12.3.21

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights)

Uma menina branca e um menino negro brincam em uma paisagem aberta e enlameada, de terra muito escura. A menina está deitada com as costas na lama, sobre ela, sentado em seu peito, está o menino que segura seus braços no chão e olha fixamente para seu rosto. O céu está encoberto por nuvens e ao redor deles paira uma névoa branca. A cena é acinzentada quase parecendo em preto e branco. 

 

2011
Romance, Drama
Direção: Andrea Arnold
Roteiro: Andrea Arnold e Olivia Hetreed
 







Heathcliff (Solomon Glave / James Howson) é resgatado das ruas para viver com a família Earnshaw em sua fazenda, onde é hostilizado por Hindley (Lee Shaw) e acolhido por Cathy (Shannon Beer / Kaya Scodelario). Em meio ao preconceito que já sofria por causa de sua cor, as relações com essas duas pessoas irão moldar seu caráter e canalizar seus mais implacáveis sentimentos, desde o funesto amor obsessivo ao ódio rancoroso. 

Nessa adaptação do romance homônimo de Emily Brontë, Andrea Arnold acerta em diversos aspectos. Pensando no quesito adaptação, o grande acerto está na escolha do foco da narrativa. Enquanto a obra literária perpassa a história de duas gerações, de modo que envolve diversos acontecimentos e personagens, a escolha de se estabelecer Heathcliff como fio condutor do filme resolve um leque de dificuldades. Essa simples decisão, praticamente seleciona automaticamente tudo o que será contado no roteiro. Descarta-se, assim, todo o trecho do livro em que Heathcliff não está presente, bem como tudo o que não o envolve diretamente. 

Além disso, a escolha do modo como é filmado não é apenas uma decisão estética que combina com o estilo da diretora, mas também uma maneira muito eficiente de transpor para a tela a sensação de incômodo que se tem ao ler o livro. Uma das características mais marcantes do romance é o fato de a maioria dos personagens serem pessoas detestáveis, o que torna a leitura em parte muito incômoda. Ainda assim, Emily Brontë desenvolve-os o suficiente para que consigamos compreender como eles se tornaram essas pessoas tão falhas. No entanto, torna-se bastante difícil transpor todos os conflitos para uma história de duas horas - há momentos que seriam inclusive visualmente pesados demais - e ainda estabelecer algum tipo de empatia por esses personagens. Assim, Arnold acaba por amenizar um pouco o aspecto grotesco daquelas personalidades, optando por desenvolver ao máximo a construção de cada uma, principalmente de Heathcliff. Por isso, o modo cru como ela filma, ajuda a nos colocar em contato com sensações semelhantes àquelas que encontramos ao ler o romance. 

E não só isso. A "câmera na mão", com sua irregularidade e seus excessivos planos detalhe, tornam o filme uma experiência sensorial que traduz também com muita sensibilidade e beleza todo o sentimento conflituoso e angustiante do protagonista. Existem sequências de uma beleza singular, como o momento em que Heathcliff e Cathy saem para passear a cavalo pela primeira vez, estando ele na garupa. A câmera se comporta como um filtro do fascínio que o menino sente pela melhor amiga, evidenciando como ele está embebido em cada detalhe físico dela (cabelo, olhos, boca), mas também com o momento de intimidade e liberdade (o vento, o céu, o movimento do cavalo). É lindo!

Ainda, é preciso elogiar a direção de arte e os efeitos sonoros. A fazenda rústica, a sujeira, a névoa e aqueles meninos sempre enlameados - a quase ausência de trilha-sonora, mas o uso eficiente do silêncio e dos sons diegéticos . Sem precisar explicar muito e com poucos diálogos, apenas apresentando-nos algumas passagens da vida naquele lugar, com aquela gente, é possível entender quem são aquelas crianças, qual o nível de envolvimento entre elas e como elas se tornaram os adultos que vemos na segunda metade do longa. 

Agora, destaco o elenco juvenil. Solomon Glave e Shannon Beer estão excelentes em seus papéis, ressaltando a languidez de Solomon e a vitalidade de Shannon. Com relação à versão adulta de Heathcliff e Cathy, eu não tenho necessariamente um problema com as atuações. James Howson está bem, mas talvez eu tenha sentido falta de uma raiva mais latente em sua interpretação. Kaya Scodelario está muito bem, mas fisicamente ela é tão diferente de Shannon que no início eu senti dificuldade de comprar que ainda era a mesma pessoa - ainda mais porque temos pouco tempo de desenvolvimento da personalidade "adestrada" de Cathy antes de ela virar aquela mulher fina e educada.

Aproveito para apontar aqui a escolha acertada, ao meu ver, dos dois atores para interpretar Heathcliff. No livro, trata-se de um cigano com a pele mais escura, mas não fica explícito seu fenótipo, sua origem - o que fica evidente é que o personagem não é branco e, ao longo da trama, sofre com racismo e hostilidade. Desse modo, o Heathcliff negro está provavelmente muito mais próximo do que imaginava Emily Brontë ao escrever seu livro, do que qualquer ator que já o tenha interpretado em adaptações anteriores.

Contudo, todas essas características vistas por mim como grandes triunfos da diretora, podem facilmente ser encaradas como equívocos por muitas pessoas, pois tornam a recepção ao filme muito dependente de o espectador estar aberto para uma experiência diferente, mais intimista, naturalista e sensorial. De todo modo, torço para que mais e mais pessoas se abram e deixem-se levar pelo olhar de Andrea Arnold.

12.2.21

Cemitério Maldito (Pet Sematary)

Um garotinho bem pequeno, loiro e muito pálido, vestido em veludo azul marinho, se apoia em uma bengala de madeira e usa cartola cinza. Está olhando para a câmera, parado em um quarto. Do seu lado esquerdo há uma cômoda, ao lado direito uma cama, no chão de madeira há alguns tapetes antigos decorados, as paredes parecem ser decoradas e ao fundo cortinas cobrem parcialmente as janelas. 


1989
Terror
Direção: Mary Lambert
Roteiro: Stephen King
 






Louis (Dale Midkiff) muda-se de cidade com sua esposa Rachel (Denise Crosby) e seus filhos Ellie (Blaze Berdahl) e Gage (Miko Hughes) após conseguir um emprego como médico. A nova casa da família está localizada muito próxima a uma rodovia de tráfego intenso de caminhões e, por causa disso, perto dali, há um cemitério de animais - em sua maioria mortos por atropelamento. Quando o gato da família é também atropelado, o vizinho Jud (Fred Gwynne) apresenta a Louis um segundo e mais distante cemitério, onde existe um tentador e perigoso poder.

Mary Lambert tem uma longa carreira, muito dela calcada em curtas-metragens, produções para a televisão e filmes que saíram direto para vídeo, dentre os quais alguns dentro da temática horror. Em termos de cinema, além de Cemitério Maldito (1 e 2), ela dirigiu apenas outros três filmes de temáticas bem variadas, os quais não receberam muita atenção. Após um hiato de 20 anos longe do cinema, ela está atualmente filmando A Castle for Christmas, um romance que terá Brooke Shields como protagonista.

Apesar do pouco destaque que sua carreira teve no cinema, pode-se dizer que sua primeira experiência já a imortalizou. Cemitério Maldito se tornou um dos grandes clássicos cult do terror, sempre lembrado com muito carinho por quem o assistiu mais ou menos à época em que foi lançado. Meu primeiro contato com o filme foi alguns anos depois, por volta de 2000, mas há cenas dele que ficaram gravadas em minha memória, apesar dos muitos anos que se passaram até que eu o revisse, algumas semanas atrás.

Devo admitir que muita coisa hoje me deixou com um gosto amargo na boca. Coisas que eu provavelmente sequer havia notado no passado - praticamente todas relacionadas ao roteiro, mesmo que este tenha sido escrito pelo próprio Stephen King, autor do livro "O Cemitério" no qual o filme foi baseado. 

Em primeiro lugar, a ideia do cemitério indígena ser esse local tão amaldiçoado, presente em outras histórias do King e que acabou se espalhando pelo imaginário do gênero terror como um todo, é uma abordagem, no mínimo, controversa. Não há qualquer tipo de explicação, o que seria um ponto a favor (costumo considerar uma qualidade quando algumas coisas são deixadas no ar), mas, nesse caso, a falta de explicação acaba criando ou reforçando uma ideia de que a(s) cultura(s) dos povos indígenas possui algo de profano ou ruim.

Outro ponto que me incomoda bastante, é toda a questão que envolve o passado de Rachel com sua irmã Zelda (Andrew Hubatsek). O modo como a doença dela é retratada para ser algo assustador, dando enfoque às deformações em seu corpo, hoje já não deve mais ser algo aceitável. É uma visão que marginaliza e reforça ainda mais o preconceito com os corpos diferentes do que se considera "padrão". Como não li o livro, não sei se isso foi melhor trabalhado e desenvolvido, de modo a talvez deixar mais relacionado o problema com a falta de cuidado dos pais de Rachel, salientando que o erro está no abandono e na vergonha que eles sentiam da filha, e não na doença dela em si. No entanto, da maneira como foi colocada no filme, a história de Zelda acaba reforçando o problema, em vez de apontá-lo.

Me aborrece, ainda, o modo como Rachel é retratada como alguém frágil que está a ponto de ter um ataque de nervos a qualquer momento. O filme se redime temporariamente, pois, conforme se aproxima o final, ela adquire uma força de caráter surpreendente e se torna a parte mais equilibrada dentro do casal - o que infelizmente é desperdiçado no momento derradeiro.

Finalmente, acho incoerente a história que Jud conta a Louis, sobre o caso do morto enterrado no cemitério indígena. Afinal, se houve um monstro à solta na cidade, provavelmente teria sido mais sensato invadir a casa que o abrigava para matá-lo (era um grupo grande de pessoas contra um morto-vivo!), do que simplesmente tocar fogo no local com uma pessoa viva lá dentro. Porém, esse não vejo como um problema tão grande. A questão está apenas no modo como a história foi desenvolvida, pois a sucessão de ações é contada de forma tão resumida, que deveria ter sido dedicado um pouquinho mais de tempo de filme para trabalhar as motivações e decisões dos personagens.

Agora, chega de falar mal. Pois eu ainda gosto muito do Cemitério Maldito!

Vou começar exaltando o pequeno Miko Hughes, que vive o adorável/assustador Gabe. Esse menino é, possivelmente, uma das crianças mais fofinhas da história do cinema. Ele tinha DOIS ANOS E MEIO durante as filmagens e atuava com uma naturalidade impressionante. Eu não estou de brincadeira, ele é muito muito muito bonitinho. E quando ele vira um monstrinho, ele é um monstrinho assustador e ainda muito muito muito bonitinho. 

Aproveitando o embalo, eu sei que disse que não ia mais falar mal, mas só vou dizer brevemente que foi difícil aturar o tanto que o Dale Midkiff é um péssimo ator. Contudo, o resto do elenco é bastante satisfatório. Destaque para Brad Greenquist, que interpreta um fantasminha camarada muito do simpático! Aliás, esse fantasma destoa bastante dentro do filme, parecendo fora do lugar - a sua presença deixa o filme irregular, pois ele acaba sendo um alívio cômico um pouco dissonante. Contudo, ainda foi um dos personagens de quem mais gostei, para além do agradável, e meio sem noção, senhor Jud. 

Outra coisa que parece meio fora de lugar, mas que igualmente me atrai, é o quadro da casa dos pais de Rachel. Desde que apareceu pela primeira vez, fiquei hipnotizada pelo rosto retratado, que fica algo entre uma criança e uma mulher de meia idade. Tão hipnotizada eu fiquei pelo rosto, que só percebi que era de fato uma criança, e que ela estava usando exatamente as mesmas roupas com as quais Gabe aparece enquanto morto-vivo, quando eu fui descrever as imagens para colocar aqui nesse texto! De qualquer modo, é um quadro intrigante e que contribui para a ambientação e o clima de estranhamento do filme, dando ares de que há uma força maior movendo os personagens ou de que há algo predestinado.

Uma moça de cabelo curto loiro está ao telefone. Atrás dela, sobre uma parede revestida em madeira, um grande quadro que representa uma pessoa pequena (parece uma criança, mas o rosto tem algo de adulto), usando roupa de veludo azul marinho e cartola cinza, segura um chicote e a seus pés um gato cinza (com rosto que lembra feições humanas).

A maquiagem e os efeitos práticos são muito bem feitos, apesar de os demais efeitos especiais terem ficado um pouco datados - ainda bem que são inserções muito pontuais, de modo que não chega a atrapalhar. A direção de arte é também muito boa, criando cenários diversos, críveis e, quando necessário, desagradáveis. Volto a mencionar o quadro como exemplo de recurso para nos deixar sempre com a sensação de que há alguma coisa de muito errada prestes a acontecer.

A tensão em algumas cenas também é muito bem construída. A fatídica sequência do atropelamento é muito angustiante e mesmo nessa revisão tive dificuldade em assisti-la. Muito também por causa da atenção dada a Gabe em cenas anteriores, extraindo o máximo do carisma natural do ator mirim. Eu poderia dizer que o tempo dedicado ao desenvolvimento da nossa relação com os personagens é parte importante do roteiro, mas a personalidade de Rachel e a atuação sofrível de Dale atrapalham um pouco. Ainda assim, as cenas finais são muito boas e todos os momentos com Church (o gato), são excelentes.

Antes de finalizar, queria comentar brevemente sobre a refilmagem de 2019, dirigida por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer. Talvez por não estar esperando por muita coisa, foi um filme que me surpreendeu bastante. Eles acertam em vários quesitos: as atuações que neste são bem melhores (e eles tentam emular o Miko Hughes, utilizando um garotinho idêntico a ele, mas não tão carismático quanto), ter subvertido algumas situações do roteiro para criar algumas surpresas, ter retirado partes da história que estavam sobrando na narrativa do original e ter contextualizado melhor o tópico do cemitério indígena. Contudo, a problemática com a irmã continua me incomodando e ainda tem alguns outras questões pontuais sobre os quais prefiro me abster aqui senão eu teria que fazer outro texto só sobre ele. Além disso, a atmosfera do filme não me envolveu tanto quanto a do original com seu jeitinho kitsch de ser - o que, para mim, conta bastante.

Assim, Cemitério Maldito, mesmo com seus defeitos, ainda possui uma gama de qualidades que são capazes de mantê-lo em seu patamar de clássico do terror. Além disso, de qualquer maneira, mesmo hoje percebendo como problemáticos, o cemitério indígena e Zelda fazem parte do conjunto de elementos que acabaram por tonar o filme tão marcante na memórias das pessoas. É por isso que ainda pretendo me debruçar sobre os outros filmes de terror da carreira de Mary Lambert, ainda que sejam produções pequenas, lançados direto em vídeo.




15.1.21

A Sombra do Pai

Uma menina de cabelo longo, castanho escuro e ondulado, está enfeitada para Festa Junina (cílios inferiores desenhados sob os olhos e flor de pano de lado no cabelo). Ela está em segundo plano, aparecendo apenas seu rosto. Em primeiro plano, os objetos se concentram à direita e estão muito desfocados. A menina está emburrada, espremendo a boquinha.




2018
Terror, Drama
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida






Dalva (Nina Medeiros) perdeu a mãe quando bem pequena e agora mora com o pai, Jorge (Julio Machado), e a tia, Cristina (Luciana Paes). Mas Cristina está prestes a se mudar, deixando a menina sob a responsabilidade de um pai cada vez mais adoecido, de corpo e alma.

Gabriela Amaral Almeida vem se firmando como uma das melhores diretoras de sua geração (nacional e internacionalmente, homem ou mulher), mesmo focando em cinema de gênero - e um gênero que ainda sofre muito preconceito, como o terror. Seu primeiro longa, Animal Cordial (2017),  está entre os 10 filmes que eu mais gostei daquele ano. Também assisti aos curtas Uma Primavera (2011) e A Mão que Afaga (2012), ambos maravilhosos e que você encontra com facilidade nas interwebs da vida - procurem, cada um não tem mais do que 20 minutos. 

Então, você pode imaginar que eu tinha bastante expectativa com relação a A Sombra do Pai. E que filme incrível! Seja você fã ou não de terror, esse é um daqueles filmes praticamente obrigatórios. Entrou imediatamente no meu "top 5" de 2018, com folga!

Seguindo o mesmo fluxo criativo ao qual pertencem outros filmes desta década como O Babadook (2014), Hereditário (2018) e, posteriormente, Relic (2020), em A Sombra do Pai, Gabriela vai tratar o terror dentro das relações, tradições e dramas familiares. 

Utilizando de um esmero impressionante na produção, o cenário, a direção de arte e o figurino (em particular de Dalva e Jorge) são elaborados para compor e dar substância a essas relações e aos dramas dos personagens. Em entrevistas concedidas aos podcasts "Cinematório Café" e "Feito por Elas", a diretora explica algumas dessas situações. Dalva, por exemplo, usa roupas pequenas demais ou que parecem ter sido herdadas de outras crianças, indicando um descuido ou falta de atenção da parte do pai. A casa é filmada de modo a tornar sua planta confusa, não podendo-se identificar com segurança como se entra ou como exatamente seus cômodos estão interligados, possui poucos móveis e praticamente não possui objetos decorativos. A casa espelha seus moradores e também nos passa a sensação de incômodo, tristeza e apreensão.

A seleção do elenco é também algo que impressiona. Nina Medeiros é tão parecida com Luciana Paes que podemos facilmente acreditar em um parentesco real entre elas. Além disso, as atuações de ambas são absolutamente perfeitas. Nina com seus olhos expressivos, sua melancolia e força absolutamente equilibrados e Luciana sendo quem incute na menina suas crenças populares e, ao mesmo tempo, sendo o respiro de sanidade e praticidade daquela família. Para fechar o trio, Julio Machado passa tão bem o estado depressivo e mentalmente caótico em que se encontra, que chega a preocupar. Por meio desses personagens, o longa evidencia as falhas sociais enraizadas na nossa cultura. A falta que a figura feminina faz na família, pois nela recai toda a responsabilidade relacionados à morada e moradores. O que o machismo acarreta para os próprios homens, tornando-os incapazes de conseguir lidar com seus sentimentos e relações afetivas.

O que me chama a atenção e me agrada muito nesse filme são os paralelos e homenagens que a cineasta faz a grandes clássicos do terror, como A Noite dos Mortos Vivos (1968) e Cemitério Maldito (1989), que tratam do retorno dos mortos. Dalva, assim como nos filmes que assiste, não só deseja que a mãe retorne da morte para ficar com ela, como passa a acreditar que seu pai está se tornando um morto-vivo. Crenças e desejos que, para a menina, passam a se tornar a sua realidade.

Também destaco o modo como o filme transita com facilidade entre as referências do cinema de horror internacional e as referências essencialmente brasileiras. Somos apresentados a simpatias, crenças populares que mesclam elementos de diferentes religiões e tradições populares, como a festa junina. Nisso, acabo me lembrando imediatamente de outro excelente filme brasileiro, As Boas Maneiras (2017).

A Sombra do Pai é um filme lento e que talvez desagrade algum desavisado que procura algo cheio de altos e baixos, sustos, sangue e um clímax apoteótico. Ainda que o filme trate de temas pesados, remetendo a um terror mais gráfico como o dos filmes que ele mesmo cita, Gabriela constrói algo mais calcado numa ambientação opressora, e num terror mais psicológico e, quando o grafismo entra em cena, é utilizado de forma quase poética. 

21.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 3

Chegamos, então, ao final desse especial dedicado a Daria Nicolodi. Caso tenha perdido, comece pela primeira parte, na qual eu escrevo sobre sua vida e carreira, depois siga para a parte 2, em que meu foco está em seu trabalho longe de Dario Argento. 

A intenção dessa série de textos sobre Daria Nicolodi, para além de fazer uma homenagem à artista, foi também trazer à luz um problema que as mulheres vinham (e continuam) enfrentando dentro da indústria cinematográfica: o apagamento, o descrédito. Nicolodi, além de atriz, contribuiu de diversas formas para os filmes dos quais participou, mas o pouco crédito que recebeu não veio sem muita insistência e luta. Não à toa sua filha Asia teria dito que ela a ensinou a "chutar as bolas"¹. Daria parecia não ter um gosto especial por brigar e lutar, mas ela foi levada a isso para não ter seu nome apagado em questões que para ela eram importantes. Ela sabia que dentro de uma indústria comandada por homens e para homens, uma mulher não seria facilmente ouvida ou levada à sério.

Daria Nicolodi é exemplo de resiliência, mas também de força de vontade e firmeza. Definitivamente, uma mulher incrível.

Assim, como não poderia ser diferente, hoje finalizo me dedicando a dois dos meus filmes preferidos estrelado por Nicolodi, ambos em parceria com seu então companheiro, Dario Argento.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi), com os cabelos longos molhados, está gritando com as mãos apertando as laterais da cabeça. Está enquadrada do peito para cima, vestindo uma camisa bege de manga longa, parada dentro de um cômodo e em frente a uma porta ou janela branca aberta. Do lado de fora há um jardim e chove abundantemente.
Tenebre



1982
Giallo, Terror, Mistério, Suspense
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento





Os anos passam e nossa percepção muda.

Assisti Tenebre pela primeira vez em 2012 e, de acordo com minha lembrança, era um filme do qual eu havia gostado muito. Não me lembrava, no entanto, que havia tanta coisa para não se gostar nele. É interessante porque hoje eu acho esse filme ainda melhor do que antes, e, mesmo assim, passei a gostar menos dele.

Vou começar com os problemas. Talvez o que mais me incomoda no filme é a consciência de ser sexista e ainda debochar disso. Em seu primeiro terço, a impressão que tenho é que Argento se dedicou a criar situações misóginas que chegam a destoar do que ele próprio vinha fazendo em sua carreira, em uma reação exagerada e infantil às criticas que o cinema italiano de horror, e por consequência ele mesmo, vinha recebendo. É só notar o contraste do que estou escrevendo aqui com o que você lerá abaixo sobre o próximo filme. 

E ele não se limita ao visível ataque às mulheres. A coisa fica ainda mais pesada quando a sexualidade dessas mulheres entra em jogo. Se a inspetora assistente é ridicularizada, isso piora com relação à namorada do protagonista, ainda mais com a jornalista lésbica, até culminar em uma representação que chega a ser perversa da personagem secundária bissexual.

Só a personagem de Daria Nicolodi se salva, e nem muito. Trata-se da secretária do protagonista que, apesar de extremamente eficiente e de fazer um ou dois comentários ácidos e certeiros, tem pouca relevância em termos de pensamento investigativo, com raros momentos de iniciativa e ação com relação ao desenrolar da trama. Nicolodi, por sinal, tampouco estava animada com a personagem. Inclusive, a maravilhosa cena do grito (da imagem ilustrativa) foi o resultado da Daria descontando ali as suas frustrações reais com relação às filmagens².

O roteiro tenta justificar em algumas falas do protagonista que o problema está no vilão, mas é o retrato que Argento faz das personagens pré-morte, o modo como ele entende que elas são e se comportam, o que mais me ofende. O problema não é o "vilão", o problema é como possivelmente o filme reflete o próprio cineasta. Ademais, Argento parece ter se inspirado em uma situação real em que um fã começou a persegui-lo². SPOILER: tal qual o protagonista que no fim das contas era apenas mais um misógino fruto da mágoa pela rejeição tentando fingir-se de progressista, sinto que parece ser o caso do Argento, guardadas as devidas proporções. Assim, da mesma forma que o assassino do livro espelha o subconsciente do autor, o roteiro do filme de certa forma espelha o subconsciente do diretor - ou o consciente, pois isso tudo foi, em algum nível, proposital. 

Contudo, a atriz que faz a moça de sapato vermelho da praia é uma mulher transgênero, Eva Robins. Em 1982, quão raro isso era? Vai entender o Dario Argento. Acho que faz parte da complexidade do ser humano... 

Além disso, como eu afirmei acima, as situações mais problemáticas se concentram em sua maioria no primeiro terço do filme. Depois disso, a direção primorosa de Argento quase me faz perdoá-lo. Chega a dar raiva ser "obrigada" a gostar tanto de um filme do qual eu estava gostando tão pouco. Chamo a atenção para talvez um dos momentos que mais me colocaram embasbacada: um travelling em que a câmera vai seguindo bem em close pela fachada de uma casa moderna magnífica ao som da música tema do filme - como sempre, as escolhas de locação e a trilha-sonora continuam a ser grandes diferenciais nos filmes do diretor. Essa cena de dois minutos e meio levou três dias para ser filmada; as distribuidoras norte-americanas queriam cortá-la do filme para o lançamento nos EUA, mas felizmente Argento se recusou³.

Assim, é, talvez, com esse filme que Dario Argento fecha o combo giallo com mais precisão: tem assassino que odeia mulheres (e misoginia em geral), câmera em primeira pessoa pelo olhar do assassino, arma cortante, assassino de luva preta, protagonista homem, trama cheia de reviravoltas, a estética apurada e trilha-sonora marcante. E, de fato, o filme é uma grande homenagem ao giallo literário e aos livros de detetive em geral, visto que, por exemplo, seu protagonista é um escritor de sucesso desse gênero e chega a citar Arthur Conan Doyle. O roteiro, por sinal, é muito elaborado e bem trabalhado - só prefiro não me alongar falando sobre ele pois seria praticamente impossível não entregar spoilers de algum tipo ao fazê-lo.

Em todo caso, apesar de minhas críticas ao filme ocuparem a maior parte da resenha, Tenebre continua sim sendo um dos melhores filmes do diretor. O caso é que se eu for me alongar muito descrevendo as qualidades de Argento, soarei repetitiva, visto que são características marcantes na sua filmografia toda. Talvez o que eu ainda não mencionei é o fato de que ele filma as mortes com um senso estético tão apurado quanto o que ele usa para suas ambientações. Os enquadramentos e a montagem de duas mortes em específico são arrebatadores: na primeira destaco a visão do rosto da vítima através do rasgo da camiseta, e a antepenúltima,  pela quantidade e "comportamento" de sangue na cena.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo ondulado castanho claro cortado um pouco acima dos ombros e franja reta cortada um dedo acima das sobrancelha. Tinha a mão direita abaixada junto ao tronco e a levanta até o lado do rosto enquanto gira uma piteira rapidamente entre os dedos. A câmera acompanha o movimento da mão. Ela usa camisa branca e blazer preto, lápis preto contornando os olhos e está em um como de paredes claras e bem iluminado.
Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso)

1975
Giallo, Terror, Mistério, Suspense
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Bernardino Zapponi



Possivelmente o meu filme preferido do Dario Argento - só não digo com mais certeza, pois Suspiria é uma obra-prima, mas gostar, gostar mesmo, acho que gosto mais de Prelúdio Para Matar. E é, definitivamente, o meu giallo preferido. Sendo que boa parte da minha afeição por esse filme se deve à presença de Daria Nicolodi. Sua personagem Gianna traz a leveza e irreverência perfeitas para balancear o tema pesado que há na história e, segundo a própria Daria, alguns de seus diálogos foram reescritos por ela junto com Zapponi⁴.

A versão originalmente lançada nos EUA possuía 22 minutos a menos. Foram retiradas todas as cenas de humor e as cenas de romance, além de parte da própria trama⁶. Quando penso que isso retirou boa parte das aparições de Nicolodi do filme, fica fácil entender o motivo de ele ter sido um fracasso nos EUA à época do lançamento. A propósito, a versão que se encontra com maior facilidade atualmente é a que tem simultaneamente o áudio em inglês e em italiano, porque não havia a dublagem em inglês das cenas cortadas.

Gosto de Gianna não só porque ela é divertida, mas também por ser uma personagem inteligente e ousada para a época, ainda mais em se tratando do cinema de horror italiano, o qual, como já disse, era extremamente misógino. Gianna tem voz ativa, é determinada, arrojada e ambígua. SPOILER: Ela faz os avanços para cima do personagem de David Hemmings, ela investiga e o instiga a investigar, ela até mesmo o salva. Aliás, o filme quebra com outras características inerentes ao giallo: em Prelúdio Para Matar as vítima não são sempre mulheres e o próprio assassino é um mulher. Sem contar que temos um personagem coadjuvante gay e uma personagem secundária trans, ambos tratados de forma respeitosa pelo protagonista - novamente, algo muito raro para a época e para os giallo (mas, infelizmente, o personagem gay acaba morrendo ao final). 

Mas a influência de Nicolodi vai mais longe do que sua atuação impecável e carismática. Daria foi a pessoa que sugeriu a banda Goblin para a trilha-sonora do filme⁵ e, inclusive, participou da composição das músicas⁴. E posso dizer sem titubear que a música tema de Prelúdio Para Matar é uma das melhores criações feitas para o cinema e faz parte do meu dia a dia - não à toa a retrospectiva do Spotify apontou "vintage italian soundtrack" como o 5º gênero que eu mais ouvi em 2020.

Prelúdio Para Matar, como eu disse na primeira parte desse especial, foi quando conheci e me apaixonei por Daria Nicolodi. E o mesmo pode dizer Dario Argento. Foi na audição desse filme que eles se conheceram e se apaixonaram⁵, ficando os próximos 10 anos juntos. Espero que Argento reconheça a influência positiva que Nicolodi teve em sua carreira. Para dizer o mínimo, ele deve a ela sua longa parceria de sucesso com a banda Goblin e, sem ela, não existiria Suspiria, seu maior sucesso.

Claro, Argento é (ou ao menos era) um diretor excepcional, como já afirmei outras vezes, até mesmo ali em cima. Seu senso estético e sua direção firme estão presentes desde seus primeiros trabalhos. Prelúdio Para Matar tem enquadramentos muito precisos e Dario tem uma habilidade impressionante para criar momentos de tensão a partir de poucos elementos. Além disso, o filme possui ambientações que literalmente foram inspiradas em quadros⁷ e uma mansão abandonada que até hoje é um dos meus cenários preferidos. Também destaco, pensando no sucesso de Prelúdio Para Matar, a sagacidade de Zapponi e Argento ao pensarem em mortes com as quais os espectadores pudessem estabelecer uma relação⁶ - o tipo de dor gerado por um tiro ou uma facada não é algo que muita gente já experimentou, mas queimaduras e abrasões são dores relacionáveis e que praticamente todo mundo já sentiu.

Enfim, com um ótimo elenco, personagens que quebram estereótipos de gênero e sexualidade, um roteiro bem construído, mortes antológicas, cenários inspiradíssimos (repito, aquela mansão abandonada, que coisa ma-ra-vi-lho-sa!), uma trilha-sonora absolutamente perfeita, não posso deixar de amar Prelúdio Para Matar.

Assim, finalizo minha homenagem a uma mulher incrível com esse filme igualmente incrível.



...

¹ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
² Tenebrae (film). In: Wikipedia : the free encyclopedia.
³ Tenebre (1982): Trivia. In: IMDb.
⁴ Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.
⁵ FOTI, Titti Giuliani. Daria Nicolodi: "La mia svolta? Fare la nonna". LA NAZIONE, Firenze, 21 set. 2014.
⁶ Deep Red. In: Wikipedia : the free encyclopedia.

11.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 2

Se na primeira parte da minha série de textos dobre Daria Nicolodi falei mais genericamente sobre sua vida e carreira, me atendo pouco aos três dos filmes que roteirizou, hoje escrevo sobre o outro filme pelo qual ela recebeu os créditos de roteirista, sobre sua participação no último filme de Mario Bava e sobre uma das comédias nas quais atuou. 

Assim, nessa segunda parte, pretendo fazer um apanhado da carreira de Nicolodi para além de sua parceria com Dario Argento.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) com cabelo ondulado castanho claro cortado à um pouco acima dos ombros e com franja curta repicada. Veste um vestido branco com babados na gola e nas mangas curtas, usa gargantilha de pérolas e segura uma lanterna. A parede atrás dela está coberta de tecidos rasgados vermelhos, empoeirados e cobertos de teias de aranha.
Paganini Horror


1989
Terror, Musical
Direção: Luigi Cozzi
Roteiro: Daria Nicolodi, Luigi Cozzi e Raimondo Del Balzo (história)




Já enquanto eu o assistia, estava muito claro para mim que Paganini Horror foi escrito por Daria Nicolodi. Sua estrutura e ideia central tem muitas semelhanças com Suspiria (1977). Trata-se de uma banda pop/rock que compra uma música perdida do compositor e violinista Niccolò Paganini - sobre quem recai uma lenda de que haveria feito um pacto com o demônio em troca de fama. Segundo o roteiro, a música adquirida seria justamente aquela que Paganini teria usado para invocar o demônio. A banda, então, decide fazer um clipe na própria casa onde viveu o compositor e onde ele teria feito o suposto pacto. 

Mas onde estão as semelhanças como Suspiria? 

São três: o envolvimento da trama com a arte, em Suspiria era a dança e em Paganini Horror, a música; a tentativa de ambientar a história em uma mansão assustadora; o fato de a trama ser tão simples e básica, que boa parte da história se passa com os personagens andando, procurando, explorando. Se você assiste aos dois filmes, fica evidente que a estrutura narrativa é muito semelhante.

Infelizmente, o fato de ser um roteiro tão simples, acaba deixando a qualidade do filme muito à mercê da execução. Com uma boa direção, ambientação, iluminação e trilha-sonora, temos uma obra prima. Porém, nas mãos de um diretor e equipe de arte não tão competentes, temos um filme medíocre.

E quero reforçar aqui: o enredo básico é sensacional. A ideia de um compositor violinista fantasma perseguindo uma banda de rock em um casarão antigo é algo que poderia ter virado, de fato, um filme inesquecível! Se o cenário fosse bem construído e a ideia da música amaldiçoada se misturasse à trilha-sonora, causando de fato algum impacto na história... Puxa!

Ao contrário, a casa, internamente, é de paredes brancas e portas simples, extremamente comum, e o único tratamento que recebeu em termos de cenografia foi uma imensidão de panos e véus distribuídos por alguns cômodos e um amontoado de manequins espalhados. Não dá medo, não é bonito, não causa impacto. Existe um quarto, inclusive, que possui um tratamento "diferenciado" para trazer a ideia da teoria da relatividade (que foi enxertada de um jeito bem mambembe no roteiro) em que as paredes brancas estão parcialmente cobertas com a fórmula "E=mc²" e há uma ampulheta gigante a um canto, com uma luz vermelha ou azul que vem de "lugar nenhum" - é um dos cenários mais insípidos (e feios) que já vi na minha vida. A música tema é pouco utilizada e não chega nem a ser marcante durante o filme. (Em compensação, o pôster do filme é maravilhoso!)

Sabe o que eu adoraria? Que o Luca Guadagnino tivesse escolhido esse filme para fazer sua refilmagem. Apesar de eu ter gostado do novo Suspiria, o original não precisava ser refeito, ele já era perfeito. Já Paganini Horror, esse sim, merecia ser revisitado, recontado, reinventado.

Além do roteiro, Nicolodi atuou no filme com uma personagem de certo destaque e com bastante tempo de tela, mas nem isso salva o filme, pois a personagem não é trabalhada o suficiente para ser memorável.

Enfim, pensando em tudo isso, acho perfeitamente justificável que Daria Nicolodi tenha afirmado certa vez que Luigi Cozzi roubou Paganini Horror dela¹. 



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) está deitada em uma cama, seu rosto em close e ombros desnudos, os cabelos castanhos claros espalhados no travesseiro branco e cobrindo parte de uma bochecha e o queixo. Seus olhos claros estão abertos e a boca entreaberta mostrando um pouco dos dentes superiores.
Schock

1977
Terror
Direção: Mario Bava e Lamberto Bava
Roteiro: Lamberto Bava, Gianfranco Barberi, Alessandro Parenzo e Dardano Sacchetti


Também conhecido como Beyond the Door II. 

É difícil de ultrapassar a barreira da primeira meia hora. Tudo o que envolve a relação entre a protagonista e seu filho é tão desconfortável que parece ficar nos instigando a abandonar o filme. Apesar da tentação, recomendo que aguente firme. Tudo tende a melhorar (ou a piorar, a depender do ponto de vista). O fato é que o filme parece se encontrar e a fluir como um bom terror deve ser. A última meia hora chega a ser frenética! Mario Bava nos conduz muito bem num clima de tensão e paranoia crescentes. Há algumas cenas e sequências belíssimas, como por exemplo a cena cuja imagem escolhi para ilustrar essa parte do meu texto.

O lado bom é: temos quase 100% de Daria Nicolodi em tela. E ela está incrível no papel de Dora! Chego a temer que ela tenha arranhado as cordas vocais com tantos gritos desesperados, mas sua interpretação angustiada e à beira da loucura é o que faz o filme se manter nos eixos.

Daria também participou, junto com a banda Libra, da composição da trilha-sonora deste filme² - e a música tema é excelente! Esse é o momento em que eu conto para você que no início do ano montei uma playlist no Spotify com músicas de filmes de terror. Dentre elas, muitas de filmes italianos - a maioria da banda Goblin (ou de Claudio Simonetti), com exceção de cinco. A música tema de Schock é uma dessas cinco e, além dessa, duas de Mansão do Inferno (1980), uma de A Rainha Vermelha Mata 7 Vezes (1972) e uma de A Catedral (1989). E onde eu quero chegar com isso? No seguinte: sei de três trilhas-sonoras com as quais Daria Nicolodi alegava ter contribuído e, muito antes de saber disso, essas três trilhas-sonoras já estavam entre as minhas preferidas do terror italiano.

Segundo o Letterboxd, eu havia assistido Schock em 2016. Informação que, para mim, veio a ser um choque, pois eu não lembrava de absolutamente nada sobre isso. Não lembrava da circunstância que me levou a assisti-lo, não me lembrava do nome, não me lembrava de ter a Daria Nicolodi, não me lembrava do pôster (lindíssimo - apesar de ter sido praticamente copiado da capa do livro "Nós Sempre Vivemos no Castelo", de Shirley Jackson). A música eu conhecia porque comecei a ouvir trilhas-sonoras de filmes de horror italiano e fui colocando as minhas preferidas na já mencionada playlist - mas quando ouvi pela primeira vez no início desse ano, ela não me remeteu a nada, era como se estivesse ouvindo pela primeira vez na vida. Pensei comigo "quando sentar para assistir novamente, irei lembrando aos poucos" (como me aconteceu recentemente quando revi A Rainha Vermelha Mata 7 Vezes, sem lembrar inicialmente que já tinha assistido antes). No entanto, aqui estou eu, recém finalizada a seção, e continuo não lembrando de jamais ter assistido Schock antes. Tudo, absolutamente tudo foi uma surpresa para mim. Fica aí, então, o nosso mistério.


Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo castanho preso em um coque e usando óculos, vestida com roupa social vinho, ao lado de um senhor branco (Jack Lemmon) grisalho usando óculos e terno azul marinho. Estão sentados a uma mesa coberta de documentos e conversam com pessoas extracampo.

Maccheroni



1985
Comédia, Drama
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Ettore Scola, Ruggero Maccari e Furio Scarpelli





Das comédias nas quais Daria atuou, talvez esta não seja aquela em que ela tem mais tempo de tela. Apesar de ser a personagem feminina de maior destaque, o filme gira tão enfaticamente no relacionamento entre os personagens de Jack Lemmon e Marcello Mastroianni, que Nicolodi aparece em poucas cenas. 

O filme é engraçado, Jack Lemmon está muito bem no papel, mas Mastroianni se destaca - engraçado e comovente, brilha e faz o filme praticamente acender sempre que entra em cena. Nicolodi, apesar de secundária, faz seu personagem com graça e entrega perto do final uma interpretação embriagadamente deliciosa e sutil - adoro o momento em que ela tenta colocar o copo na mesa de centro, mas a mesa de centro não colabora. 

Nos primeiros minutos de filme, o modo como começam a construir a personalidade do personagem de Lemmon e apresentam o de Mastroianni, temos a impressão de que será uma comédia mais focada em conflitos, como em Antes Só do que Mal Acompanhado (1987), com Steve Martin e John Candy, mas rapidamente essa impressão é descontruída.

Embora haja uma irritante exaltação do "americano" interpretado por Lemmon pelos personagens italianos e o encerramento da história venha para reafirmar essa impressão, o filme, tal qual o personagem de Mastroianni, é espirituoso, divertido e emocionante. Além disso, esse enaltecimento é justificado  pelo contexto do filme e, ademais, é a cultura italiana que é desenvolvida de modo a nos cativar.

Na comédia, além deste, Daria participou de A Propriedade não é mais um Roubo (1973), seu primeiro filme do gênero; Il minestrone (1981), com Roberto Benigni; Viola (1998), com sua filha Asia Argento; e La parola amore esiste (1998), com Gérard Depardieu. Destes, fiquei bastante interessada em assistir aos dois primeiros.

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A parte 3 estará disponível aqui a partir do dia 21/12/2020.



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¹ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
² Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.

3.12.20

Especial Daria Nicolodi - parte 1

Preto e branco. Uma mulher branca de cabelos lisos castanhos e usando franja que se espalha na testa deixando a pele um pouco descoberta. Seu rosto está em close e quase de perfil. Segura algo com a mão esquerda e cheia de anéis - possivelmente é um espelho, para o qual ela olha concentrada. Na mão direita, um lápis de maquiagem.
Daria Nicolodi por Paolo Monti em 1970.
Eu tenho uma lista de mulheres no cinema que me inspiram, mas por algumas tenho um carinho mais especial. Daria Nicolodi, atriz e roteirista, é uma dessas mulheres. Faleceu aos 70 anos, no dia 26 de novembro deste ano. A notícia me pegou no dia seguinte, quando eu estava chegando ao trabalho, e deixou aquele meu dia mais cinza.

Nasceu em Florença, Itália, filha de um advogado e de uma estudiosa de línguas antigas formada em filosofia. Seu avô materno era pianista e compositor. Talvez por essa veia materna, Daria desenvolveu certa afinidade com línguas e música - falava 8 idiomas e participou da composição de algumas trilhas-sonoras dos filmes em que atuou¹. Frequentou a Academia Nacional de Arte Dramática em Roma e iniciou sua carreira pelo teatro antes de estrear no cinema².

Nunca foi muito de dar entrevistas³ e passou a ficar mais reclusa após a morte de sua filha mais velha, Anna, fruto de um breve relacionamento com o escultor Mario Ceroli. Anna faleceu em 1994 em um acidente automobilístico⁴. Ainda assim, mesmo reservada, Nicolodi possuía uma conta no Twitter, onde postava fotos de flores, compartilhava imagens vinculadas às artes plásticas, e conversava com fãs sobre alguns de seus trabalhos.

Descobri Daria Nicolodi em meados de 2012 em um filme que veio a se tornar um dos meus preferidos da vida: Prelúdio Para Matar (1975), o qual já foi mencionado diversas vezes nesse blog. Desde o primeiro momento, essa mulher me cativou sobremaneira e passei a notar sua presença nos gialli que assisti depois, geralmente dirigidos por Dario Argento, com quem manteve um relacionamento amoroso por cerca de 10 anos. 

Mas não foi só sobre os filmes do Dario Argento que Daria construiu sua carreira. O primeiro filme no qual atuou foi um drama de guerra chamado A Vontade de um General (1970). Em seguida, faria parte do elenco do drama Salomé (1972), mas estava ocupada com uma peça de teatro e não pôde participar das filmagens, apesar de seu nome constar nos créditos por um gracejo do diretor Carmelo Bene⁵. 

Ademais, ela fez outros filmes de drama e cinco comédias - o que não me surpreende, haja visto seu timming cômico afiado. Destaco dentre elas Maccheroni (1985), no qual contracenou com Jack Lemmon e Marcello Mastroianni. No terror, também atuou no primeiro longa dirigido por sua filha, Asia Argento, Scarlet Diva (2000) e no último de Mario Bava, Shock (1977). 

Com Dario Argento, a lista é um pouco mais longa. Apesar de o relacionamento ter terminado em 1985, ela continuou atuando em alguns de seus filmes até 2007, quando ele concluiu a terceira parte da trilogia das mães. No total, foram 8 obras de Argento das quais ela participou. E, apesar de raramente receber os créditos, ela não só atuava em seus filmes¹. Nicolodi afirmava que escreveu com Argento os roteiros de Suspiria (1977) e de A Mansão do Inferno (1980), além de ter colaborado com alguns diálogos de Prelúdio Para Matar, participado da composição da trilha-sonora deste último e de Suspiria, e até mesmo da escolha de elenco de Phenomena (1985).

Assim, de modo a abranger um pouco da carreira dela tanto como roteirista quanto como atriz, decidi separar esse especial em três partes. Hoje ainda pincelarei brevemente sobre aqueles dos quais já falei em outras resenhas: Suspiria e A Mansão do Inferno; e sobre o outro por cujo roteiro ela não foi creditada: Il Gatto Nero (1989). Na próxima semana, falarei de alguns filmes que ela estrelou e não possuem vínculo com Dario Argento: Paganini Horror (1989), Shock e Maccheroni. E na última parte, me concentrarei em outros dois do Argento em que ela atuou: Tenebre (1982) e Prelúdio Para Matar.



Uma mulher branca (Daria Nicolodi) de cabelo castanho liso e com granja cortada reta cobrindo perfeitamente a testa. Ela está de perfil, com seu rosto em close. A iluminação que incide sobre ela é azulada e ao fundo, uma parede vermelha com uma janelinha fina e comprida em estilo art decò e com os vidros deixando passar uma luz azul.Suspiria / A Mansão do Inferno


1977 / 1980
Terror, Giallo
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi 


Daria costumava dizer que a verdadeira autora de Suspiria era a sua avó Yvonne¹. A primeira ideia do filme surgiu após Nicolodi mencionar a Argento sobre a história que sua avó costumava lhe contar quando era criança: Yvonne alegava que teria estudado em uma academia de piano em que as professoras estariam ensinando, além de artes, magia negra². Dario gostou da história e, juntos, trabalharam no roteiro, que também teve como inspiração o ensaio "Suspiria de Profundis" de Thomas De Quincey. Além disso, a sequência final do roteiro foi baseada em um sonho que Daria teria tido quando morava em Los Angeles⁴.

Apesar de ser a parte mais criticada do filme, por ser excessivamente simplório e com alguns "furos", o roteiro é, a bem da verdade, bastante interessante e eu sempre defendi que era o suficiente para obra de arte imortal que Suspiria viria a se tornar. Os diálogos infantilizados, por exemplo, se dão devido ao fato de que originalmente a ideia seria que as estudantes da Academia de Dança fossem crianças de 8 a 10 anos⁶. Mas a mística das Três Mães, a ideia da arte vinculada com a magia, o ar fabulesco, são qualidades que o filme tem e que devem não só à direção precisa de Argento, mas ao próprio roteiro.

E se você acha que a contribuição de Daria se encerra na criação do roteiro, pode se sentar. Ela alega que participou, ainda, da composição da excelente trilha-sonora junto com a banda Goblin!¹ Ademais, apesar de não ter atuado no filme, é dela a voz de Helena Markos, a Mater Suspiriorum (Mãe dos Suspiros)⁶.

Não obstante a participação inegável de Nicolodi no roteiro de Suspiria, foi uma luta para conseguir convencer Dario Argento a lhe dar seus devidos créditos. E foi por não querer passar pela mesma provação que, mesmo o próprio Argento confessando ter trabalhado no roteiro de A Mansão do Inferno a partir de uma história escrita por ela, Nicolodi acabou deixando passar a falta de seu nome nos créditos como roteirista do segundo filme⁷. 

Ainda assim, nos últimos anos, em diversas oportunidades ela fez questão de afirmar sua participação crucial na criação da história de A Mansão do Inferno, argumentando, inclusive, que os dois filmes que ela roteirizou com Dario Argento são incomparáveis em sua carreira e que, até então, os filmes dele eram sempre sobre histórias de detetive¹. Não posso negar que faz sentido. Mas, hei, eu já estava convencida antes mesmo desse argumento, tendo em vista que Dario Argento não tem um bom histórico em se tratando de dar os devidos créditos às pessoas - basta procurar no IMDb o nome de Mario Bava na lista da equipe técnica do próprio A Mansão do Inferno.



Uma sala ampla e escura, com mobiliário antigo coberto de teias de aranha e parca iluminação que mistura o vermelho e o azul. Uma mulher está parada à entrada da sala, em frente a uma enorme porta de metal e vidro. Como parte da luz (azulada) entra pela porta, a mulher se torna quase apenas uma silhueta.
Il gatto nero


1989
Terror, Fantasia, Drama
Direção: Luigi Cozzi
Roteiro: Daria Nicolodi e Luigi Cozzi




Daria Nicolodi escreveu esse roteiro para ser a terceira parte da Trilogia das Mães, mas o produtor não estava interessado e Dario Argento decidiu focar em seu próximo filme, Tenebre⁸. Bobo ele, pois absolutamente qualquer coisa teria sido uma ideia melhor do que o que veio de fato a se tornar o último filme da trilogia (sem a participação da Daria no roteiro, diga-se de passagem). 

Nicolodi, alguns anos depois, entregou o roteiro a Luigi Cozzi, na esperança de que este resolvesse dirigí-lo. Contudo, Cozzi fez alterações no roteiro para transformá-lo mais em uma homenagem aos dois primeiros filmes, ao invés de uma sequência. Quando Daria viu o resultado, decidiu abandonar o projeto⁸. Certa ela, pois a colcha de retalhos que Il gatto nero (também conhecido como Demon 6: De Profundis) virou, chega a dar vergonha.

Uma das únicas coisas interessantes no filme é o uso de metalinguagem, que chega a lembrar um pouco O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (1994). No entanto, para além das modificações de Cozzi no roteiro, como o CEO da distribuidora havia decidido por conta própria vender o filme como uma obra baseada em um conto de Edgar Alan Poe, uma das soluções "brilhantemente" escolhidas foi inserir cenas de gatos pretos em uma história que nada tinha a ver com o conto. 

Tudo no filme é tão mal realizado, que beira o ridículo. Os cenários não trazem nenhuma originalidade, a inserção da trilha-sonora nas cenas é abrupta e totalmente destoante, a maquiagem da bruxa Levana é muito muito muito ruim. Cozzi tenta, ainda, emular a iluminação chapada e colorida de Argento, mas o resultado é um fiasco, com luzes oscilantes e pulsantes que não compõem uma ambiência assustadora ou onírica, apenas incomodam (e não do jeito que um filme de terror gostaria de incomodar).

Provavelmente, com a direção de Argento e a ideia original de Nicolodi, este teria se tornado um ótimo encerramento para a trilogia das mães: melhor que O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas e muito melhor que Il gatto nero. Infelizmente, nunca saberemos.

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A parte 2 estará disponível aqui a partir do dia 11/12/2020.



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¹ Seleção de tuítes da Daria Nicolodi. @NicolodiDaria. In: Twitter.
³ FOTI, Titti Giuliani. Daria Nicolodi: "La mia svolta? Fare la nonna". LA NAZIONE, Firenze, 21 set. 2014
⁴ Daria Nicolodi. In: Wikipedia : L'enciclopedia libera.
⁵ FOSCHINI, Francesco. Daria Nicolodi, l‘importante non è raccontarsi. Il manifesto, 4 jul. 2020.
⁶ Suspiria (1977): Trivia. In: IMDb.
⁸ The Black Cat (1989)Trivia. In: IMDb.

2.12.20

Daria Nicolodi - Twitter

Algumas das informações do meu texto sobre Daria Nicolodi foram retiradas da conta dela do Twitter: @NicolodiDaria. Como trata-se de algo instável, visto que esta conta pode sair do ar por inúmeros motivos, resolvi juntar aqui alguns dos tuítes que usei como fonte, de modo que as informações não se percam. Junto, vou deixar links para cada um deles.

- Sobre Daria ter participado da escolha do elenco de Phenomena:

Yuri Di Genova (@YuriDiGenova), em 11/07/2014: "Jennifer Connelly è stata chiamata da Dario Argento per interpretare Phenomena?" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 11/07/2014: "Fiz o casting em NYC tive carta branca do Dario, foi difícil convencer genit minor." (Traduzido do italiano por Google).
Link 01.

- Daria falava muito sobre ter escrito Mansão do Inferno, além de Suspiria:

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 10/01/2018: "Gostaria de escrever para amigos que curtam aqui no Tw. Suspiria e Inferno, os dois filmes que escrevi para Argento, mas não tenho tempo. Desculpe e Thnx." (Traduzido do inglês por Google).
Link 02.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 01/09/2018: "Na minha opinião, quem o concebeu imaginou e escreveu mais :)" (Traduzido do italiano por Google) // angela rita iolli (@angelaritaiolli), em 01/09/2018: "Ma anche chi l'ha scritto ha fatto un capolavoro ☺ proprio un'immaginazione e un'idea fantastiche. Proprio brava Lei Signora Nicolodi" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 01/09/2018: "Obrigado.  Suspiria e Inferno  os dois filmes "fantásticos" que escrevi para Argento,  na época, diretor de histórias de detetive, acho que são tão bonitos quanto o Frankenstein de Mary Shelley e que só uma mulher poderia concebê-los." (Traduzido do italiano por Google)
Link 03.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 24/03/2018: "Eu imaginei e escrevi Suspiria e Inferno para Mr.Argento.  Acho que os dois filmes são peculiares em sua cinematografia." (Traduzido do inglês por Google).
Link 04.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 04/11/2019: "Muito obrigado, Jeanette.  Espero que você veja Suspiria.It foi imaginado e escrito por mim.Inferno também.  O título foi inspirado no livro de De Quincey, a história de um conto narrado para mim por minha avó Yvonne." (Traduzido do inglês por Google).
Link 05.

Andrew Hawkins (@mrandrewhawkins), em 16/05: "Brilliant film and one of my favorite movies written by  @NicolodiDaria  too!" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 16/05: "Thank you,Andrew. Writing Suspiria and Inferno for Dario Argento,collaborating to each single scene,from every point of view, was quite an...experience. I wonder I'm alive"
Link 06.

Timothy J Walker (@TimWalker25), em 22/12/2018: "Darla is simply one of the most gloriously beautiful women of all time!" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 22/12/2018: "Oh Tim .My Grandma Yvonne,the real author of Suspiria and Inferno used to say : "Se non e'vero,e'ben trovato!".Thank you very much,Tim ❣." (Traduzido do inglês por Google).
Link 07.

- Sobre Daria ter participado da composição das músicas de Suspiria, Shock e Prelúdio para Matar:

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 10/02/2019: "Sou o responsável e criador com o Goblin da música do Profondo Rosso e Suspiria e com I Libra da música do Shock.Il O resto não me responsabilizo, lamento não lhe dar satisfação. Obrigado, Giorgio 🎶" (Traduzido do italiano por Google).
Link 08.

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 26/09/2018: "Torino, 1974, Profondo Rosso  com meus dois D. favoritos.  Pela musica voce pode me agradecer Buonanotte.La terceiro D" (Traduzido do italiano por Google). Foto em preto e branco de Dario Argento, Daria Nicolodi e David Hemmings.
Link 09.

"Este tweet pertence a uma conta suspensa." // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 21/10/2019: "Verdade. A música de Deep Red e o roteiro de Inferno também. Obrigado por lembrar 🖤" (Traduzido do inglês por Google).
Link 10.


- Sobre Daria ter escrito alguns diálogos de Prelúdio para Matar:

Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 24/12/2017: "Posso te contar uma coisa?  Reescrevi muitos diálogos com Zapponi.  Eu inventei a música do Profondo Rosso! O que posso dizer ... Divirta-se!" (Traduzido do italiano por Google) // Walter Romanò (@whitesnake66), em 24/12/2017: "ma...una domanda,e...Giorgio Gaslini???" // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 24/12/2017: "O mestre Gaslini obviamente melhor do que Simonetti Jr. afixou sua assinatura em alguns momentos musicais que você pode reconhecer.  obrigado ;)" (Traduzido do italiano por Google)
Link 11.


- Sobre Daria falar 8 línguas:

gianluca ellena (@gianlucaellena1), em 27/09/2018: "D.Argento immagino all'epoca già parlasse inglese. Riusciate a capirvi in scena con David? In fondo lui era io protagonista e il regista avrà dovuto dirgli tante cose..." // Daria Nicolodi (@NicolodiDaria), em 27/09/2018: "Eu falo oito idiomas.  O Dario fala de francês e inglês, muitas vezes atuei como tradutor, se é isso que ele estava perguntando, então nos sets italianos com atores estrangeiros sempre há um diálogo coach.In Deep Red Sr. Neil Robinson" (Traduzido do italiano por Google).
Link 12.



25.11.20

O Que Ficou Para Trás (His House)

Um homem (Sope Dirisu) e uma mulher (Wunmi Mosaku), ambos negros, sentados no chão sobre um tapete vermelho, frente à frente, em um ambiente cujas paredes estão descascadas e remendadas. Ele tem cabelo preto muito curto e ela usa seu cabelo preto em um penteado que o deixa preso em ondas rente à cabeça. Entre eles, uma toalha clara de mesa estendida ao chão e um jantar e velas espalhados sobre ela. Os dois estendem o braço ao centro da toalha para se servirem de comida. Por causa da iluminação e do cenário, a cena tem uma tonalidade predominantemente alaranjada.

 

2020
Terror, Drama, Suspense
Direção: Remi Weekes
Roteiro: Remi Weekes, Felicity Evans e Toby Venables
 




Bol Majur (Sope Dirisu) e Rial Majur (Wunmi Mosaku) acabam de chegar à Inglaterra após fugir de uma guerra no Sudão do Sul e perder a pequena Nyagak (Malaika Wakoli-Abigaba) durante a travessia. O casal irá enfrentar, além das dificuldades para se adaptar no novo país e relativas ao luto, a perseguição de uma entidade que os acompanhou: O Bruxo (Javier Botet).

Assisti a O Que Ficou Para Trás já ansiosa e cheia de expectativas, após ter ouvido uma série de elogios espalhados sobre ele. Trata-se do longa de estreia de Remi Weekes, de modo que impressiona a habilidade do diretor em construir momentos de absoluta tensão recheados de ápices assustadores. 

O filme mantém-se na tendência da última década, de retomada do terror psicológico que pontuou o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, de calcar-se em situações reais entremeadas por algo sobrenatural - de modo que o sobrenatural costuma vir com uma carga metafórica que reforça e/ou amplia o sentido do horror já criado pela situação real posta. Vemos isso claramente em O Bebê de Rosemary (1968) e Inverno de Sangue em Veneza (1973), bem como em O Babadook (2014), Corra (2017) e Relic (2020), por exemplo.

No entanto, Remi dá um passo adiante, simultaneamente recuperando o susto como instrumento dentro do terror, o qual estava bastante desgastado após sua utilização ter sido esvaziada de sentido ao longo da história do gênero. Não é exagero quando digo que já há muito tempo não me deparo com um lançamento cinematográfico que tenha me atormentado com uma quantidade tão grande de sustos. E o grande pulo do gato é, digamos, a ausência de um pulo do gato. Trocadilhos à parte, o trunfo de Weekes é conseguir ancorar todos os sustos com absoluto sentido dentro de cada cena. Não há sequer um susto vazio, nenhum uso do clichê "era apenas um gato". 

Assim, o filme traz um casal atormentado por uma entidade sobrenatural, pelo luto e pela culpa, de modo que esses três elementos se fundem para criar uma atmosfera de deslocamento e desespero, permeada por momentos indiscutivelmente aterradores. Para além disso, os dois se encontram agora inseridos em uma nova cultura, enfrentando preconceito, humilhações e tendo que lidar com sentimentos conflitantes de gratidão e raiva. Rial e Bol estão sozinhos em um lugar hostil, que os recebe a contragosto e exige uma subserviência à qual é muito difícil de se submeter. Estão sozinhos e têm apenas o apoio mútuo ao qual recorrer. No entanto, quanto mais problemas surgem, mais eles se distanciam um do outro, ampliando cada vez mais a sensação de desolamento e desesperança. 

A ambientação é muito bem construída, de modo a reforçar as sensações desejadas. Quando Bol resolve explorar a cidade pela primeira vez, seu estado de espírito se traduz tanto nas locações quanto nas relações com os figurantes. Já Rial encontra uma cidade completamente diversa: labiríntica, ameaçadora. A própria casa onde moram vai se modificando com as ações dos protagonistas, ajudando a estabelecer um cenário que espelha a saúde mental dos mesmos. Por fim, ainda no quesito ambientação, a edição de som e trilha-sonora, em específico nas sequências mais calcadas no terror explícito, fazem um trabalho excelente no sentido de aumentar exponencialmente a nossa inquietação e medo puro. 

Além disso, mesmo se passando na Inglaterra, o longa nos coloca em contato com uma cultura menos eurocentrada, por meio do figurino, linguagem e das cenas que se passam no Sudão do Sul (sejam reais, lembradas ou imaginadas). E até mesmo a figura do bruxo, com sua história e caracterização, nos coloca em contato com novas crenças.

O filme conta com atuações primorosas da dupla de protagonistas e com a certeira participação de Matt Smith. Sope Dirisu entrega uma atuação inicialmente carismática - carisma esse que passa a ser de extrema importância conforme a trama se desenrola - e obsessiva, enquanto Wunmi Mosaku (que faz parte do elenco da muito comentada série Lovecraft Country, lançada neste ano) traz sensibilidade entremeada com dureza, também imprescindíveis para compor sua personagem.

E é por tudo isso que Remi Weekes entra para a minha lista de grandes promessas do cinema contemporâneo. Vamos ficar atentos! Afinal, diante de tantas qualidades, não há dúvidas de que recomento O Que Ficou Para Trás com louvor!