11.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 2

Se na primeira parte da minha série de textos dobre Daria Nicolodi falei mais genericamente sobre sua vida e carreira, me atendo pouco aos três dos filmes que roteirizou, hoje escrevo sobre o outro filme pelo qual ela recebeu os créditos de roteirista, sobre sua participação no último filme de Mario Bava e sobre uma das comédias nas quais atuou. 

Assim, nessa segunda parte, pretendo fazer um apanhado da carreira de Nicolodi para além de sua parceria com Dario Argento.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) com cabelo ondulado castanho claro cortado à um pouco acima dos ombros e com franja curta repicada. Veste um vestido branco com babados na gola e nas mangas curtas, usa gargantilha de pérolas e segura uma lanterna. A parede atrás dela está coberta de tecidos rasgados vermelhos, empoeirados e cobertos de teias de aranha.
Paganini Horror


1989
Terror, Musical
Direção: Luigi Cozzi
Roteiro: Daria Nicolodi, Luigi Cozzi e Raimondo Del Balzo (história)




Já enquanto eu o assistia, estava muito claro para mim que Paganini Horror foi escrito por Daria Nicolodi. Sua estrutura e ideia central tem muitas semelhanças com Suspiria (1977). Trata-se de uma banda pop/rock que compra uma música perdida do compositor e violinista Niccolò Paganini - sobre quem recai uma lenda de que haveria feito um pacto com o demônio em troca de fama. Segundo o roteiro, a música adquirida seria justamente aquela que Paganini teria usado para invocar o demônio. A banda, então, decide fazer um clipe na própria casa onde viveu o compositor e onde ele teria feito o suposto pacto. 

Mas onde estão as semelhanças como Suspiria? 

São três: o envolvimento da trama com a arte, em Suspiria era a dança e em Paganini Horror, a música; a tentativa de ambientar a história em uma mansão assustadora; o fato de a trama ser tão simples e básica, que boa parte da história se passa com os personagens andando, procurando, explorando. Se você assiste aos dois filmes, fica evidente que a estrutura narrativa é muito semelhante.

Infelizmente, o fato de ser um roteiro tão simples, acaba deixando a qualidade do filme muito à mercê da execução. Com uma boa direção, ambientação, iluminação e trilha-sonora, temos uma obra prima. Porém, nas mãos de um diretor e equipe de arte não tão competentes, temos um filme medíocre.

E quero reforçar aqui: o enredo básico é sensacional. A ideia de um compositor violinista fantasma perseguindo uma banda de rock em um casarão antigo é algo que poderia ter virado, de fato, um filme inesquecível! Se o cenário fosse bem construído e a ideia da música amaldiçoada se misturasse à trilha-sonora, causando de fato algum impacto na história... Puxa!

Ao contrário, a casa, internamente, é de paredes brancas e portas simples, extremamente comum, e o único tratamento que recebeu em termos de cenografia foi uma imensidão de panos e véus distribuídos por alguns cômodos e um amontoado de manequins espalhados. Não dá medo, não é bonito, não causa impacto. Existe um quarto, inclusive, que possui um tratamento "diferenciado" para trazer a ideia da teoria da relatividade (que foi enxertada de um jeito bem mambembe no roteiro) em que as paredes brancas estão parcialmente cobertas com a fórmula "E=mc²" e há uma ampulheta gigante a um canto, com uma luz vermelha ou azul que vem de "lugar nenhum" - é um dos cenários mais insípidos (e feios) que já vi na minha vida. A música tema é pouco utilizada e não chega nem a ser marcante durante o filme. (Em compensação, o pôster do filme é maravilhoso!)

Sabe o que eu adoraria? Que o Luca Guadagnino tivesse escolhido esse filme para fazer sua refilmagem. Apesar de eu ter gostado do novo Suspiria, o original não precisava ser refeito, ele já era perfeito. Já Paganini Horror, esse sim, merecia ser revisitado, recontado, reinventado.

Além do roteiro, Nicolodi atuou no filme com uma personagem de certo destaque e com bastante tempo de tela, mas nem isso salva o filme, pois a personagem não é trabalhada o suficiente para ser memorável.

Enfim, pensando em tudo isso, acho perfeitamente justificável que Daria Nicolodi tenha afirmado certa vez que Luigi Cozzi roubou Paganini Horror dela¹. 



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) está deitada em uma cama, seu rosto em close e ombros desnudos, os cabelos castanhos claros espalhados no travesseiro branco e cobrindo parte de uma bochecha e o queixo. Seus olhos claros estão abertos e a boca entreaberta mostrando um pouco dos dentes superiores.
Schock

1977
Terror
Direção: Mario Bava e Lamberto Bava
Roteiro: Lamberto Bava, Gianfranco Barberi, Alessandro Parenzo e Dardano Sacchetti


Também conhecido como Beyond the Door II. 

É difícil de ultrapassar a barreira da primeira meia hora. Tudo o que envolve a relação entre a protagonista e seu filho é tão desconfortável que parece ficar nos instigando a abandonar o filme. Apesar da tentação, recomendo que aguente firme. Tudo tende a melhorar (ou a piorar, a depender do ponto de vista). O fato é que o filme parece se encontrar e a fluir como um bom terror deve ser. A última meia hora chega a ser frenética! Mario Bava nos conduz muito bem num clima de tensão e paranoia crescentes. Há algumas cenas e sequências belíssimas, como por exemplo a cena cuja imagem escolhi para ilustrar essa parte do meu texto.

O lado bom é: temos quase 100% de Daria Nicolodi em tela. E ela está incrível no papel de Dora! Chego a temer que ela tenha arranhado as cordas vocais com tantos gritos desesperados, mas sua interpretação angustiada e à beira da loucura é o que faz o filme se manter nos eixos.

Daria também participou, junto com a banda Libra, da composição da trilha-sonora deste filme² - e a música tema é excelente! Esse é o momento em que eu conto para você que no início do ano montei uma playlist no Spotify com músicas de filmes de terror. Dentre elas, muitas de filmes italianos - a maioria da banda Goblin (ou de Claudio Simonetti), com exceção de cinco. A música tema de Schock é uma dessas cinco e, além dessa, duas de Mansão do Inferno (1980), uma de A Rainha Vermelha Mata 7 Vezes (1972) e uma de A Catedral (1989). E onde eu quero chegar com isso? No seguinte: sei de três trilhas-sonoras com as quais Daria Nicolodi alegava ter contribuído e, muito antes de saber disso, essas três trilhas-sonoras já estavam entre as minhas preferidas do terror italiano.

Segundo o Letterboxd, eu havia assistido Schock em 2016. Informação que, para mim, veio a ser um choque, pois eu não lembrava de absolutamente nada sobre isso. Não lembrava da circunstância que me levou a assisti-lo, não me lembrava do nome, não me lembrava de ter a Daria Nicolodi, não me lembrava do pôster (lindíssimo - apesar de ter sido praticamente copiado da capa do livro "Nós Sempre Vivemos no Castelo", de Shirley Jackson). A música eu conhecia porque comecei a ouvir trilhas-sonoras de filmes de horror italiano e fui colocando as minhas preferidas na já mencionada playlist - mas quando ouvi pela primeira vez no início desse ano, ela não me remeteu a nada, era como se estivesse ouvindo pela primeira vez na vida. Pensei comigo "quando sentar para assistir novamente, irei lembrando aos poucos" (como me aconteceu recentemente quando revi A Rainha Vermelha Mata 7 Vezes, sem lembrar inicialmente que já tinha assistido antes). No entanto, aqui estou eu, recém finalizada a seção, e continuo não lembrando de jamais ter assistido Schock antes. Tudo, absolutamente tudo foi uma surpresa para mim. Fica aí, então, o nosso mistério.


Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo castanho preso em um coque e usando óculos, vestida com roupa social vinho, ao lado de um senhor branco (Jack Lemmon) grisalho usando óculos e terno azul marinho. Estão sentados a uma mesa coberta de documentos e conversam com pessoas extracampo.

Maccheroni



1985
Comédia, Drama
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Ettore Scola, Ruggero Maccari e Furio Scarpelli





Das comédias nas quais Daria atuou, talvez esta não seja aquela em que ela tem mais tempo de tela. Apesar de ser a personagem feminina de maior destaque, o filme gira tão enfaticamente no relacionamento entre os personagens de Jack Lemmon e Marcello Mastroianni, que Nicolodi aparece em poucas cenas. 

O filme é engraçado, Jack Lemmon está muito bem no papel, mas Mastroianni se destaca - engraçado e comovente, brilha e faz o filme praticamente acender sempre que entra em cena. Nicolodi, apesar de secundária, faz seu personagem com graça e entrega perto do final uma interpretação embriagadamente deliciosa e sutil - adoro o momento em que ela tenta colocar o copo na mesa de centro, mas a mesa de centro não colabora. 

Nos primeiros minutos de filme, o modo como começam a construir a personalidade do personagem de Lemmon e apresentam o de Mastroianni, temos a impressão de que será uma comédia mais focada em conflitos, como em Antes Só do que Mal Acompanhado (1987), com Steve Martin e John Candy, mas rapidamente essa impressão é descontruída.

Embora haja uma irritante exaltação do "americano" interpretado por Lemmon pelos personagens italianos e o encerramento da história venha para reafirmar essa impressão, o filme, tal qual o personagem de Mastroianni, é espirituoso, divertido e emocionante. Além disso, esse enaltecimento é justificado  pelo contexto do filme e, ademais, é a cultura italiana que é desenvolvida de modo a nos cativar.

Na comédia, além deste, Daria participou de A Propriedade não é mais um Roubo (1973), seu primeiro filme do gênero; Il minestrone (1981), com Roberto Benigni; Viola (1998), com sua filha Asia Argento; e La parola amore esiste (1998), com Gérard Depardieu. Destes, fiquei bastante interessada em assistir aos dois primeiros.

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A parte 3 estará disponível aqui a partir do dia 21/12/2020.



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¹ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
² Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.

3.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 1

Preto e branco. Uma mulher branca de cabelos lisos castanhos e usando franja que se espalha na testa deixando a pele um pouco descoberta. Seu rosto está em close e quase de perfil. Segura algo com a mão esquerda e cheia de anéis - possivelmente é um espelho, para o qual ela olha concentrada. Na mão direita, um lápis de maquiagem.
Daria Nicolodi por Paolo Monti em 1970.
Eu tenho uma lista de mulheres no cinema que me inspiram, mas por algumas tenho um carinho mais especial. Daria Nicolodi, atriz e roteirista, é uma dessas mulheres. Faleceu aos 70 anos, no dia 26 de novembro deste ano. A notícia me pegou no dia seguinte, quando eu estava chegando ao trabalho, e deixou aquele meu dia mais cinza.

Nasceu em Florença, Itália, filha de um advogado e de uma estudiosa de línguas antigas formada em filosofia. Seu avô materno era pianista e compositor. Talvez por essa veia materna, Daria desenvolveu certa afinidade com línguas e música - falava 8 idiomas e participou da composição de algumas trilhas-sonoras dos filmes em que atuou¹. Frequentou a Academia Nacional de Arte Dramática em Roma e iniciou sua carreira pelo teatro antes de estrear no cinema².

Nunca foi muito de dar entrevistas³ e passou a ficar mais reclusa após a morte de sua filha mais velha, Anna, fruto de um breve relacionamento com o escultor Mario Ceroli. Anna faleceu em 1994 em um acidente automobilístico⁴. Ainda assim, mesmo reservada, Nicolodi possuía uma conta no Twitter, onde postava fotos de flores, compartilhava imagens vinculadas às artes plásticas, e conversava com fãs sobre alguns de seus trabalhos.

Descobri Daria Nicolodi em meados de 2012 em um filme que veio a se tornar um dos meus preferidos da vida: Prelúdio Para Matar (1975), o qual já foi mencionado diversas vezes nesse blog. Desde o primeiro momento, essa mulher me cativou sobremaneira e passei a notar sua presença nos gialli que assisti depois, geralmente dirigidos por Dario Argento, com quem manteve um relacionamento amoroso por cerca de 10 anos. 

Mas não foi só sobre os filmes do Dario Argento que Daria construiu sua carreira. O primeiro filme no qual atuou foi um drama de guerra chamado A Vontade de um General (1970). Em seguida, faria parte do elenco do drama Salomé (1972), mas estava ocupada com uma peça de teatro e não pôde participar das filmagens, apesar de seu nome constar nos créditos por um gracejo do diretor Carmelo Bene⁵. 

Ademais, ela fez outros filmes de drama e cinco comédias - o que não me surpreende, haja visto seu timming cômico afiado. Destaco dentre elas Maccheroni (1985), no qual contracenou com Jack Lemmon e Marcello Mastroianni. No terror, também atuou no primeiro longa dirigido por sua filha, Asia Argento, Scarlet Diva (2000) e no último de Mario Bava, Shock (1977). 

Com Dario Argento, a lista é um pouco mais longa. Apesar de o relacionamento ter terminado em 1985, ela continuou atuando em alguns de seus filmes até 2007, quando ele concluiu a terceira parte da trilogia das mães. No total, foram 8 obras de Argento das quais ela participou. E, apesar de raramente receber os créditos, ela não só atuava em seus filmes¹. Nicolodi afirmava que escreveu com Argento os roteiros de Suspiria (1977) e de A Mansão do Inferno (1980), além de ter colaborado com alguns diálogos de Prelúdio Para Matar, participado da composição da trilha-sonora deste último e de Suspiria, e até mesmo da escolha de elenco de Phenomena (1985).

Assim, de modo a abranger um pouco da carreira dela tanto como roteirista quanto como atriz, decidi separar esse especial em três partes. Hoje ainda pincelarei brevemente sobre aqueles dos quais já falei em outras resenhas: Suspiria e A Mansão do Inferno; e sobre o outro por cujo roteiro ela não foi creditada: Il Gatto Nero (1989). Na próxima semana, falarei de alguns filmes que ela estrelou e não possuem vínculo com Dario Argento: Paganini Horror (1989), Shock e Maccheroni. E na última parte, me concentrarei em outros dois do Argento em que ela atuou: Tenebre (1982) e Prelúdio Para Matar.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo castanho liso e com granja cortada reta cobrindo perfeitamente a testa. Ela está de perfil, com seu rosto em close. A iluminação que incide sobre ela é azulada e ao fundo, uma parede vermelha com uma janelinha fina e comprida em estilo art decò e com os vidros deixando passar uma luz azul.Suspiria / A Mansão do Inferno


1977 / 1980
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi 


Daria costumava dizer que a verdadeira autora de Suspiria era a sua avó Yvonne¹. A primeira ideia do filme surgiu após Nicolodi mencionar a Argento sobre a história que sua avó costumava lhe contar quando era criança: Yvonne alegava que teria estudado em uma academia de piano em que as professoras estariam ensinando, além de artes, magia negra². Dario gostou da história e, juntos, trabalharam no roteiro, que também teve como inspiração o ensaio "Suspiria de Profundis" de Thomas De Quincey. Além disso, a sequência final do roteiro foi baseada em um sonho que Daria teria tido quando morava em Los Angeles⁴.

Apesar de ser a parte mais criticada do filme, por ser excessivamente simplório e com alguns "furos", o roteiro é, a bem da verdade, bastante interessante e eu sempre defendi que era o suficiente para obra de arte imortal que Suspiria viria a se tornar. Os diálogos infantilizados, por exemplo, se dão devido ao fato de que originalmente a ideia seria que as estudantes da Academia de Dança fossem crianças de 8 a 10 anos⁶. Mas a mística das Três Mães, a ideia da arte vinculada com a magia, o ar fabulesco, são qualidades que o filme tem e que devem não só à direção precisa de Argento, mas ao próprio roteiro.

E se você acha que a contribuição de Daria se encerra na criação do roteiro, pode se sentar. Ela alega que participou, ainda, da composição da excelente trilha-sonora junto com a banda Goblin!¹ Ademais, apesar de não ter atuado no filme, é dela a voz de Helena Markos, a Mater Suspiriorum (Mãe dos Suspiros)⁶.

Não obstante a participação inegável de Nicolodi no roteiro de Suspiria, foi uma luta para conseguir convencer Dario Argento a lhe dar seus devidos créditos. E foi por não querer passar pela mesma provação que, mesmo o próprio Argento confessando ter trabalhado no roteiro de A Mansão do Inferno a partir de uma história escrita por ela, Nicolodi acabou deixando passar a falta de seu nome nos créditos como roteirista do segundo filme⁷. 

Ainda assim, nos últimos anos, em diversas oportunidades ela fez questão de afirmar sua participação crucial na criação da história de A Mansão do Inferno, argumentando, inclusive, que os dois filmes que ela roteirizou com Dario Argento são incomparáveis em sua carreira e que, até então, os filmes dele eram sempre sobre histórias de detetive¹. Não posso negar que faz sentido. Mas, hei, eu já estava convencida antes mesmo desse argumento, tendo em vista que Dario Argento não tem um bom histórico em se tratando de dar os devidos créditos às pessoas - basta procurar no IMDb o nome de Mario Bava na lista da equipe técnica do próprio A Mansão do Inferno.



Uma sala ampla e escura, com mobiliário antigo coberto de teias de aranha e parca iluminação que mistura o vermelho e o azul. Uma mulher está parada à entrada da sala, em frente a uma enorme porta de metal e vidro. Como parte da luz (azulada) entra pela porta, a mulher se torna quase apenas uma silhueta.
Il gatto nero


1989
Terror, Fantasia, Drama
Direção: Luigi Cozzi
Roteiro: Daria Nicolodi e Luigi Cozzi




Daria Nicolodi escreveu esse roteiro para ser a terceira parte da Trilogia das Mães, mas o produtor não estava interessado e Dario Argento decidiu focar em seu próximo filme, Tenebre⁸. Bobo ele, pois absolutamente qualquer coisa teria sido uma ideia melhor do que o que veio de fato a se tornar o último filme da trilogia (sem a participação da Daria no roteiro, diga-se de passagem). 

Nicolodi, alguns anos depois, entregou o roteiro a Luigi Cozzi, na esperança de que este resolvesse dirigí-lo. Contudo, Cozzi fez alterações no roteiro para transformá-lo mais em uma homenagem aos dois primeiros filmes, ao invés de uma sequência. Quando Daria viu o resultado, decidiu abandonar o projeto⁸. Certa ela, pois a colcha de retalhos que Il gatto nero (também conhecido como Demon 6: De Profundis) virou, chega a dar vergonha.

Uma das únicas coisas interessantes no filme é o uso de metalinguagem, que chega a lembrar um pouco O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (1994). No entanto, para além das modificações de Cozzi no roteiro, como o CEO da distribuidora havia decidido por conta própria vender o filme como uma obra baseada em um conto de Edgar Alan Poe, uma das soluções "brilhantemente" escolhidas foi inserir cenas de gatos pretos em uma história que nada tinha a ver com o conto. 

Tudo no filme é tão mal realizado, que beira o ridículo. Os cenários não trazem nenhuma originalidade, a inserção da trilha-sonora nas cenas é abrupta e totalmente destoante, a maquiagem da bruxa Levana é muito muito muito ruim. Cozzi tenta, ainda, emular a iluminação chapada e colorida de Argento, mas o resultado é um fiasco, com luzes oscilantes e pulsantes que não compõem uma ambiência assustadora ou onírica, apenas incomodam (e não do jeito que um filme de terror gostaria de incomodar).

Provavelmente, com a direção de Argento e a ideia original de Nicolodi, este teria se tornado um ótimo encerramento para a trilogia das mães: melhor que O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas e muito melhor que Il gatto nero. Infelizmente, nunca saberemos.

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A parte 2 estará disponível aqui a partir do dia 11/12/2020.



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¹ Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.
³ FOTI, Titti Giuliani. Daria Nicolodi: "La mia svolta? Fare la nonna". LA NAZIONE, Firenze, 21 set. 2014
⁴ Daria Nicolodi. In: Wikipedia : L'enciclopedia libera.
⁵ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
⁶ Suspiria (1977): Trivia. In: IMDb.
⁸ The Black Cat (1989)Trivia. In: IMDb.

2.12.20

Daria Nicolodi - Twitter

Algumas das informações do meu texto sobre Daria Nicolodi foram retiradas da conta dela do Twitter: @NicolodiDaria. Como trata-se de algo instável, visto que esta conta pode sair do ar por inúmeros motivos, resolvi juntar aqui alguns dos tuítes que usei como fonte, de modo que as informações não se percam. Junto, vou deixar links para cada um deles.

- Sobre Daria ter participado da escolha do elenco de Phenomena:

Yuri Di Genova (@YuriDiGenova), em 11/07/2014: "Jennifer Connelly è stata chiamata da Dario Argento per interpretare Phenomena?" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 11/07/2014: "Fiz o casting em NYC tive carta branca do Dario, foi difícil convencer genit minor." (Traduzido do italiano por Google).
Link 01.

- Daria falava muito sobre ter escrito Mansão do Inferno, além de Suspiria:

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 10/01/2018: "Gostaria de escrever para amigos que curtam aqui no Tw. Suspiria e Inferno, os dois filmes que escrevi para Argento, mas não tenho tempo. Desculpe e Thnx." (Traduzido do inglês por Google).
Link 02.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 01/09/2018: "Na minha opinião, quem o concebeu imaginou e escreveu mais :)" (Traduzido do italiano por Google) // angela rita iolli (@angelaritaiolli), em 01/09/2018: "Ma anche chi l'ha scritto ha fatto un capolavoro ☺ proprio un'immaginazione e un'idea fantastiche. Proprio brava Lei Signora Nicolodi" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 01/09/2018: "Obrigado.  Suspiria e Inferno  os dois filmes "fantásticos" que escrevi para Argento,  na época, diretor de histórias de detetive, acho que são tão bonitos quanto o Frankenstein de Mary Shelley e que só uma mulher poderia concebê-los." (Traduzido do italiano por Google)
Link 03.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 24/03/2018: "Eu imaginei e escrevi Suspiria e Inferno para Mr.Argento.  Acho que os dois filmes são peculiares em sua cinematografia." (Traduzido do inglês por Google).
Link 04.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 04/11/2019: "Muito obrigado, Jeanette.  Espero que você veja Suspiria.It foi imaginado e escrito por mim.Inferno também.  O título foi inspirado no livro de De Quincey, a história de um conto narrado para mim por minha avó Yvonne." (Traduzido do inglês por Google).
Link 05.

Andrew Hawkins (@mrandrewhawkins), em 16/05: "Brilliant film and one of my favorite movies written by  @NicolodiDaria  too!" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 16/05: "Thank you,Andrew. Writing Suspiria and Inferno for Dario Argento,collaborating to each single scene,from every point of view, was quite an...experience. I wonder I'm alive"
Link 06.

Timothy J Walker (@TimWalker25), em 22/12/2018: "Darla is simply one of the most gloriously beautiful women of all time!" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 22/12/2018: "Oh Tim .My Grandma Yvonne,the real author of Suspiria and Inferno used to say : "Se non e'vero,e'ben trovato!".Thank you very much,Tim ❣." (Traduzido do inglês por Google).
Link 07.

- Sobre Daria ter participado da composição das músicas de Suspiria, Shock e Prelúdio para Matar:

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 10/02/2019: "Sou o responsável e criador com o Goblin da música do Profondo Rosso e Suspiria e com I Libra da música do Shock.Il O resto não me responsabilizo, lamento não lhe dar satisfação. Obrigado, Giorgio 🎶" (Traduzido do italiano por Google).
Link 08.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 26/09/2018: "Torino, 1974, Profondo Rosso  com meus dois D. favoritos.  Pela musica voce pode me agradecer Buonanotte.La terceiro D" (Traduzido do italiano por Google). Foto em preto e branco de Dario Argento, Daria Nicolodi e David Hemmings.
Link 09.

"Este tweet pertence a uma conta suspensa." // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 21/10/2019: "Verdade. A música de Deep Red e o roteiro de Inferno também. Obrigado por lembrar 🖤" (Traduzido do inglês por Google).
Link 10.


- Sobre Daria ter escrito alguns diálogos de Prelúdio para Matar:

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 24/12/2017: "Posso te contar uma coisa?  Reescrevi muitos diálogos com Zapponi.  Eu inventei a música do Profondo Rosso! O que posso dizer ... Divirta-se!" (Traduzido do italiano por Google) // Walter Romanò (@whitesnake66), em 24/12/2017: "ma...una domanda,e...Giorgio Gaslini???" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 24/12/2017: "O mestre Gaslini obviamente melhor do que Simonetti Jr. afixou sua assinatura em alguns momentos musicais que você pode reconhecer.  obrigado ;)" (Traduzido do italiano por Google)
Link 11.


- Sobre Daria falar 8 línguas:

gianluca ellena (@gianlucaellena1), em 27/09/2018: "D.Argento immagino all'epoca già parlasse inglese. Riusciate a capirvi in scena con David? In fondo lui era io protagonista e il regista avrà dovuto dirgli tante cose..." // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 27/09/2018: "Eu falo oito idiomas.  O Dario fala de francês e inglês, muitas vezes atuei como tradutor, se é isso que ele estava perguntando, então nos sets italianos com atores estrangeiros sempre há um diálogo coach.In Deep Red Sr. Neil Robinson" (Traduzido do italiano por Google).
Link 12.



25.11.20

O Que Ficou Para Trás (His House)

Um homem (Sope Dirisu) e uma mulher (Wunmi Mosaku), ambos negros, sentados no chão sobre um tapete vermelho, frente à frente, em um ambiente cujas paredes estão descascadas e remendadas. Ele tem cabelo preto muito curto e ela usa seu cabelo preto em um penteado que o deixa preso em ondas rente à cabeça. Entre eles, uma toalha clara de mesa estendida ao chão e um jantar e velas espalhados sobre ela. Os dois estendem o braço ao centro da toalha para se servirem de comida. Por causa da iluminação e do cenário, a cena tem uma tonalidade predominantemente alaranjada.

 

2020
Terror, Drama, Suspense
Direção: Remi Weekes
Roteiro: Remi Weekes, Felicity Evans e Toby Venables
 




Bol Majur (Sope Dirisu) e Rial Majur (Wunmi Mosaku) acabam de chegar à Inglaterra após fugir de uma guerra no Sudão do Sul e perder a pequena Nyagak (Malaika Wakoli-Abigaba) durante a travessia. O casal irá enfrentar, além das dificuldades para se adaptar no novo país e relativas ao luto, a perseguição de uma entidade que os acompanhou: O Bruxo (Javier Botet).

Assisti a O Que Ficou Para Trás já ansiosa e cheia de expectativas, após ter ouvido uma série de elogios espalhados sobre ele. Trata-se do longa de estreia de Remi Weekes, de modo que impressiona a habilidade do diretor em construir momentos de absoluta tensão recheados de ápices assustadores. 

O filme mantém-se na tendência da última década, de retomada do terror psicológico que pontuou o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, de calcar-se em situações reais entremeadas por algo sobrenatural - de modo que o sobrenatural costuma vir com uma carga metafórica que reforça e/ou amplia o sentido do horror já criado pela situação real posta. Vemos isso claramente em O Bebê de Rosemary (1968) e Inverno de Sangue em Veneza (1973), bem como em O Babadook (2014), Corra (2017) e Relic (2020), por exemplo.

No entanto, Remi dá um passo adiante, simultaneamente recuperando o susto como instrumento dentro do terror, o qual estava bastante desgastado após sua utilização ter sido esvaziada de sentido ao longo da história do gênero. Não é exagero quando digo que já há muito tempo não me deparo com um lançamento cinematográfico que tenha me atormentado com uma quantidade tão grande de sustos. E o grande pulo do gato é, digamos, a ausência de um pulo do gato. Trocadilhos à parte, o trunfo de Weekes é conseguir ancorar todos os sustos com absoluto sentido dentro de cada cena. Não há sequer um susto vazio, nenhum uso do clichê "era apenas um gato". 

Assim, o filme traz um casal atormentado por uma entidade sobrenatural, pelo luto e pela culpa, de modo que esses três elementos se fundem para criar uma atmosfera de deslocamento e desespero, permeada por momentos indiscutivelmente aterradores. Para além disso, os dois se encontram agora inseridos em uma nova cultura, enfrentando preconceito, humilhações e tendo que lidar com sentimentos conflitantes de gratidão e raiva. Rial e Bol estão sozinhos em um lugar hostil, que os recebe a contragosto e exige uma subserviência à qual é muito difícil de se submeter. Estão sozinhos e têm apenas o apoio mútuo ao qual recorrer. No entanto, quanto mais problemas surgem, mais eles se distanciam um do outro, ampliando cada vez mais a sensação de desolamento e desesperança. 

A ambientação é muito bem construída, de modo a reforçar as sensações desejadas. Quando Bol resolve explorar a cidade pela primeira vez, seu estado de espírito se traduz tanto nas locações quanto nas relações com os figurantes. Já Rial encontra uma cidade completamente diversa: labiríntica, ameaçadora. A própria casa onde moram vai se modificando com as ações dos protagonistas, ajudando a estabelecer um cenário que espelha a saúde mental dos mesmos. Por fim, ainda no quesito ambientação, a edição de som e trilha-sonora, em específico nas sequências mais calcadas no terror explícito, fazem um trabalho excelente no sentido de aumentar exponencialmente a nossa inquietação e medo puro. 

Além disso, mesmo se passando na Inglaterra, o longa nos coloca em contato com uma cultura menos eurocentrada, por meio do figurino, linguagem e das cenas que se passam no Sudão do Sul (sejam reais, lembradas ou imaginadas). E até mesmo a figura do bruxo, com sua história e caracterização, nos coloca em contato com novas crenças.

O filme conta com atuações primorosas da dupla de protagonistas e com a certeira participação de Matt Smith. Sope Dirisu entrega uma atuação inicialmente carismática - carisma esse que passa a ser de extrema importância conforme a trama se desenrola - e obsessiva, enquanto Wunmi Mosaku (que faz parte do elenco da muito comentada série Lovecraft Country, lançada neste ano) traz sensibilidade entremeada com dureza, também imprescindíveis para compor sua personagem.

E é por tudo isso que Remi Weekes entra para a minha lista de grandes promessas do cinema contemporâneo. Vamos ficar atentos! Afinal, diante de tantas qualidades, não há dúvidas de que recomento O Que Ficou Para Trás com louvor!