2006
Comédia?
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Marçal Alquino e Heitor Dhalia
Diz Selton Mello que esse filme não é comédia. Por que é que todo mundo ri? Eu também acho que não é comédia, mas por falta de como classificá-lo, resolvi deixar assim. Mas eu sei porque eu ri, foi de desconforto, foi uma risada nervosa. Afinal, o que é aquilo tudo?
Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma casa de penhor que possui os mais estranhos clientes. Sua vidinha nada tem de especial, mas Lourenço parece acordar dela com o insuportável cheiro do ralo. Não é ele quem fede, é o ralo do banheiro que está com problema. As pessoas podem se confundir com isso... Com essa preocupação rondando sua cabeça, Lourenço vai a uma lanchonete e se apaixona pela bunda da garçonete (Paula Braun).
Dizer que virei fã do Heitor Dhalia talvez seja pouco. O cara é genial e dá orgulho de saber que ele é brasileiro - imagino o que sentem os pernambucanos. Ele conseguiu fazer um dos melhores filmes brasileiros que eu já assisti. É um diretor que sabe dirigir um filme de maneira inovadora. Cada tomada, cada cena! Ousaria dizer que ele bate no Fernando Meirelles - e o Fernando Meirelles, p*#% que pariu! Mas é realmente ousadia minha dizer isso tendo assistido apenas um filme do Sr. Dhalia. Veremos o que direi depois de ter assistido Nina. Mas sinceramente, ele não perde em nada para Spike Jonze (Quero ser John Malkovich) ou Wes Anderson (Os Excêntricos Tenembaums).
Acho que todos já estão carecas de saber, e duvido que alguém discorde, que Selton Mello faz miséria quando... quando nada, sempre. E ele se encontrou com o cult - vide seus últimos seriados na tv. Na verdade o elenco todo do filme é simplesmente ótimo, inclusive a dona da bunda, Paula Braun. Esta eu não conhecia e realmente é uma atriz excelente - ou assim ela foi, pelo menos nesse filme.
O Cheiro do Ralo é baseado em um livro de Lourenço Mutarelli. Não li o livro, mas o roteiro é ótimo. Ele vai aos poucos nos mostrando que o cheiro do ralo vem, sim, de Lourenço (o protagonista, não o escritor). E quanto mais Lourenço tenta acabar com aquele cheiro, mais podre ele próprio vai ficando. Obcecado pela tal bunda e com a certeza de que o dinheiro compra absolutamente tudo, Lourenço é a personificação do povo brasileiro.
Também edição, cenário, figurino, fotografia, tudo é moldado de forma a fazer o filme ainda mais perturbador e até mesmo claustrofóbico. E aí sou obrigada a voltar ao assunto da classificação do filme. É comédia? Cara, eu ri. Mas que filme estranho! Tudo é esquisito, todos são anormais, as situações beiram o absurdo - erro meu, elas são absurdas - e muitas vezes você fica extremamente desconfortável. E é aí que você ri. Você ri pelo desconforto em ver que aqueles absurdos todos estão, pelo menos um pouquinho, retratando você mesmo. Os diálogos são bizarros, a edição é primorosa e no final tudo o que me restou foi a sensação de que tinha acabado de ver um filme bom demais para mim.
Interessado em entender porque eu acho que esse filme é "esquisito"? Acho que sem assistir o filme é impossível, mas isso aqui dá uma ideia: www.ocheirodoralo.com.br