20.6.20

As Três Mães

Há cerca de dois anos escrevi sobre Suspiria.

Nos últimos dias, resolvi rever os outros dois filmes da trilogia das mães e ontem não pude dormir enquanto não anotasse tudo o que estava se passando pela minha cabeça. Me dedico nesse texto a falar um pouco sobre cada filme, inclusive a refilmagem de Suspiria, de 2018, relacionando-os todos entre si e com o original de 1977.


Enquanto o primeiro filme nasceu de um sonho de Daria Nicolodi, toda a ideia para a mitologia das Três Mães foi inspirada em um ensaio chamado "Suspiria de Profundis", de Thomas De Quincey.

Suspiria não é uma história, é um pretexto para cenas lindas e assustadoras. Nasceu de um sonho e se consagrou como um pesadelo belíssimo que dispensa a necessidade de fazer sentido. Sobre ele, a frase "não sei o que dizer, apenas sentir" cai como uma luva. E, se ficamos todos empolgados com a menção da tríade de bruxas, é justamente porque pouco sabemos sobre elas, mantendo-se toda a aura de mistério que as envolve. E tudo bem querer desenvolver um pouco a história nas sequências, mas infelizmente esse não é o forte de Argento.


Um cômodo iluminado com uma forte luz azul royal. Há uma janela entreaberta à esquerda, com vidro decorado com motivos florais e estilo art nouveau, uma porta aberta à frente (também com estilo art nouveau) mostra outro cômodo. No outro cômodo há uma moça amedrontada e atrás dela uma porta de madeira e vidro leitoso por onde entra uma luz vermelha.Mansão do Inferno (Inferno)


1980
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi (história - não creditado)



Em Mansão do Inferno, Dario Argento está tão preocupado e empolgado com sua mitologia, que acaba perdendo a mão naquilo que tem de melhor. Assim, na tentativa de se aprofundar no mistério das Três Mães, se prejudica. Por três motivos:

O primeiro motivo é que, apesar de se focar mais na história, ela continua não fazendo sentido. O enigma mencionado no livro "As Três Mães" que a Rose (Irene Miracle) consegue com o antiquário fala sobre três chaves para o segredo das Mães, mas as duas chaves nas quais o filme se apoia para solucionar o enigma, não solucionam absolutamente nada. SPOILER: A segunda chave leva a um cômodo submerso, que não elucida nada e nem leva a personagem adiante. A terceira chave leva a um local que o filme faz parecer ser importante, mas pelo qual Mark (Leigh McClockey) apenas passa, e que sequer é o único caminho possível para alcançar o esconderijo da bruxa.

O segundo motivo é que as melhores cenas são aquelas que justamente não avançam na narrativa. Elas existem porque são lindas e isso basta. Por exemplo, cito a cena do cômodo submerso comentada no spoiler acima; ela parece ser importante para a história, mas de fato não é - ela é importante para o filme sim, na construção do medo e por instigar mais dúvidas do que respostas. Outro exemplo é a cena do antiquário no lago/pântano/esgoto, que faz uma rima com uma cena emblemática de Suspiria (o pianista e seu cachorro) e, tal como ela, não tem serventia para a história.

O terceiro motivo é que a tríade "arquitetura - cores - música" perde um pouco a força. Menos com relação às cores e mais com relação à arquitetura e à música. A casa da bruxa é um prédio de apartamentos menos interessante do que a escola de dança; ao ser explorado em sua totalidade, as salas decoradas e coloridas dão lugar a ambientes desbotados e cheios de teias de aranha que acabam remetendo a locações mais tradicionais dentro do cinema de terror. A trilha-sonora é muito boa, principalmente a música tema, mas não possui nem de longe o impacto da do primeiro filme.

A ambientação como um todo também se perde quando, além do cenário e trilha-sonora, o elenco não é bem aproveitado. Os moradores do prédio não aparecem o suficiente para criarmos teorias sobre cada um ou para criar algum impacto quando o mistério se desvenda. Além disso, Dario Argento demora a focar no protagonista, que sequer é um personagem tão interessante quanto as outras três "quase-protagonistas" que aparecem antes dele. São três mulheres intrigantes, principalmente Elise (Daria Nicolodi), enquanto Mark está sempre inexpressivo e parecendo muitas vezes até mesmo desinteressado. É quase como se, inspirado em Psicose do Hitchcock, Argento nos quisesse ludibriar quanto a quem será o protagonista, mas se empolga tanto que repete a surpresa por outras duas vezes.

Ainda assim, A Mansão do Inferno é um ótimo filme, com cenas antológicas. Posso parecer dura em meu texto, mas é apenas porque trata-se da sequência de um dos mais importantes filmes da história do cinema de terror, sendo realmente difícil atender às expectativas e atingir o mesmo padrão.


Uma moça sobe uma escada em uma casa antiga e escura. A câmera a segue pelas costas e mostra parte do segundo pavimento. As paredes e o teto são muito decorados; à direita há janelas enormes com vitrais nas bordas inferior e superior, pelas janelas entra uma luz muito fraca. Os elementos decorativos são rebuscados, mas a iluminação não permite aprendê-los. O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas (La Terza Madre)

2007
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Jace Anderson, Adam Gierasch, Walter Fasano e Simona Simonetti


O que falar sobre A Mãe das Lágrimas? Infelizmente, o terceiro longa fecha uma trilogia que poderia ter sido perfeita, mas se resume a uma bagunça completa.

Dario Argento já é conhecido entre seus fãs por colocar muitos elementos em um único filme, mas aqui ele eleva isso a um patamar ridículo. Em meio a todo o excesso, percebo um potencial enorme, mas para ser outro filme! O roteiro praticamente não tem nada em comum com os outros dois longas que o antecedem, com exceção da presença da terceira Mãe. E, mesmo ela, pouco tem a ver com o que já vislumbramos de suas irmãs.

A começar pelo fato de que a influência da bruxa não se concentra em um prédio, ou extrapolando seus limites apenas pontualmente, mas se espalha por toda Roma. A cidade inteira vira um pandemônio! Tem bruxa para todo lado, tem fantasma, tem demônio, tem bruxa boa e tem até macaco! Enquanto passamos por uma experiência de imersão no ambiente da casa de cada Mãe nos filmes anteriores, especialmente no primeiro, envoltos pelos personagens ambíguos e pelo mistério, no terceiro filme essa situação desaparece quase por completo. Não há mais ambiguidade, o clã da bruxa já está desde o início tentando abertamente matar a protagonista. Não há mais mistério algum.

Assim, temos como grande fator destoante da trilogia a quase ausência da casa. A casa de cada Mãe que então parecia ter grande peso na mitologia, se resume neste filme a uma villa abandonada pela qual Sarah (Asia Argento) faz um tour apressado de três minutos antes de encontrar um velho, se esconder do clã (o que dura outros quatro minutos) e finalmente descer às catacumbas. O passeio pela casa, além de curto, é também feito em quase completa escuridão, de modo que quase não podemos ver a casa. Mas sugiro que você faça uma busca rápida por "la terza madre villa" e veja todo o potencial desperdiçado! Note também que, além de não ter aproveitado o interior deslumbrante dessa locação existente, Dario Argento ainda nos ofende acrescentando um par de "chifres" completamente desproporcionais no telhado beirando a fachada frontal.

As cores e músicas marcantes também são abandonados quase por completo. Em todo o filme, Argento aposta em uma iluminação mais realista (e sem graça) - e até o sangue de tinta ele substitui por algo mais real. Já a trilha-sonora em vários momentos se coloca de maneira desconexa (em algumas cenas a ausência total de música realmente faz falta).  No mencionado tour apressado, a música tem pouca importância, se resumindo a sons ominosos clichês, o ritmo acelerado dos passos é completamente frustrante e, como já dito, a iluminação não permite sequer que consigamos ver o cenário adequadamente. Não há suspense, não há clima de terror, não se cria nenhum tipo de sensação de desconforto a não ser a revolta por ser uma cena mal dirigida em absolutamente todos os sentidos!

Já as atuações são quase todas medíocres, inclusive a participação do Udo Kier como Padre Johannes. Já a participação de Daria Nicolodi é reconfortante, e Valeria Cavalli parece ser uma das poucas pessoas que sabe o que está fazendo no filme - mas o texto dos diálogos não ajuda. Uma coisa que me chama a atenção nos três filmes é que todos apresentam um personagem com deficiência física, o pianista cego no primeiro, o antiquário que precisa de muletas no segundo e o ocultista cadeirante no terceiro, sendo que este último permanece vivo para a minha grata surpresa.

Contudo, A Mãe das Lágrimas não é uma completa perda de tempo. Tem seus bons momentos, devo admitir. Além disso, Sarah não é burra (o que já é um alento em se tratando de filmes de terror!): ela tira o sapato quando precisa correr em silêncio, foge quando precisa, enfrenta quando o momento exige, é atenta.


Duas mulheres de cabelo liso e comprido (uma ruiva e outra grisalha) dançam frente à frente sobre um tapete colorido e geométrico de estilo art decò. A sala parece ser pequena e circular, a cena mostra uma parede preta com uma janela fechada por uma cortina de pano branca.
Suspiria: A Dança do Medo (Suspiria)


2018
Terror
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: David Kajganich




Resolvi escrever também um pouco sobre essa refilmagem porque assistindo toda a trilogia fica mais visível agora os paralelos que são feitos não só com o filme de 1977. Inclusive, sequer considero que seja uma refilmagem, mas sim uma releitura.

Ontem ficou claro para mim que o roteiro bebe muito de A Mãe das Lágrimas. A cena final de ambos os filmes é muito semelhante. Ademais, me parece que todos os religiosos/ocultistas deste foram unificados em 2018 na figura do Dr. Kemplerer (Tilda Swinton). E vou além: a própria nova Mãe dos Suspiros parece ser a união da bruxa boa (Sarah) com a bruxa má (a terceira Mãe) do Argento. Porém, Luca consegue fazer o que Argento em seu terceiro filme não foi capaz: se aprofunda na mitologia das Mães com coerência e sem perder o foco nas ambientações, no mistério, na ambiguidade.

Há quem classifique o novo filme como “pós-horror”. Eu não gosto desse termo, resumidamente porque ele pressupõe que o que vem sendo feito nos últimos anos é “melhor” do que o terror dito tradicional. Também pressupõe que o tipo de terror que está em voga atualmente (que eu chamaria mais de um terror psicológico, ou algo nesse sentido – até mesmo o termo meta-terror acho bem válido) não era feito no terror antes. E são duas premissas equivocadas. Se o modo como o Luca nos aterroriza nesse novo Suspiria é notavelmente diferente do terror mais explícito do original, isso não faz com que deixe de ser também terror em sua essência.

Em todo caso, não me aprofundarei mais a respeito desse novo filme, pois já tem um bom tempo que o assisti. Posso dizer que gosto muito dele, mas ainda prefiro o original. Acho que o Luca fez uma atualização incrível do filme para 2018, visualmente é lindo e coerente com a nova proposta. Entretanto, tenho minhas dúvidas se será um filme que irá sobreviver como um dos grandes clássicos do cinema de terror, da mesma forma que acontece com o original.

12.5.20

Diretores: Agnès Varda

Varda já senhora está de perfil (fazendo careta com uma mãos no nariz) em frente a uma fotografia sua preto e branco de tamanho real. Na fotografia, Varda está jovem e também de perfil. Ambas usam o mesmo casaco. Assim, faz-se parecer que as duas versões de Agnès estão frente a frente se olhando (e a velha tripudiando da nova).2019 prenunciava que não seria um bom ano quando, já em março, nos trouxe uma lamentável notícia. O mundo perdeu Agnès Varda. Não é uma perda minha, ou sua, é de toda e qualquer pessoa que diz amar o cinema. Cineasta e fotógrafa, faleceu aos 90 anos ainda em plena atividade. Seu primeiro longa-metragem, La Pointe-Courte, de 1955, assentou a pedra fundamental da nouvelle vague e seu último, Visages Villages, de 2017, foi indicado ao Oscar de melhor documentário e concorreu e venceu outras 36 premiações. Ainda, no início de 2019, Varda lançou um documentário em minissérie de dois episódios chamado Varda por Agnès.

O primeiro filme que assisti dela foi justamente seu último, Visages Villages, um documentário dirigido e roteirizado em co-autoria com o fotógrafo/muralista JR. Apesar de documentários raramente me chamarem a atenção, havia decidido dar uma chance a este - afinal, não é todo dia que uma senhora de 89 anos, parte fundamental da história do cinema (que eu desconhecia até então!), é tão comentada como Agnès Varda o foi nos anos de 2017 e 2018. E meu amor por ela nasceu instantaneamente! Impossível não se sensibilizar com seu olhar, com sua sabedoria e simplicidade. Agnès é apaixonante, seja atrás ou em frente às câmeras.

Dali em diante, assisti a vários outros praticamente em sequência. No total, foram 7 (dos 24) filmes da cineasta, tentando abarcar os momentos mais marcantes e a diversidade temática de sua carreira. Além do já mencionado acima, são eles: Cléo das 5 às 7 (1962), As Duas Faces da Felicidade (1965), Uma Canta, a Outra Não (1977), Os Renegados (1985), Os Catadores e Eu (2000) e As Praias de Agnès (2008). Destes, selecionei 4 sobre os quais falar um pouquinho mais:


Cléo de 5 à 7 (Cléo das 5 às 7)

1962
Drama, Comédia
Direção: Agès Varda
Roteiro: Agnès Varda




O segundo longa da carreira da cineasta é um dos mais importantes exemplos da nouvelle vague, indicado à Palma de Ouro em Cannes, e traz duas grandes inovações para o cinema: a história é contada em tempo real e pela perspectiva feminina. O realismo é quase documental, com longas sequências permeando uma Paris viva e autêntica.

Cléo das 5 às 7 acompanha 1h30 da vida da cantora Cléo (Corinne Marchand), enquanto esta aguarda o resultado de um teste que lhe dirá se tem ou não câncer. Durante esse período, seguimos Cléo em seus compromissos e em seu passeio pela cidade que se torna uma válvula de escape para seus medos e aflições. Trata-se de um filme intimista e reflexivo, ao mesmo tempo que se abre para o urbano cheio de casualidades e encara as opressões da sociedade.

Sendo Agnès Varda uma fotógrafa de formação, não me admira que seus filmes tenham uma fotografia impecável. Neste, a presença de espelhos é marcante e se relaciona diretamente com o que quer ser contado. Mais do que palavras e diálogos, a imagem tem grande peso na narrativa.

Um dos meus momentos favoritos do filme, no entanto, é quando Cléo ensaia em seu apartamento uma lindíssima canção com seus colegas instrumentistas.


Le Bonheur (As Duas Faces da Felicidade)

1965
Drama, Romance
Direção: Agès Varda
Roteiro: Agnès Varda



O terceiro longa de Varda toca em um tema polêmico e delicado, discutindo a traição e a monogamia. As Duas Faces da Felicidade conta a história de uma família aparentemente feliz e completa, mas que tem sua estrutura abalada quando o protagonista se apaixona por uma terceira pessoa. Apesar do tabu e da complexidade dos temas abordados, Agnès cria um filme direto, novamente carregado de um realismo que beira o documental e sem juízos de valor.

Essa crueza, mas que de maneira nenhuma se reflete em qualquer tipo de frieza, se tornará como uma marca sempre presente em sua filmografia. Varda tem imensa habilidade em desnudar as nuances dos mais controversos assuntos, escancarando a humanidade e as contradições dos personagens, tornando-os ricos em suas falhas tanto quanto em suas qualidades.

Novamente, a fotografia se destaca, trazendo uma palheta de cores vivas pela qual é impossível se passar com indiferença - exuberância essa que contrasta fortemente com a história desconfortável que conta.


Sans Toit ni Loi (Os Renegados)

1985
Drama, Romance
Direção: Agès Varda
Roteiro: Agnès Varda



Dou agora um salto de 20 anos. Escolhi Os Renegados, vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza, pois é um filme que sintetiza muito do que a cineasta iria trabalhar durante toda a sua vida. Nesse filme, Varda volta o seu olhar para os marginalizados, algo que ela iria repetir em outros longas, e é o grande exemplo de filme em que ela vai esticar até quase romper a linha que separa a ficção do documentário.

O longa conta, em retrospectiva, os últimos dias da vida da andarilha Mona (Sandrine Bonnaire), após seu corpo congelado ter sido encontrado em uma vala. Aqui, mais uma vez, a imparcialidade da câmera e do roteiro fica mais do que evidente, mostrando uma trajetória triste e palpável, "sem teto nem lei", de uma juventude que não encontra seu lugar no mundo.


Les Plages d'Agnès (As Praias de Agnès)

2008
Documentário
Direção: Agès Varda
Roteiro: Agnès Varda e Didier Rouget




Após cerca de 15 anos filmando majoritariamente documentários, As Praias de Agnès é um exemplo dentre aqueles que podemos considerar autobiográficos ou um mergulho para dentro da cineasta.

Já com quase 80 anos, Varda traz um filme absolutamente adorável, em que passeia por diversas paisagens onde situa momentos específicos de sua vida e pincela sobre sua infância, sua carreira, seu casamento, suas amizades, seus gatos.

O documentário é narrado por uma voz feminina (da própria Agnès) e não se prende a um roteiro rígido. Tal qual acontece em uma conversa descontraída e íntima, as histórias vão se interligando e mudando de rumo conforme as situações vão se apresentando nos locais visitados. Um deleite bem humorado, delicado e suave, tal qual a saudosa velhinha.

...

Aproveito para divulgar essa mulher linda que ama a Varda ainda mais do que eu:

Sobre Agnès Varda #1 e #2 (dois ensaios da Michelle B. no Cine Varda).

3.10.19

Blood Bath / The Velvet Vampire

No início dos anos 1960, Stephanie Rothman foi a primeira mulher a receber um prêmio dado anualmente a estudantes de cinema pelo Sindicado dos Diretores da América, o que a levou a ser convidada em 1964 pelo diretor Roger Corman para ser sua assistente. Foi um trabalho que lhe trouxe bastante experiência, tendo sido incentivada por Corman para que pudesse deslanchar em sua carreira.

Ficou mais conhecida por seus filmes de cinema sexualmente apelativo, como The Student Nurses (1970) e Terminal Island (1973), com os quais explorou também questões sócio-políticas e sua visão feminista. Contudo, ela posteriormente viria a afirmar que trabalhar com esse tipo de cinema não era algo que a deixava feliz, mas eram os filmes que lhes eram oferecidos e com os quais ela pôde se manter na ativa (ainda que, infelizmente, por poucos anos).

O meu foco aqui, no entanto, será sobre os dois filmes de terror que ela dirigiu:



Blood Bath

1966
Terror
Direção: Stephanie Rothman e Jack Hill
Roteiro: Stephanie Rothman e Jack Hill




Antônio Sordi (William Campbell) é um artista atormentado por um antepassado que toma conta de seu corpo, transformando-o em um vampiro. Se apaixona por Dorean (Lori Saunders) e tenta protege-la de sua persona monstruosa, enquanto é perseguido pelo marido (Karl Schanzer) e pela irmã (Sandra Knight) de uma de suas vítimas (Marissa Mathes).

Rodado ainda sob a tutela de Roger Corman e com uma pesada mão influente do diretor, além de ter incorporado 9 minutos de cenas retiradas de outro filme (que não foi lançado, mas originou também Portrait in Terror, de 1965),  Blood Bath acabou se tornando praticamente uma colcha de retalhos. Contribuiu para esse resultado, também, o fato de que Hill e Rothman assumiram a produção em momentos diferentes e acabaram por se dedicar, cada um, a partes específicas da obra: ele filmou as cenas mais boêmias e com William Campbell, enquanto ela se responsabilizou pelas sequências vampirescas.

Aliás, o roteiro foi inicialmente escrito por Jack Hill já pensando em aproveitar as cenas de Portrait in Terror, e posteriormente foi alterado por Stephanie Rothman, responsável por acrescentar o vampiro à história. Há um artigo bastante interessante na Wikipédia (em inglês), o qual explica o desenvolvimento da produção do filme até chegar a seu produto final - wiki: Blood Bath.

Trata-se de um filme muito irregular, com cenas galhofa ridículas e outras com uma fotografia linda e/ou de uma sensibilidade impressionante. Em determinados momentos, a sensação de que existe uma mão feminina comandando é muito forte, como por exemplo, na cena do vampiro lutando com a moça na piscina. Além disso, o modo como algumas mulheres são autossuficientes é algo que se destaca dentre os filmes de terror daquela época.

Por fim, queria apontar a presença do então jovem Sid Haig, falecido recentemente, que interpreta o árabe Abdul nesse filme. Sid, anos depois, iria ficar mais conhecido por seu bizarro Capitão Spaulding em A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados Pelo Diabo.


Imagem
The Velvet Vampire

1971
Terror
Direção: Stephanie Rothman
Roteiro: Stephanie Rothman, Charles S. Swartz e Maurice Jules.



Susan (Sherry E. DeBoer) e seu marido Lee Ritter (Michael Blodgett) são convidados pela bela e misteriosa Diane LeFanu (Celeste Yarnall) a visitá-la em sua longínqua casa. O casal prontamente aceita, sem desconfiar de sua natureza monstruosa.

Diferente da maioria dos filmes de vampiro lançados até então, Rothman inverte os papéis comuns de gênero, colocando o vampiro como uma mulher e a vítima como um homem. Assim, apesar de algumas situações questionáveis, reafirmando vários problemas inerentes à época em que foi filmado, o roteiro traz frescor ao tema. O desenvolvimento da personagem Susan, por exemplo, parece irregular em alguns momentos, mas traz ótimas sequências e diálogos quando ela decide reverter sua própria condição dentro do triângulo amoroso que desponta desde o início da trama.

O tratamento diferenciado ao feminino que se vê na tela é resultado de uma direção segura e respeitosa. Demonstrando imensa delicadeza para com seu elenco, Rothman fechava o set para gravar as cenas de nudez e sexo, deixando no local apenas os atores e o câmera, motivo pelo qual ela foi elogiada por Celeste Yarnall.

Visualmente, The Velvet Vampire é belíssimo, o que costuma ecoar muito bem em mim. As sequências oníricas parecem ter sido desenvolvidas de algo presente já em Blood Bath e são bastante interessantes. Mesmo com seus equívocos, é um filme que me agrada e que se mantém vivo no meu imaginário desde que o assisti pela primeira vez, há um ano.

The Velvet Vampire não obteve sucesso comercial quando foi lançado, mas parece ter sido redescoberto nos últimos anos, recebendo a atenção merecida. Hoje nota-se sua influência em diretoras que se aventuram pelo gênero terror, sendo, por exemplo, visivelmente uma das inspirações de Anna Biller em The Love Witch, com todo o seu esplendor setentista.

25.9.19

Midsommar (Midsommar: O Mal Não Espera a Noite)







2019
Terror
Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster







Enquanto tenta se recuperar de um trauma, Dani (Florence Pugh) viaja com seu namorado Christian (Jack Reynor) e seus três colegas Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgrem) até o belíssimo vilarejo onde este último cresceu, na Suécia. Lá, participarão de festejos tradicionais que aos poucos passarão a se mostrar cada vez mais estranhos.

Tenho matutado sobre esse filme desde que eu saí do cinema, tentando descobrir o que de fato penso dele. Uma coisa era certa: eu estava gostando até um pouco mais da metade. Então, parece que eu enjoei. Mas o que de fato aconteceu para me deixar tão dividida?

Vou unir duas coisas: é um filme desnecessariamente longo e extremamente excessivo. Acredito que faltou uma edição mais rigorosa, no sentido de diminuir algumas sequências e cortar cenas gratuitamente chocantes. Somado a isso, parece que também faltou alguém falar no ouvido do Ari Aster "amigo, você não precisa colocar todas as suas ideias no mesmo filme só porque elas são legais ou bonitas". Há muita informação em tela. Muita mesmo. E eu entendo que isso esteja até de acordo com a proposta do filme, mas atinge-se o ponto de ser cansativo. Um pouco mais dosado que fosse, já resolveria o problema.

Apesar dos excessos, ele é indiscutivelmente um filme visualmente arrebatador. De um horror claro, colorido, vistoso e pulsante, que em diversos momentos dialoga com O Homem de Palha, de 1973 (se bem que o tom exagerado de Nicolas Cage na refilmagem O Sacrifício, de 2006, casa bem também). Midsommar é bonito e isso não se pode negar.

Além disso, as atuações são, da mesma forma, inegavelmente muito boas. O filme depende muito do desempenho de Florence Pugh e ela não desaponta. Só tive algum problema em desvincular o personagem do William Jackson Harper do Chidi, da série The Good Place - não por uma má interpretação, mas devido ao fato de os personagens terem certa semelhança entre si e ao fato de eu amar o Chidi (hahaha).

Acho interessante como, ao se analisar o processo pelo qual os personagens vão passando, é possível se pensar no modo como pessoas podem ser cooptadas por uma ideia, por mais absurda que ela seja. Vê-se ao longo da história do mundo, gente com instrução, conhecimento, boas intenções, mas que acaba se envolvendo em uma rede ideológica ou religiosa de forma extrema e cega, muitas vezes por estar passando por um momento de vulnerabilidade. Nesse sentido, faço um paralelo com Vestígios do Dia, de 1993, cujo pano de fundo apresenta um lorde inglês muito respeitado, um homem que poder-se-ia facilmente considerar bom, mas que, ao se envolver com os dramas da Alemanha pós primeira guerra, chega ao ponto de se colocar como defensor de Hitler, inclusive em seu tratamento aos judeus.

SPOILER:
É mais ou menos como eu vejo a trajetória de Dani, uma garota fragilizada pelo trauma familiar recente, que vai se envolvendo aos poucos com algo insidioso. Pois vemos que as tradições do vilarejo desumanizam qualquer pessoa que vem "de fora" e que não esteja de acordo com os padrões desejados por eles. Mesmo dentro de seu núcleo, a falta de apego que inicialmente pode ser tida como vinda de mentes evoluídas, indica, na verdade, algo como uma psicopatia coletiva. E, nesse sentido, seria possível justificar a morte de parte dos personagens dentro da ideia da supremacia racial que se evoca.


No entanto, eu ainda tenho muitas ressalvas com relação aos desfechos que Ari Aster dá a seus personagens não brancos. Porque me soa como a repetição de um padrão altamente indesejável dentro dos filmes de terror, um padrão o qual se vem reivindicando há alguns anos que seja quebrado.

Em contrapartida, uma sequência que gerou muito incômodo e diversas críticas, já próxima ao final do filme, me causou também incômodo, mas no sentido positivo quando se pensa nos objetivos de um filme de terror. É um momento tenso, desconfortável e que causa tamanho estranhamento que pode até nos levar ao riso.

Penso que filmes viscerais desse tipo acabam dependendo muito da subjetividade de cada um. Uma mesma cena pode despertar repulsa, assombro, desdém ou entusiasmo a depender de quem (ou em que momento) a está assistindo. Para se ter uma ideia, na sessão quase vazia em que estive, um senhor riu diversas vezes durante a sequência que mencionei logo acima, mas, ao término do filme, um rapaz atrás dele se levantou e aplaudiu sozinho, com exclamações de que "isso é que é cinema!".

Em suma, Midsommar chegou ao cinema não só para me deixar dividida, mas para dividir muitas opiniões. Racionalmente, posso dizer que ele é visualmente belo, instigante e criativo, porém, longo demais, cansativo e com desagrados na edição e no roteiro. Contudo, em grande parte, o que vai levar as pessoas a amarem-no ou odiarem-no, não poderá ser explicado racionalmente.

...

Atualização:

Sobre a questão racial que eu comentei no meu texto, indico este outro, escrito por alguém com muito mais propriedade do que eu: How Midsommar Utilizes and Subverts Horror Movie Tropes of People of Color.

O texto está em inglês, foi escrito por Mary Kay McBrayer e, depois de lê-lo, passei a gostar um pouco mais do filme. Recomendo muito essa leitura!