase "não sei o que dizer, apenas sentir" cai como uma luva. E, se ficamos todos empolgados com a menção da tríade de bruxas, é justamente porque pouco sabemos sobre elas, mantendo-se toda a aura de mistério que as envolve. E tudo bem querer desenvolver um pouco a história nas sequências, mas infelizmente esse não é o forte de Argento.


Um cômodo iluminado com uma forte luz azul royal. Há uma janela entreaberta à esquerda, com vidro decorado com motivos florais e estilo art nouveau, uma porta aberta à frente (também com estilo art nouveau) mostra outro cômodo. No outro cômodo há uma moça amedrontada e atrás dela uma porta de madeira e vidro leitoso por onde entra uma luz vermelha.Mansão do Inferno (Inferno)


1980
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi (história - não creditado)



Em Mansão do Inferno, Dario Argento está tão preocupado e empolgado com sua mitologia, que acaba perdendo a mão naquilo que tem de melhor. Assim, na tentativa de se aprofundar no mistério das Três Mães, se prejudica. Por três motivos:

O primeiro motivo é que, apesar de se focar mais na história, ela continua não fazendo sentido. O enigma mencionado no livro "As Três Mães" que a Rose (Irene Miracle) consegue com o antiquário fala sobre três chaves para o segredo das Mães, mas as duas chaves nas quais o filme se apoia para solucionar o enigma, não solucionam absolutamente nada. SPOILER: A segunda chave leva a um cômodo submerso, que não elucida nada e nem leva a personagem adiante. A terceira chave leva a um local que o filme faz parecer ser importante, mas pelo qual Mark (Leigh McClockey) apenas passa, e que sequer é o único caminho possível para alcançar o esconderijo da bruxa.

O segundo motivo é que as melhores cenas são aquelas que justamente não avançam na narrativa. Elas existem porque são lindas e isso basta. Por exemplo, cito a cena do cômodo submerso comentada no spoiler acima; ela parece ser importante para a história, mas de fato não é - ela é importante para o filme sim, na construção do medo e por instigar mais dúvidas do que respostas. Outro exemplo é a cena do antiquário no lago/pântano/esgoto, que faz uma rima com uma cena emblemática de Suspiria (o pianista e seu cachorro) e, tal como ela, não tem serventia para a história.

O terceiro motivo é que a tríade "arquitetura - cores - música" perde um pouco a força. Menos com relação às cores e mais com relação à arquitetura e à música. A casa da bruxa é um prédio de apartamentos menos interessante do que a escola de dança; ao ser explorado em sua totalidade, as salas decoradas e coloridas dão lugar a ambientes desbotados e cheios de teias de aranha que acabam remetendo a locações mais tradicionais dentro do cinema de terror. A trilha-sonora é muito boa, principalmente a música tema, mas não possui nem de longe o impacto da do primeiro filme.

A ambientação como um todo também se perde quando, além do cenário e trilha-sonora, o elenco não é bem aproveitado. Os moradores do prédio não aparecem o suficiente para criarmos teorias sobre cada um ou para criar algum impacto quando o mistério se desvenda. Além disso, Dario Argento demora a focar no protagonista, que sequer é um personagem tão interessante quanto as outras três "quase-protagonistas" que aparecem antes dele. São três mulheres intrigantes, principalmente Elise (Daria Nicolodi), enquanto Mark está sempre inexpressivo e parecendo muitas vezes até mesmo desinteressado. É quase como se, inspirado em Psicose do Hitchcock, Argento nos quisesse ludibriar quanto a quem será o protagonista, mas se empolga tanto que repete a surpresa por outras duas vezes.

Ainda assim, A Mansão do Inferno é um ótimo filme, com cenas antológicas. Posso parecer dura em meu texto, mas é apenas porque trata-se da sequência de um dos mais importantes filmes da história do cinema de terror, sendo realmente difícil atender às expectativas e atingir o mesmo padrão.


Uma moça sobe uma escada em uma casa antiga e escura. A câmera a segue pelas costas e mostra parte do segundo pavimento. As paredes e o teto são muito decorados; à direita há janelas enormes com vitrais nas bordas inferior e superior, pelas janelas entra uma luz muito fraca. Os elementos decorativos são rebuscados, mas a iluminação não permite aprendê-los. O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas (La Terza Madre)

2007
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Jace Anderson, Adam Gierasch, Walter Fasano e Simona Simonetti


O que falar sobre A Mãe das Lágrimas? Infelizmente, o terceiro longa fecha uma trilogia que poderia ter sido perfeita, mas se resume a uma bagunça completa.

Dario Argento já é conhecido entre seus fãs por colocar muitos elementos em um único filme, mas aqui ele eleva isso a um patamar ridículo. Em meio a todo o excesso, percebo um potencial enorme, mas para ser outro filme! O roteiro praticamente não tem nada em comum com os outros dois longas que o antecedem, com exceção da presença da terceira Mãe. E, mesmo ela, pouco tem a ver com o que já vislumbramos de suas irmãs.

A começar pelo fato de que a influência da bruxa não se concentra em um prédio, ou extrapolando seus limites apenas pontualmente, mas se espalha por toda Roma. A cidade inteira vira um pandemônio! Tem bruxa para todo lado, tem fantasma, tem demônio, tem bruxa boa e tem até macaco! Enquanto passamos por uma experiência de imersão no ambiente da casa de cada Mãe nos filmes anteriores, especialmente no primeiro, envoltos pelos personagens ambíguos e pelo mistério, no terceiro filme essa situação desaparece quase por completo. Não há mais ambiguidade, o clã da bruxa já está desde o início tentando abertamente matar a protagonista. Não há mais mistério algum.

Assim, temos como grande fator destoante da trilogia a quase ausência da casa. A casa de cada Mãe que então parecia ter grande peso na mitologia, se resume neste filme a uma villa abandonada pela qual Sarah (Asia Argento) faz um tour apressado de três minutos antes de encontrar um velho, se esconder do clã (o que dura outros quatro minutos) e finalmente descer às catacumbas. O passeio pela casa, além de curto, é também feito em quase completa escuridão, de modo que quase não podemos ver a casa. Mas sugiro que você faça uma busca rápida por "la terza madre villa" e veja todo o potencial desperdiçado! Note também que, além de não ter aproveitado o interior deslumbrante dessa locação existente, Dario Argento ainda nos ofende acrescentando um par de "chifres" completamente desproporcionais no telhado beirando a fachada frontal.

As cores e músicas marcantes também são abandonados quase por completo. Em todo o filme, Argento aposta em uma iluminação mais realista (e sem graça) - e até o sangue de tinta ele substitui por algo mais real. Já a trilha-sonora em vários momentos se coloca de maneira desconexa (em algumas cenas a ausência total de música realmente faz falta).  No mencionado tour apressado, a música tem pouca importância, se resumindo a sons ominosos clichês, o ritmo acelerado dos passos é completamente frustrante e, como já dito, a iluminação não permite sequer que consigamos ver o cenário adequadamente. Não há suspense, não há clima de terror, não se cria nenhum tipo de sensação de desconforto a não ser a revolta por ser uma cena mal dirigida em absolutamente todos os sentidos!

Já as atuações são quase todas medíocres, inclusive a participação do Udo Kier como Padre Johannes. Já a participação de Daria Nicolodi é reconfortante, e Valeria Cavalli parece ser uma das poucas pessoas que sabe o que está fazendo no filme - mas o texto dos diálogos não ajuda. Uma coisa que me chama a atenção nos três filmes é que todos apresentam um personagem com deficiência física, o pianista cego no primeiro, o antiquário que precisa de muletas no segundo e o ocultista cadeirante no terceiro, sendo que este último permanece vivo para a minha grata surpresa.

Contudo, A Mãe das Lágrimas não é uma completa perda de tempo. Tem seus bons momentos, devo admitir. Além disso, Sarah não é burra (o que já é um alento em se tratando de filmes de terror!): ela tira o sapato quando precisa correr em silêncio, foge quando precisa, enfrenta quando o momento exige, é atenta.


Duas mulheres de cabelo liso e comprido (uma ruiva e outra grisalha) dançam frente à frente sobre um tapete colorido e geométrico de estilo art decò. A sala parece ser pequena e circular, a cena mostra uma parede preta com uma janela fechada por uma cortina de pano branca.
Suspiria: A Dança do Medo (Suspiria)


2018
Terror
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: David Kajganich




Resolvi escrever também um pouco sobre essa refilmagem porque assistindo toda a trilogia fica mais visível agora os paralelos que são feitos não só com o filme de 1977. Inclusive, sequer considero que seja uma refilmagem, mas sim uma releitura.

Ontem ficou claro para mim que o roteiro bebe muito de A Mãe das Lágrimas. A cena final de ambos os filmes é muito semelhante. Ademais, me parece que todos os religiosos/ocultistas deste foram unificados em 2018 na figura do Dr. Kemplerer (Tilda Swinton). E vou além: a própria nova Mãe dos Suspiros parece ser a união da bruxa boa (Sarah) com a bruxa má (a terceira Mãe) do Argento. Porém, Luca consegue fazer o que Argento em seu terceiro filme não foi capaz: se aprofunda na mitologia das Mães com coerência e sem perder o foco nas ambientações, no mistério, na ambiguidade.

Há quem classifique o novo filme como “pós-horror”. Eu não gosto desse termo, resumidamente porque ele pressupõe que o que vem sendo feito nos últimos anos é “melhor” do que o terror dito tradicional. Também pressupõe que o tipo de terror que está em voga atualmente (que eu chamaria mais de um terror psicológico, ou algo nesse sentido – até mesmo o termo meta-terror acho bem válido) não era feito no terror antes. E são duas premissas equivocadas. Se o modo como o Luca nos aterroriza nesse novo Suspiria é notavelmente diferente do terror mais explícito do original, isso não faz com que deixe de ser também terror em sua essência.

Em todo caso, não me aprofundarei mais a respeito desse novo filme, pois já tem um bom tempo que o assisti. Posso dizer que gosto muito dele, mas ainda prefiro o original. Acho que o Luca fez uma atualização incrível do filme para 2018, visualmente é lindo e coerente com a nova proposta. Entretanto, tenho minhas dúvidas se será um filme que irá sobreviver como um dos grandes clássicos do cinema de terror, da mesma forma que acontece com o original.

17.10.18

Suspiria

O vazio central de um prédio de apartamentos, onde há duas escadas em "v" que levam aos diferentes andares. As paredes são pintadas de um tom de vermelho rosado, com faixas decorativas em tons de cinza que apresentam alguns desenhos geométricos como losangos e círculos, remetendo ao estilo art deco. Uma moça está parada no segundo andar com os braços abertos e de costas para o vazio central. Ela está em pé entre duas portas verde água. A moça está no centro da foto e o prédio é todo simétrico.

1977
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi




Suzy Bannion (Jessica Harper) é uma bailarina que está ingressando em uma famosa escola de dança na Alemanha. Porém, uma série de assassinatos ligados de alguma forma à escola faz com que Suzy perceba que há algo muito estranho acontecendo à sua volta.

As palavras-chave aqui são: arquitetura, cores, música. Nem mesmo as atuações medianas (algumas exceções para melhor, outras para muito pior) são capazes de diminuir o impacto causado por essa tríade; ao contrário, talvez até mesmo agreguem certo charme no clima alucinado e perturbador do longa. Aliás, o ar onírico do filme permite que possamos abrir mão inclusive da lógica e da busca por uma história completamente sem furos. O roteiro, a propósito, foi escrito em parceria com Daria Nicolodi, atriz e escritora que atuou em diversos filmes do Dario Argento e interpretou uma personagem ma-ra-vi-lho-a em Prelúdio Para Matar (1975).

A primeira cena é da fachada externa de um prédio magenta em estilo art decó. A cena abaixo desta é do interior de um amplo hall de paredes azul-royal com esculturas ao lado de um vão central onde duas mulheres conversam. A terceira cena é em um amplo corredor de paredes vermelhas e portas altas de madeira escura em estilo art nouveau e uma moça se prepara para a abrir a porta do fim do corredor - a maçaneta da porta está quase na altura do ombro da moça. A quarta cena é em um quarto, onde uma moça está dormindo em uma cama e outra moça está em frente a uma porta alta fechada, de madeira escura, e todo o ambiente está banhado de uma forte luz verde. A última foto é do close no rosto de uma moça em frente a uma parede com papel de parede amarelo e uma cortina de renda escura, com uma luz amarela banhando seu rostoSuspiria eu assisti há muitos anos e tive o enorme prazer de revisitar duas vezes nas duas últimas semanas. Aproveitei a onda e revi também Prelúdio Para Matar, um dos meus preferidos do diretor. E relembrando seus outros títulos e tendo este também como forte exemplo, uma característica fortíssima em seus filmes é o modo como ele se utiliza de edifícios e ambientes arquitetonicamente imponentes e intrigantes como forma de construir o impacto desejado em cada cena. No caso de Prelúdio Para Matar, o maior exemplo é a casa que surge na segunda metade da história, para a qual não se pode olhar sem pensar em sua opulência e beleza sombria. No caso de Suspiria, ele eleva essa característica à máxima potência, apresentando em todas as cenas um ambiente ou edifício que desperte no espectador o sentimento que ele pretende estimular.

As cores marcadas estão dispersas seja na própria decoração dos ambientes, seja no forte uso da iluminação monocromática. Praticamente todas as cenas possuem uma cor predominante, ou uma combinação de cores fortes. O filme se torna, assim, uma experiência cromática que se funde à arquitetura, criando essa sensação de que o que estamos vendo é mais do que uma simples história de terror. Eu te convido a clicar na imagem acima para aumentá-la, de modo a visualizar melhor as cenas as quais selecionei e que possibilitam perceber sobre o que exatamente estou falando. Além disso, Dario Argento utiliza as cores, principalmente o vermelho, de modo bastante curioso. A violência no filme é muito gráfica, mas o sangue é basicamente tinta vermelha. Ao mesmo tempo, o vinho tem uma viscosidade e coloração muito próximas do sangue real - provando que o sangue visualmente artificial é de fato uma escolha e não simples falta de opção. Faz sentido: se o sangue é tinta, o filme de terror se torna a base para uma obra de arte.

Por fim, a trilha-sonora composta (em parceria com Dario Argento) e executada pela banda Goblin é a outra ponta do tripé que sustenta Suspiria. Se visualmente o impacto é grande, não adianta fechar os olhos. Nos momentos em que a trilha entra em ação, o volume se eleva a ponto de se tornar quase insuportável. Insuportável de um jeito bom, já que estamos falando de um filme de terror. Trata-se de um rock progressivo com vocais absolutamente aterrorizantes e com uma música-tema muito marcante. A trilha-sonora injeta a energia fantasmagórica que faltava na dureza arquitetônica e na psicodelia de cores.

Dessa forma, o clima de terror criado pelas edificações e ambientes, pela iluminação de um colorido extremo e pela trilha-sonora assustadoramente alta e exótica, fazem com que Suspiria esteja marcado como um dos mais interessantes filmes de terror de todos os tempos.

No texto "As Três Mães" eu falarei um sobre as sequências e sobre a refilmagem de Suspiria.