20.3.11

Changeling (A Troca)







2008
Drama
Direção: Clint Eastwood
Roteiro:
J. Michael Straczynski










Assisti A Troca sem saber que era de Clint Eastwood. Aí, nos créditos finais seu nome apareceu na tela e eu pensei: "Bem, é a cara dele mesmo...".


Ao voltar de um longo dia de trabalho, Christine Collins (Angelina Jolie), mãe solteira, não encontra seu filho Walter (Gattlin Griffith) em casa. Após meses de busca, a polícia de Los Angeles entra em contato dizendo que Walter foi encontrado. Porém, o garoto que o capitão J. J. Jones (Jeffrey Donovan) trouxe até Christine não é seu filho. Após várias tentativas frustradas de explicar o caso ao policial, a mulher se vê obrigada a enfrentar a polícia para conseguir provar que seu filho ainda não foi encontrado e que um pequeno impostor foi-lhe entregue em seu lugar. Para isso ela conta com a importante ajuda do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), o qual vê em Christine a chance de desmascarar o poder corrupto que toma conta da cidade.

Nunca sei o que escrever sobre um filme desses. Acho que é a minha falta de repertório, porque drama nunca foi muito a minha praia... Ainda assim, existem coisas que ficam evidentes e existe também a minha opinião geral sobre o resultado do filme.

A qualidade mais marcante de A Troca é a sua belíssima ambientação. A cenografia e o figurino estão absolutamente divinos e de encher os olhos. A coloração do filme, puxada para os tons pastéis e terrosos  só ressaltou ainda mais essa beleza e nos fez entrar de cabeça na época em que se passa a história.

Outro fato que salta aos olhos é que o filme é praticamente dividido em duas partes. A partir do momento em que se começam investigações de um certo crime, a história adquire um novo rítmo. Mas apesar de essa quebra existir, não a acho suficiente para compremeter por completo a unidade do roteiro.

Mas a característica que mais falada sobre A Troca foi a atuação de Angelina Jolie. Particularmente, eu acredito que houve um furor sem fundamento a respeito da interpretação da atriz. Jolie fez um trabalho bom, porém que beira o insuficiente. Ela se perdeu na complexidade da personagem, sem conseguir achar o tom da mãe desesperada combinada à mulher forte. No início do filme ela parece temer demonstrar qualquer fraquesa da personagem, de modo a não comprometer a imagem de força que ela precisaria passar no restante do filme - como se chorar e desesperar-se pela perda de um filho fosse alguma fraquesa. Não que eu esteja esperando que a personagem reagisse como eu o faria diante do desaparecimento do meu filho, mas as expressões me pareceram quase dúbios, como se a Angelina Jolie não soubesse exatamente qual era o sentimento que ela queria expressar.


Com isso, A Troca se mantém mais ou menos como a atuação de Jolie: quase chega lá, mas se perde um pouco. Talvez seja a duração, não exagerada, mas acima da média; talvez seja o rítmo algumas vezes lento, que por si só não seria um defeito; talvez seja a existência de algumas soluções que beiram o crível. Provavelmente é a somatória disso tudo. No entanto, o filme é bastante bom e vale a pena, se visto sem muitas espectativas.

13.3.11

Vincent





1982
Animação, Fantasia
Direção: Tim Burton
Roteiro:
Tim Burton





Aí que um dia me indicaram que assistisse Vincent, de Tim Burton. Fiquei bastante empolgada e baixei. Mas sem saber que era um curta, coloquei numa lista de espera. Pois é, acabei de descobrir que são menos de 6 minutos de animação... Não cometam a mesma gafe que eu, assistam já!

Vincent conta a história de um garoto que queria ser Vincent Price. Quer coisa mais fofa? Pois bem. Além de toda a estética expressionista que se tornou uma marca de Tim Burton, a história é contada em forma de poema. É pouco? Certo, certo. Então vamos ao xeque-mate: o narrador da historieta é nada mais, nada menos, que o próprio Vincent Price. A-há.

O texto é lindíssimo, melodioso, delicado e soturno. Tal qual o grandioso Sr. Price. E esse texto pode ser lido em português no blog Monalisa, e na lingua original pelo site The Tim Burton Collective. A animação foi toda feita em preto e branco, o que nos aproxima ainda mais dos filmes estrelados por Vincent Price. A narração não podia ser mais perfeita - e creio que não há motivos para eu explicar essa afirmação. Por fim, além de tudo, o personagem é cativante, simpático e nos dá uma vontade tremenda de pegá-lo no colo e apertá-lo até dele arrancar um sorrisinho melancólico.

Vincent foi o primeiro trabalho em
stop-motion de Tim Burton. E com ele, o diretor mostra que já em 1982 ele era o Tim Burton de O Estranho Mundo de Jack, de Edward, Mãos de Tesoura, de Batman. Com Vincent, Tim Burton nos prova que ele já era brilhante há muito tempo!

6.3.11

A sedução do Cisne


Este é um aprofundamento ou continuação do texto já publicado há algumas semanas sobre o filme Cisne Negro.



Eu li algumas críticas internet afora e nem todas são favoráveis ao filme, como a maioria. Então, como fui ao cinema e assisti Cisne Negro novamente, busquei analisar se eu concordava com alguma dessas argumentações negativas. Mas o fato é que a minha opinião em nada mudou e eu apenas consegui ficar mais e mais adimirada com a beleza da película, na mesma proporção em que fiquei inconformada com as tais críticas.

Aprimeira vez que li algo de ruim sobre Cisne Negro, o texto embasava grande parte de sua argumentação no fato de que Natalie Portman não é bailarina, que sua dança não é absoulatemnte perfeita e que o filme não satisfaz enquanto "filme de balé"¹. Eu, sinceramente, acho que reduzir Cisne Negro a um 'filme de balé' é de uma falta de sensibilidade tão grande que me choca. O filme é sobre alguém que se doa tanto para seu trabalho que acaba perdendo a própria identidade, é sobre uma garota que cresceu reprimida e se vê com a necessidade de libertar seus desejos mais íntimos, sobre alguém que é tão insegura que só consegue buscar a perfeição ao tentar se espelhar em pessoas que adimira. 


O fato de o pano de fundo ser o balé O Lago dos Cisnes foi uma excelente idéia, já que a própria história contada no balé pode servir de metáfora para a história do filme. Foi um toque de mestre, mas não foi o ponto de partida. Tanto é que, inicialmente, o roteiro ambientava a história no mundo do teatro, mas Aronofsky sugeriu, brilhanemente, transmutá-la para o mundo do balé.²

Outro ponto levantado foi sobre o suspense do filme e as ferramentas utilizadas. É engraçado como em um lugar eu li que o filme é confuso e por isso cansativo, em outro eu li que ele é óbvio demais. O que significa que a gente (eu me incluo nisso, óbvio) costuma julgar o bom e o ruim não de forma objetiva, e sim totalmente subjetiva. Ele é bom ou ruim para mim. Enquanto alguém se cansou ao acompanhar a luta de Nina para manter sua sanidade, se perdendo entre o real e o irreal, eu me deleitei com cada momento. Não me incomodou em nada o fato de ficar cada vez mais claro durante o filme que a garota tinha problemas psicológicos, pois cada cena em que Aronofsky desnuda sua mente perturbada foi envolvente o bastante para eu sentir como ela. Durante as quase duas horas de projeção eu era a Nina.


A idéia dos espelhos foi amplamente utilizada, sim, mas isso gerou cenas belíssimas, com um timing preciso. E eu até concordaria que houve um excesso, se esse fosse o único recurso de Aronofsky. Em vez disso, o homem nos joga em meio a uma intensa autoflagelação, com aquele destaque sonoro perfeito, unida a uma tensão sexual constante. Os espelhos ou os 'truques de terror japonês'³,  também criticados, não são ferramentas originais, mas são extremamente adequadas para a situação. Pois eu, particularmente, adimiro um diretor que conhece os artifícios de sua profissão e sabe escolher o ideal para cada situação, a despeito de seu uso em outros filmes. Porque o resultado é inegável. Cada cena foi responsável por uma parte da minha incersão no drama, cada vez mais intenso (e tenso). Quantas vezes eu não me vi me contorcendo na cadeira do cinema, numa tensão avassaladora? E o que resultou disso foi uma sensação latente, como se eu estivesse sentindo a dor de Nina, como se eu estivesse delirando junto com ela. Ora, mas não posso dizer que essa sensação foi absolutamente particular, visto o sucesso que o filme vem fazendo, de uma forma geral. 

Outros recursos foram apontados como óbvios e reiterantes demais do que se passava na mente de Nina⁴. E eu continuo me perguntando qual o problema nisso, se cada recurso serviu como uma luva para atingir o objetivo de transmitir as sensações desejadas. Vale dizer que, eu entendo esse filme da seguinte forma: as sensações da platéia são um espelho das sensações da personagem. Se eu sinto aflição, é pela Nina. Não há aflição pela aflição.


Enfim, cada palavra escrita aqui é um apontamento subjetivo, mas uma tentativa de objetivar as minhas idéias. Espero que o texto seja visto também como o início de uma discussão saudável, e não como um debate pessoal. Eu  quero deixar claro que respeito os críticos referenciados, e adimiro em especial a dupla que escreve para o Cinefilia, Bruno e Pedro Henrique. A intenção real minha era mais escrever sobre as qualidades que eu vejo no filme, aproveitando para rebater o que havia sido apontado negativamente. Ou seja, o ideal é que o texto seja visto mais como uma ode ao Darren Aronofsky, do que como uma represália aos seus críticos, rs. Afinal, não se pode concordar sempre, ainda bem!





1. Arthur Xexéo, A morte do 'Cisne'.
3. Bruno Cava, Cisne Negro (2).
4. Pedro Henrique Gomes, Cisne Negro (3).

27.2.11

The Happening (Fim dos Tempos)

2008
Ficção Científica
, Suspense
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro:
M. Night Shyamalan


Olá, meu nome é Thalita. "Olá, Thalita". Eu tenho um problema. Eu sou fã do diretor M. Night Shyamalan. Eu sempre o defendi quando a crítica especializada acabava com seus filmes. Até agora.

Estranhos acontecimentos assolam os centros urbanos, onde cada vez mais pessoas começam a tirar as próprias vidas sem motivo aparente. O professor Elliot Moore (Mark Wahlberg), sua esposa Alma (Zooey Deschanel) e a pequena Jess (Ashlyn Sanchez), filha de seu amigo Julian (John Leguizamo) precisam fugir e fazer o possível para sobreviver a essa calamidade.


É tão difícil fazer isso - mas deve ser feito. Lá vai: com Fim dos Tempos, seu penúltimo filme, M. Night Shyamalan decepciona até mesmo seus maiores fãs. Muito aquém de qualquer expectativa, o argumento não convence e as atuações só fazem piorar a situação da obra.

O grande problema de Fim dos Tempos é, definitivamente, a atuação precária de Mark Wahlberg, Zooey Deschanel e, até mesmo, Ashlyn Sanchez. Se Shyamalan havia conseguido retirar um grande ator de dentro de Bruce Willys, dessa vez ele não conseguiu tirar nem mesmo o suficiente para chamarmos de atuação regular. Wahlberg não demonstra firmeza em seu papel, Zooey não consegue provocar nenhum sentimento no espectador por sua tristeza e culpa, e Ashlyn é bonitinha, mas não consegue conquistar a gente a ponto de querermos pegá-la no colo e privá-la de qualquer sofrimento. E olha que Shyamalan sempre teve o dom de fazer qualquer um se apaixonar pelas criancinhas de seus filmes. Assim, com um trio desses, a empatia - que geralmente amarra a platéia à película - é praticamente inexistente.

Se o grande problema dentro do filme foram as atuaçãoes, fora dele foi a própria presença de Shyamalan. Em uma entrevista dada pouco antes do lançamento do filme, o diretor fez a afirmação que se segue: "A primeira coisa que quero dizer às pessoas é o seguinte: 'Este é de fato um filme B divertido."' Acontece que Fim dos Tempos não nos remete a um filme B, pois ele é muito bem acabado para isso. Se fosse um filme B realmente, seria até mesmo injusto exigir muito apuro da trama ou das atuações. Porém, com a qualidade visual que vemos em Fim dos Tempos, ele acaba se tornando apenas um filme com falhas. E nem é tão divertido.


Quanto ao argumento: as plantas emitem um veneno, trazido pelo vento, que faz com que as pessoas percam completamente seu sentido de auto-preservação e se suicidem. Bem, é estranho, pois tinha tudo pra dar certo, mas não convence. Ao final do filme, minha família inteira estava tirando um sarrinho a esse respeito e eu, que instintivamente tendo a defender os filmes do Shyamalan, dessa vez fiquei de mãos atadas. Eu não estava convencida também. Sem contar que, estranhamente, neste filme Shyamalan faz questão de ser didático ao extremo, deixando tudo tão explicadinho que quase chega a ofender a nossa inteligência.

Mas entenda, não é que o filme seja completamente ruim. Entretanto, é de longe o pior trabalho de Shyamalan. E não dá para simplesmente apreciar um filme deste diretor isoladamente, como se fosse a obra de um Zé Ninguém. A partir do momento em que você ouve o nome dele, todo um repertório controverso lhe vem à mente e mesmo os mais incrédulos dos mortais não consegueria ficar indiferente. Afinal, tudo pode acontecer, você pode estar prestes a assistir um filme que entrará para a história do cinema, como foi O Sexto Sentido, como pode estar diante de um fracasso retumbante (por mais que você acabe gostando do filme), como A Dama na Água. E, como eu já tinha gostado de todos os 5 filmes que havia assistido, é natural que a minha expectativa estivesse nas alturas.

No entanto, por mais decepcionado que esteja o espectador, é inegável que as situações geradas pelo roteiro são incrívelmente tensas e assustadoras. Mesmo você achando que é uma balela, mesmo você nem ligando muito para o tal Elliot, você se segura na poltrona sempre que a câmera dá o sinal da menor brisa que seja. Shyamalan sabe usar sua câmera e sabe criar esses momentos de suspense, de aflição. E, veja só, eu assisti Fim dos Tempos num sítio e, as mesmas pessoas que estavam fazendo pouco caso do filme, adimitiram que atravessar o caminho em meio às árvores até chegar nos quartos não seria tarefa fácil.

No frigir dos ovos, o saldo se empata. Fim dos Tempos é um filme até mesmo interessante, mas que decepciona pelo que carrega em seu background.

20.2.11

Black Swan (Cisne Negro)




2010
Drama, Suspense
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Andrés Heinz, 
Mark Heyman e John McLaughlin






Para conseguir interpretar A Rainha Cisne no balé O Lago dos Cisnes, a bailarina Nina (Natalie Portman) precisa provar que é capaz de dançar como o Cisne Negro tão bem quanto o faz sendo o Cisne Branco. É isso o que exige Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da peça. No entanto, com a chegada da nova bailarina Lily (Mila Kunis), Nina teme perder a preferência do diretor.

Bom? Ótimo? Excelente? 

Não. 

Perfeito. 

O primeiro contato que tive com Cisne Negro foi através dos trailers. Fiquei empolgadíssima com o elenco, com a estética, com tudo. A cada cartaz, a cada imagem aleatória, a cada comentário que me caía ao conhecimento, mais interessada eu ficava. E aí sempre bate aquele medão de se decepcionar depois, né. Mas não foi o caso.

Cisne Negro cumpre com absolutamente tudo o que promete: atuações perfeitas, roteiro bem desenvolvido, história forte, edição de cenas e sonora impecáveis, estética lindíssima, efeitos especiais muito bem dosados e que agregam valor ao filme. Não há do que reclamar.

Natalie Portman já entrega o inevitável logo nas primeiras cenas. Não há dúvidas de que ela seja aquela mocinha frágil e travada, não há dúvidas de que ela seja o próprio Cisne Branco. E, como bailarina, mesmo que os especialistas no assunto possam notar algum movimento impreciso de suas mãos ou pernas, ela consegue fazer-nos entender porque ela é um Cisne Negro tão medíocre e, ao mesmo tempo, porque ela tem potencial para ser excepcional. Vincent Cassel faz seu papel com tamanha precisão que nos convence sem o menor esforço de que pode ser galã e sedutor, por mais feio que seja. Barbara Hershey, no papel da mãe de Nina, nos brinda com uma personagem complexa e executa seu papel lindamente. Mesmo Mila Kunis faz muito bem o papel de Lily, com bastante consistência.

O roteiro é tão bem construído que a gente vai entrando naquele relacionamento defeituoso entre mãe e filha, se envolvendo com os defeitos de cada uma. A isto se soma o relacionamento entre Nina e Thomas, cheio de cobranças, intimidade e tensão. E, para coroar, temos a própria personalidade auto-destrutiva de Nina. Pronto, temos um filme para nos deixar tensos  e incomodados do início ao fim.

É claro que para salientar e evidenciar cada aspecto, há a belíssima edição de som, os efeitos especiais perfeitamente  pontuais e a execução da trilha-sonora maravilhosamente adaptada do original O Lago dos Cisnes. Tudo isso é obra de uma direção que sabe muito bem a que resultado quer chegar. Obra de um diretor que tem uma visão quase onírica e precisa da história, e que sabe como traduzi-la em imagens.

E eu preciso salientar quão competente é esse diretor. Arofonsky sabe o que precisa para atingir seu objetivo e sabe usar essas ferramentas de maneira bem feita. O uso dos espelhos como figura de linguagem é inteligente sem ser óbvio demais ou cansativo. A posição da câmera que em certos momentos quase engole o rosto de Natalie Portman, em outros a segue pelas costas,  e, em outros ainda, a segue de frente, como se a personagem caminhasse olhando para si mesma. Ele sabe escolher o enquadramento ideal para cada momento, sem perder a unidade, e de modo a nos levar a fundo na mente da protagonista cada vez mais perturbada.

Para finalizar, nada tenho a dizer, a não ser: Darren Aronofsky acaba de ganhar uma fã inveterada.