12.6.18

AVISO

Desde meados de 2016 esse blog não ganha uma nova atualização e, antes disso, ficou parado por 5 anos. Peço, então, que tenha paciência ao ler meus textos: minha escrita mudou, algumas ideias também. De todo modo, espero que goste! Obrigada pela visita!

24.7.16

Dead Ringers (Gêmeos - Mórbida Semelhança)



1988
Drama, Suspense
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg e Norman Snider




Estava eu deitada na cama, rolando de um lado para o outro. Até que finalmente percebi: não consigo tirar esse filme da cabeça. Assim, fui obrigada a me levantar, a sair do calor e conforto, e me dirigir a uma sala fria e escura. Só porque esse filme é bom assim.

Beverly (Jeremy Irons) e Elliot (Jeremy Irons) são gêmeos, idênticos. Desde crianças, compartilham suas experiências. Todas. Compartilham tudo. Até que a atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold) surge entre eles e evidencia algo com o qual eles não podem lidar: suas identidades.

Essa noite meu texto será passional, pessoal e íntimo. Não procure aqui tecnicalidades, pois hoje, debaixo do edredom, eu apenas senti. Há quanto tempo não vejo os créditos finais subindo, enquanto noto o meu coração disparado e a excitação de ter sido tomada por aflição e desespero, mesmo sabendo que está tudo bem, que estou segura e que “aquilo é só um filme”?

Jeremy Irons é um espetáculo na tela. Brilhante, como não podia deixar de ser. Ele mergulha de cabeça em duas personalidades que se distinguem e se confundem na mesma proporção. Que são tão iguais, que a todo momento estamos incertos sobre quem estamos vendo e, ao mesmo tempo, tão diferentes que não podemos imaginar seres mais opostos.

David Cronenberg, juntamente com sua equipe costumeira, é um mágico por trás das câmeras, faz com que cada cena nos provoque mais e mais angústia. Mas lentamente, com cuidado, tudo muito bem dosado. O roteiro é brilhante e um de seus poucos roteiros não originais, é baseado no livro Gêmeos, de Barri Wood e Jack Geasland.

Não espere aqui o Cronenberg completamente bizarro, o Cronenberg absolutamente grotesco. Não se preocupe, você vai encontrar o bizarro e o grotesco, com a diferença de que não estará pulsando na tela, se derramando para fora até você se encolher, temendo ser devorado. O que você vai encontrar é um Cronenberg maduro e meticuloso, mas que não perde sua identidade. Sua habilidade nesse quesito me remeteu a um filme muito posterior, do Darren Aronofsky, sobre o qual já falei aqui: Cisne Negro. E, tal qual neste último, você vai sim se encolher, mas temendo pela sua sanidade.


A licença poética é muito bem dosada, tornando-se a cereja do bolo. Não se apegue ao factível, não se agarre ao que é real. Todos sabemos quais as cores usadas em uma sala de cirurgia, por exemplo, se ele mudou, entenda, ele o fez de propósito. Faça como Bev, abra os braços, vista-se de vermelho e mergulhe na insanidade, ou faça como Eli, entregue-se e deixe-se levar por esta experiência fantástica e perturbadora. Qualquer que você escolha, o resultado será o mesmo. Apenas não lute contra, pois irá doer.

19.7.16

Naked Lunch (Mistérios e Paixões)






1991
Drama (segundo o IMDb, mas eu não sei classificar)
Direção: David Cronenberg
Roteiro: William S. Burroughs (livro) e David Cronenberg




Pense em um diretor obcecado por sangue, pus, sexo, gore. Pense que esse diretor tem nas mãos um dos livros que inspirou toda a sua carreira. Pense que ele tem a oportunidade de fazer sua apoteose. Pense na minha decepção.

Bill Lee (Peter Weller, para sempre o nosso Robocop) é um dedetizador que, influenciado pela esposa, acaba se viciando no produto usado como inseticida. Em seus delírios, comete um ato que o leva a fugir para o Norte da África e mergulha em uma trama permeada de seres grotescos, enquanto se entrega ao desejo de ser um escritor.

Comecemos pelo fato que David Cronenberg escreveu e dirigiu filmes como Calafrios (1975), Enraivecida na Fúria do Sexo (1977) e, posteriormente, Crash – Estranhos Prazeres (1996), todos uma ode à depravação. Além disso, ele também é responsável por filmes como Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983), A Mosca (1986) e, posteriormente, eXistenZ (1999), todos uma ode ao grotesco e ao bizarro.

Agora, vamos falar sobre Almoço Nu, o livro no qual Mistérios e Paixões (que droga de nome horrível!) foi baseado. Burroughs o escreveu em meio às suas crises de alucinações e delírios, durante os anos em que foi viciado em toda e qualquer substância imaginável, principalmente a morfina, publicado em 1959, quando já havia se curado do vício. Um livro considerado infilmável, e com razão. Praticamente não uma há linha cronológica, muito menos o que se pode considerar uma história. Temos um apanhado de cenas e situações onde o caralho, o cu e a merda são os protagonistas*. Em meio a essas cenas, lá para mais da metade do livro é possível perceber que alguns personagens aparecem com mais frequência. E é somente através de uma tentativa de colocar suas pequenas histórias em um contexto e de interligá-las, que ao final podemos considerar que realmente o que lemos era um livro. 

Em Almoço Nu, as pessoas são acinzentadas, esverdeadas, azuladas ou amareladas, a depender do momento ou da droga que usam. Há uma galeria de deformidades, como protuberâncias, feridas abertas, gente que derrete, gente que desintegra, pessoas parecidas com répteis e viciadas em sêmen de mugwumps, gente que bebe outras pessoas até consumi-las por inteiro, médicos fazendo cirurgias em mictórios ou com abridores de lata. Sem contar os seres estranhos e/ou indescritíveis, como babuínos de bunda pelada, latahs e os já citados mugwumps. Praticamente todos os personagens fazem sexo, praticamente o tempo todo, 99% dos personagens são lgbt, mas se não são, se vendem a qualquer um por um pouco de droga, qualquer que seja ela.

Agora, nós voltamos ao Cronenberg, que declaradamente tem o Burroughs como uma de suas maiores inspirações – o que faz TODO sentido – e que resolve adaptar o livro infilmável. Ele poderia fazer absolutamente qualquer coisa que sua mente insana pudesse imaginar. Pois uma adaptação desse livro comportaria. Ele poderia dar adeus à cronologia, fazer um roteiro sem pé nem cabeça, ele poderia satisfazer toda a sua vontade de praticamente fazer um pornô misturado com horror gore. Mas não. Em Mistérios e Paixões, não vemos um peladinho, há um roteiro praticamente redondinho, com pessoas fisicamente normaizinhas e, ah, para não dizer que não tem bizarro, tem mugwumps e insetos gigantes. 

Ok. Estou exagerando ao simplificar o roteiro e os personagens. Porém, o que eu vi na tela não está nem perto da demência do livro. Lógico que eu não acho que tinha que ser uma adaptação fiel. É realmente infilmável. Mas era a grande chance do Cronenberg de tocar o terror, de pirar, e ele desperdiçou! É frustrante terminar de ler aquela insanidade toda e cair num filme no qual o máximo de bizarrice são cenas pontuais de delírio, visivelmente separadas das cenas “reais”. Por quê? Fora o início do filme e, talvez, um ou dois outros momentos, as cenas em que o Lee não está drogado seriam totalmente desnecessárias. O filme tinha que ser 90% de alucinação! 

Aliás, quero falar sobre o Lee um pouquinho. Uma das melhores coisas desse filme foi a ideia de trazer a vida real do Burroughs para o roteiro. O caso em que ele mata a esposa ao brincar de Guilherme Tell é verídico. E Burroughs realmente fugiu para o Norte da África após cometer o crime acidental. Colocar isso no filme, mesmo não estando no livro, é genial. Mas que porcaria é essa de o Lee não ser gay?! O Burroughs era! É uma droga ter que ver ele se reafirmando o-tempo-todo, como se fosse algum demérito do filme representar a sexualidade do protagonista tal como era a da pessoa na qual foi baseada.

Mas, apesar de decepcionante, o filme não é um fracasso completo – nem perto disso. Como disse, trazer a vida do Burroughs para a tela foi genial, inclusive porque é o ponto que possibilita a linearidade ao roteiro. Veja bem, não acho ruim a linearidade, só acho que ficou tudo muito redondinho. Além disso, trazer uma máquina de escrever-inseto para a história ficou perfeito. E todos os momentos de alucinação são pequenas obras-primas. Também é uma sacada inteligentíssima colocar trechos do livro declamados por Lee e, eventualmente, por outro personagem lendo seus textos. Aliás, o Cronenberg é um puta diretor. Por mais que o roteiro não seja o meu preferido, em termos de direção não consigo criticar nada. Ele cria um clima noir que tem tudo a ver e faz cenas memoráveis. 

Eu sei que a minha decepção vai acabar abrandando (já está, na verdade). Acho que ainda estou muito intoxicada com o livro e perdi a noção do que é aceitável e normal e do que é depravação e bizarrice. E imagino que futuramente irei gostar mais do filme. É o tipo de filme que vai crescendo na gente, que quanto mais a gente lembra dele, mais descobre pequenas pérolas. O Cronenberg sabe fazer filmes assim. Geralmente a gente sai enojado, depois pensa bem e vai descobrindo que gostou.

Na verdade, me sito uma farsa, hipócrita. Que cara de pau a minha, criticar o mestre Cronenberg enquanto escrevo um texto tão... normal. Essa também era a minha chance de pirar o cabeção, falar palavrões, não fazer sentido. E desperdicei.




* Desculpe-me o palavreado, mas é impossível falar de Burroughs em termos mais amenos.

20.3.11

Changeling (A Troca)







2008
Drama
Direção: Clint Eastwood
Roteiro:
J. Michael Straczynski










Assisti A Troca sem saber que era de Clint Eastwood. Aí, nos créditos finais seu nome apareceu na tela e eu pensei: "Bem, é a cara dele mesmo...".


Ao voltar de um longo dia de trabalho, Christine Collins (Angelina Jolie), mãe solteira, não encontra seu filho Walter (Gattlin Griffith) em casa. Após meses de busca, a polícia de Los Angeles entra em contato dizendo que Walter foi encontrado. Porém, o garoto que o capitão J. J. Jones (Jeffrey Donovan) trouxe até Christine não é seu filho. Após várias tentativas frustradas de explicar o caso ao policial, a mulher se vê obrigada a enfrentar a polícia para conseguir provar que seu filho ainda não foi encontrado e que um pequeno impostor foi-lhe entregue em seu lugar. Para isso ela conta com a importante ajuda do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), o qual vê em Christine a chance de desmascarar o poder corrupto que toma conta da cidade.

Nunca sei o que escrever sobre um filme desses. Acho que é a minha falta de repertório, porque drama nunca foi muito a minha praia... Ainda assim, existem coisas que ficam evidentes e existe também a minha opinião geral sobre o resultado do filme.

A qualidade mais marcante de A Troca é a sua belíssima ambientação. A cenografia e o figurino estão absolutamente divinos e de encher os olhos. A coloração do filme, puxada para os tons pastéis e terrosos  só ressaltou ainda mais essa beleza e nos fez entrar de cabeça na época em que se passa a história.

Outro fato que salta aos olhos é que o filme é praticamente dividido em duas partes. A partir do momento em que se começam investigações de um certo crime, a história adquire um novo rítmo. Mas apesar de essa quebra existir, não a acho suficiente para compremeter por completo a unidade do roteiro.

Mas a característica que mais falada sobre A Troca foi a atuação de Angelina Jolie. Particularmente, eu acredito que houve um furor sem fundamento a respeito da interpretação da atriz. Jolie fez um trabalho bom, porém que beira o insuficiente. Ela se perdeu na complexidade da personagem, sem conseguir achar o tom da mãe desesperada combinada à mulher forte. No início do filme ela parece temer demonstrar qualquer fraquesa da personagem, de modo a não comprometer a imagem de força que ela precisaria passar no restante do filme - como se chorar e desesperar-se pela perda de um filho fosse alguma fraquesa. Não que eu esteja esperando que a personagem reagisse como eu o faria diante do desaparecimento do meu filho, mas as expressões me pareceram quase dúbios, como se a Angelina Jolie não soubesse exatamente qual era o sentimento que ela queria expressar.


Com isso, A Troca se mantém mais ou menos como a atuação de Jolie: quase chega lá, mas se perde um pouco. Talvez seja a duração, não exagerada, mas acima da média; talvez seja o rítmo algumas vezes lento, que por si só não seria um defeito; talvez seja a existência de algumas soluções que beiram o crível. Provavelmente é a somatória disso tudo. No entanto, o filme é bastante bom e vale a pena, se visto sem muitas espectativas.

13.3.11

Vincent





1982
Animação, Fantasia
Direção: Tim Burton
Roteiro:
Tim Burton





Aí que um dia me indicaram que assistisse Vincent, de Tim Burton. Fiquei bastante empolgada e baixei. Mas sem saber que era um curta, coloquei numa lista de espera. Pois é, acabei de descobrir que são menos de 6 minutos de animação... Não cometam a mesma gafe que eu, assistam já!

Vincent conta a história de um garoto que queria ser Vincent Price. Quer coisa mais fofa? Pois bem. Além de toda a estética expressionista que se tornou uma marca de Tim Burton, a história é contada em forma de poema. É pouco? Certo, certo. Então vamos ao xeque-mate: o narrador da historieta é nada mais, nada menos, que o próprio Vincent Price. A-há.

O texto é lindíssimo, melodioso, delicado e soturno. Tal qual o grandioso Sr. Price. E esse texto pode ser lido em português no blog Monalisa, e na lingua original pelo site The Tim Burton Collective. A animação foi toda feita em preto e branco, o que nos aproxima ainda mais dos filmes estrelados por Vincent Price. A narração não podia ser mais perfeita - e creio que não há motivos para eu explicar essa afirmação. Por fim, além de tudo, o personagem é cativante, simpático e nos dá uma vontade tremenda de pegá-lo no colo e apertá-lo até dele arrancar um sorrisinho melancólico.

Vincent foi o primeiro trabalho em
stop-motion de Tim Burton. E com ele, o diretor mostra que já em 1982 ele era o Tim Burton de O Estranho Mundo de Jack, de Edward, Mãos de Tesoura, de Batman. Com Vincent, Tim Burton nos prova que ele já era brilhante há muito tempo!